Miquéias 6.1-8
Ciclo do Tempo Comum
P. William Felipe Zacarias
Amados irmãos, amadas irmãs,
O mundo quer holofotes e poder, mas Deus resolveu assumir a cruz!
No mundo em que todos buscam glória, prosperidade e poder, a cruz escandaliza. O mundo valoriza a vitória, o sucesso, o êxito. Deus decidiu se revelar no fracasso, na derrota e na dor. O mundo quer beleza, esplendor e ostentação. Deus decidiu se revelar no semblante machucado e ferido de um corpo pendurado em uma cruz.
O mundo quer “teologia da glória”, como dizia Martinho Lutero. Muitos querem aquilo que teólogos chamam hoje de “teologia do domínio” que é uma forma de pregação que quer dominar e controlar a sociedade. Nós, evangélicos de confissão luterana, porém, continuamos firmes na teologia da cruz! Lutero escreveu em 1518 (ouçamos com atenção): “No Cristo crucificado é que estão a verdadeira teologia e o verdadeiro conhecimento de Deus” [1]. Se queremos ver e conhecer Deus, então devemos contemplar o rosto do crucificado! Nele, está o rosto de Deus! Está a sabedoria de Deus que aparece ao contrário das expectativas humanas.
Lutero argumentava que para a salvação o ser humano não possui livre-arbítrio. Após a queda de Adão e Eva, a vontade humana não é livre, mas totalmente escrava do pecado. E tudo está com a marca do pecado – até as coisas boas. É por isso que a salvação precisa vir de fora: Deus tomou a iniciativa e ofereceu Jesus Cristo para libertar o ser humano da escravidão do pecado e conduzi-lo ao amor de Deus. Não há, portanto, mérito, glória ou sucesso no ser humano quanto à sua salvação eterna. Os holofotes se apagam; não, o foco não está no ser humano, mas no Cristo crucificado. Não há mérito algum no ser humano pela sua salvação: ela é uma dádiva de Deus dada pela graça que torna todos os pecadores iguais. Enquanto a teologia da glória, a teologia do domínio e outras pelo mundo fantasiam o ser humano com as vestes dos méritos, do poder e da salvação por obras, a teologia da cruz é como um espelho que mostra quem realmente nós somos: “Pois todos pecaram e carecem da graça de Deus” (Romanos 3.23). Aqui não está a sabedoria do mundo ou a sabedoria mentirosa da serpente que quis convencer o ser humano que ele pode ser como Deus; não, o ser humano não pode ter o conhecimento do bem e do mal como Deus porque essa sabedoria passa pelo inocente Cordeiro de Deus morto na cruz. A teologia da glória e a teologia da prosperidade enfeitam a realidade: são sabedoria humana, inventadas por humanos; já a sabedoria da cruz é dom de Deus concedido pelo agir do Espírito Santo, como ouvimos. Contudo, a grande multidão continua ouvindo graciosamente as mentiras da serpente que com algumas luzes, promessas de glória e sucesso e uma pitada de emocionalismo, continua conduzindo multidões à perdição.
A teologia da glória nasceu em Gênesis 3 quando Adão e Eva precisaram através de folhas de figueira (boas obras) justificarem a si mesmos diante de Deus para esconderem sua vergonha e mostrarem-se como bons; a teologia da cruz nasceu na Sexta-feira da Paixão quando o Filho de Deus morreu na cruz para, por seus méritos e por sua obra, salvar o ser humano de graça.
Por isso nós resgatamos e conservamos a imagem do Cristo crucificado em nosso altar. É isso que simboliza que nossa Igreja é verdadeiramente evangélica – Igreja do Evangelho. Ali está a imagem do amor de Deus. Ou, como escreveu Lutero, “a imagem da graça não é outra coisa que Cristo na cruz”[2]. Ali está a imagem da graça! A cruz vazia não é símbolo da ressurreição, mas o instrumento de morte utilizado pelo Império Romano; a cruz com o crucificado é a imagem da graça onde encontramos a sabedoria de Deus que resolveu se revelar na fraqueza.
Amados irmãos, amadas irmãs,
O mundo quer holofotes e poder, mas Deus resolveu assumir a cruz!
No mundo, homens poderosos e nações matam uns aos outros para demonstrar poder; Deus, porém, se revelou na humilde fraqueza da cruz. No mundo, a mensagem diz “eu primeiro”; a cruz nos ensina: “negue a si mesmo”. No mundo, a mensagem diz “construa sua imagem”; a cruz nos ensina: “carregue a sua cruz”. No mundo, a mensagem diz “antes de tudo, meus interesses”; a cruz nos ensina: “perca para ganhar”. Por isso a sabedoria do mundo é considerada loucura diante de Deus e a sabedoria de Deus é loucura para o mundo.
A sabedoria de Deus revelada na cruz pede a você hoje:
· ame sem esperar retorno;
· sirva sem esperar aplausos;
· perdoe sem esperar ser compreendido;
Essa é a sabedoria de Deus. Sabedoria que aguarda os céus enquanto já vivemos a eternidade na terra: “Nem olhos viram, nem ouvidos ouviram, nem jamais penetrou em coração humano o que Deus tem preparado para aqueles que o amam” (1 Coríntios 2.6). Esse lugar foi conquistado na cruz. O preço foi pago com o sangue derramado no madeiro. Vivamos de maneira digna e grata à obra que Deus em Cristo fez por nós. E testemunhemos para que outros recebam a herança da vida eterna.
As multidões se movimentam pelo nosso mundo. E eu tenho a impressão de que as pessoas buscam hoje aquilo que a Igreja nunca foi chamada a oferecer. As pessoas buscam hoje aquilo que a Igreja nunca teve a missão de dar. Multidões são levadas pela teologia da prosperidade – ou por algo que lhes faça resplandecer, um discurso motivacional... Isto não está no Novo Testamento! Agora, arrependimento, perdão, essa pregação não atrai. “Isso eu não quero”. Mas é isso que nós temos no Novo Testamento. É isso que Jesus veio nos oferecer.
Nós como IECLB temos procurado responder à pergunta: por que a nossa igreja, em nível nacional está diminuindo? Nós somos uma igreja que tem decrescido. Por que, será? Aí faço uma outra pergunta: será que o problema está na igreja? Ou as pessoas estão buscando aquilo que a igreja não tem a missão de oferecer? Porque as pessoas querem a sabedoria do mundo que eleva, mas Deus nos oferece a sabedoria da cruz. E então vem outra pergunta importante: vamos abandonar a sabedoria da cruz que é a nossa essência como Igreja Luterana para atrair mais pessoas e crescer ou vamos ser fiéis com os poucos que temos, sem abandonar a nossa identidade como igreja a partir da Escritura. Talvez, ser fiel à Palavra signifique passar por tempo de carestia, tempo de dificuldade para a nossa igreja. Mas a resposta que dou é: vale a pena ser fiel, ainda que a sabedoria da cruz não seja a sabedoria que o mundo procura. Vale a pena ser fiel ao nosso propósito de ser como igreja que prega pura e retamente a Palavra de Deus e administra corretamente os sacramentos – a Santa Ceia e o Batismo onde Deus oferece perdão, graça e misericórdia. Talvez o problema não esteja na igreja; talvez o problema seja esse tempo difícil em que as pessoas procuram aquilo que Jesus não mandou a Igreja dar. Vamos nós permanecer fiéis na Palavra de Deus, ainda que esses tempos sejam difíceis, ainda que esses tempos sejam perturbadores. “Sê fiel até a morte e dar-te-ei a coroa da vida” (Apocalipse 2.10). Vale a pena ser fiel a esse Deus que morreu na cruz por nós e ressuscitou para nos dar a vida eterna. Essa é a mensagem. Essa é a sabedoria da cruz. Não é um discurso motivacional, vazio, mas é a sabedoria que passa pela dor da Sexta-feira da Paixão para então ressuscitar com poder no Domingo de Páscoa.
O mundo quer holofotes e poder, mas Deus resolveu assumir a cruz!
Amém.
[1] LUTERO, Martinho. O Debate de Heidelberg - 1518. in: LUTERO, Martinho. Obras Selecionadas. v. 1: Os primórdios – Escritos de 1517-1519. 3. ed. São Leopoldo: Sinodal; Porto Alegre: Concórdia; Canoas: Ulbra, 2016. p. 50.
[2] LUTERO, Martinho. Um sermão sobre a preparação para a morte - 1519. in: LUTERO, Martinho. Obras Selecionadas. v. 1: Os primórdios – Escritos de 1517-1519. 3. ed. São Leopoldo: Sinodal; Porto Alegre: Concórdia; Canoas: Ulbra, 2016. p. 390.