Romanos 1.1-7
Ciclo do Natal
P. William Felipe Zacarias
Amados irmãos, amadas irmãs,
Feliz Páscoa (não se preocupem... O pastor não ficou maluco kkkk). Feliz Páscoa é realmente o que eu preciso te desejar hoje. Sabe por quê? Porque o Natal só é Natal por causa da Páscoa: sem a sua ressurreição, não haveria motivo para celebrar o nascimento de Jesus – afinal de contas, seria apenas o nascimento de mais uma pessoa “normal” como tantas outras. Mas a sua Ressurreição mudou tudo! Paulo relaciona o Natal com a Páscoa porque sem a Páscoa não haveria natal!
A carta de Paulo aos Romanos foi sempre uma “bomba” na História da Igreja: Agostinho de Hipona se converteu após ler Romanos; Lutero, um monge agostiniano, redefiniu os rumos da Igreja no Ocidente ao ler Romanos 1.17; no século XX, Karl Barth (um pastor não tão conhecido nas Comunidades luteranas brasileiras) publicou um dos melhores comentários bíblicos sobre a carta aos Romanos já escrito. Romanos é essa carta da Bíblia responsável por fazer grandes mudanças – e hoje a carta aos Romanos quer trazer mudanças no nosso entendimento do que é o Natal.
Estamos por volta do ano 55 ou 56 d. C. Paulo compreendeu pelo agir do Espírito Santo que a sua missão no oriente terminou. Agora, é hora de se voltar para o Ocidente. A igreja de Roma havia sido fundada em 49 d. C. e ainda não conhecia o apóstolo Paulo pessoalmente. Por isso, Paulo escreve aos irmãos de Roma uma carta para apresentar a eles o conteúdo da sua pregação e para que se preparem para recebê-lo pessoalmente. O mais interessante é que Paulo não inicia a carta apresentando o seu currículo, as suas habilidades ou os seus méritos. Paulo apresenta Cristo – e isso basta!
Por isso, convido você a olharmos para como Paulo apresenta Cristo no início da sua carta aos Romanos.
1 QUEM É JESUS?
O texto bíblico está cheio de Jesus. Enquanto grande parte do Natal hoje está cheio do ego humano, Paulo deixa o seu ego de lado para testemunhar de Jesus. Portanto, quem é Jesus? Quem é aquele que nasceu de Maria? Quem é aquele que foi deitado em uma manjedoura?
a. O Messias Prometido (v. 2): Deus prometeu o Evangelho no passado e cumpriu a sua promessa com a vinda de Jesus. O apóstolo Paulo era doutor na Lei (hoje diríamos doutor em Antigo Testamento) – ele sabe do que está falando e tem certeza de que as profecias antigas se cumpriram em Jesus. O Antigo Testamento está cheio de sinais que prepararam o mundo para a vinda de Jesus. João Crisóstomo, pai da Igreja, escreveu:
Quando Deus está prestes a fazer algo grandioso, Ele o anuncia com bastante antecedência para acostumar os ouvidos dos homens, de modo que, quando acontecer, eles o aceitem. Os profetas não apenas falaram, mas também escreveram o que disseram; e não se limitaram a escrever, mas por meio de suas próprias ações representaram o que estava por vir, como Abraão quando ofereceu Isaque; e Moisés quando ergueu a serpente e quando ofereceu o cordeiro pascal.[1]
O nascimento de Jesus é “o resultado amadurecido da história, fruto do tempo como semente da eternidade, predição cumprida”[2], escreveu Karl Barth. Aquilo que os antigos ouviram agora as pessoas do presente podiam ver! Lutero chegou a escrever que agora, em Jesus, o Antigo Testamento faz sentido e que a carta de Paulo aos Romanos é “uma introdução a todo o Antigo Testamento”[3].
Portanto, o menino deitado na manjedoura não nasceu pelo acaso, mas para o cumprimento das promessas que Deus já havia feito ao seu povo.
b. Verdadeiramente homem e histórico (v. 3): O menino nascido em Belém é um ser humano. Ele nasceu como todos os seres humanos. Ele tem uma família. Ele tem necessidades humanas. Ele sofre. Ele chora. Ele sente dores. Ele participa completamente da nossa humanidade – em tudo igual a nós, exceto no pecado. Ele é filho de Davi na fraqueza da sua carne.
c. Verdadeiramente Deus (v. 4): Mas, no poder do Espírito, ele é Filho de Deus. Ele é Filho de Deus pelo poder de Deus – ele é a segunda Pessoa da Trindade – em tudo igual ao Pai, exceto na Paternidade, pois ele é o Filho, não o Pai. Ele não está distante do mundo e de sua humanidade, mas, de fato, entrou no mundo, não tangencialmente, mas verdadeiramente. Sua ressurreição dos mortos confirma a sua identidade divina – e ilumina o passado: ele foi concebido pelo Espírito Santo.
A ressurreição dos mortos é o evento revelador da História da Salvação em Cristo Jesus. Seu nascimento, sua apresentação no templo, seu aprendizado no templo aos doze anos e seu ministério são escritos e transmitidos por causa da sua Ressurreição. A Ressurreição é o grande evento que dá sentido à toda a história de Jesus e que ilumina os apóstolos a transmiti-la para judeus e gentios. Se não houvesse a Ressurreição, não haveria motivos para celebrar o seu nascimento – pois ele seria apenas mais um na multidão que viveu, deixou sua mensagem e morreu. Cristo ressuscitou – e sua ressurreição é o motivo da celebração da sua encarnação e do seu nascimento entre nós, pois sem a doutrina da ressurreição, não há a doutrina da encarnação. A ressurreição é a confirmação da sua identidade: Jesus é o Cristo.
2 QUEM SOMOS NÓS EM CRISTO JESUS?
A partir da identidade de Cristo, pela fé, o ser humano recebe uma nova identidade em Cristo a partir do seu batismo. A partir da alegria do seu nascimento e da sua ressurreição, quem nós somos chamados a ser?
a. Servos do Rei (v. 1): A ênfase passa a estar menos em nós mesmos e em nossas obras e passa a estar em Cristo Jesus. O ego sai de cena para que Jesus apareça com destaque. Nós não somos senhores, mas servos. Somos chamados a sermos representantes do Rei neste mundo. O menino que nasceu em Belém é o nosso Rei – por isso despertou a fúria de Herodes que decretou o massacre dos inocentes. O ser humano com seu poder não aceita ser servo de um Deus que se faz fraco em uma frágil criança deitada em uma manjedoura. Isso ensina que o reinado de Cristo não está no poder, mas no serviço onde partilhamos o amor de Deus com outras pessoas.
b. Filhos de Deus (vs. 5-6): O Filho de Deus se tornou o nosso irmão (cf. Hebreus 2.11-12). Por ser nosso irmão, faz de seu Pai ser o nosso Pai, tornando-nos Filhos de Deus. Jesus Cristo é Filho de Deus, o Pai, pelo poder do Espírito Santo. Nós somos filhos de Deus não em poder, mas pela graça de Deus que nos chamou para a sua herança através da obra na cruz[4].
Não somos filhos de Deus porque merecemos. Ao contrário, pertencemos à família de Deus por sua espontânea bondade e por seu incondicional amor. “Graça só é graça quando é incompreensível”[5], escreveu Karl Barth. Mesmo em meio aos nossos pecados, Deus decidiu pelo perdão e pela reconciliação através do menino nascido em Belém. Esse amor é incompreensível – porque não o compreendemos –, mas é suficiente que creiamos em seu nome (cf. João 1.11-12).
c. Santos (v. 7): Santidade não significa ser perfeito, mas buscar viver a vontade de Deus aprendendo diariamente com Jesus. Somos simultaneamente justos e pecadores por causa de Cristo. Quando somos confrontados com o pecado, precisamos lembrar que fomos justificados pela obra de Deus na cruz; quando esquecemos o pecado, precisamos ser lembrados que desde Gênesis 3 somos humanidade caída e que não podemos não pecar (como dizia Agostinho). O menino nascido em Belém é Jesus, o Salvador (cf. Mateus 1.21). Sobre a sua manjedoura está a sombra da cruz – ele nasceu para nos salvar dos nossos pecados.
Amados irmãos, amadas irmãs,
Natal só é Natal quando lembramos da Páscoa, pois sem a Páscoa, não haveria Natal. Deus fez tudo isso por nós – por você! O nascimento do Salvador é a certeza de que a morte não tem a última palavra sobre as pessoas que creem; o nascimento do Salvador é a certeza de que não há pecado que não possa ser perdoado; o nascimento do Salvador é a certeza de que Deus vem ao nosso encontro onde quer que estejam os rumos das nossas vidas. O Salvador nasceu: nasceu para a cruz e para a ressurreição; nasceu para a Páscoa e Salvação.
Preencha o seu Natal com a Páscoa – e só então você descobrirá o verdadeiro sentido do Natal. E que a vida em abundância da Páscoa encha o seu Natal de vida em abundância hoje (cf. João 10.10). Que a luz de Cristo do Domingo de Páscoa brilhe e disperse toda a escuridão da sua vida. Que a sepultura vazia do Domingo de Páscoa seja a certeza de que o Emanuel está presente conosco hoje.
Mais do que um Feliz Natal, hoje eu te desejo uma Feliz Páscoa.
Amém.
[1] João Crisóstomo. <https://catenabible.com/rom/1/2#:~:text=When%20God%20is,the%20paschal
%20Lamb.>. Acesso em: 23. dez. 2025. Tradução própria.
[2] BARTH, Karl. A Carta aos Romanos. São Leopoldo: Sinodal: 2016. p. 73.
[3] WA DB, 7,27,21-24. apud: BARTH, Karl. A Carta aos Romanos. São Leopoldo: Sinodal: 2016. p. 73.
[4] Cf. Cirilo de Alexandria. <https://catenabible.com/rom/1/4#:~:text=As%20Christ%20was,to%20their
%20original.%20.> Acesso em: 23. dez. 2025.
[5] BARTH, 2016. p. 76.