Miquéias 6.1-8
Ciclo do Tempo Comum
P. William Felipe Zacarias
Atenção! O profeta Miquéias anuncia de braços levantados: o povo de Deus está no banco dos réus. O próprio Senhor é o juiz. E a sentença já está dada!
A corrupção impera por todas as partes. Poderosos apossam-se de terrenos e das casas dos mais fracos, maltratam as mulheres destas casas e vendem seus filhos como escravos (cf. Miquéias 2.1-11). As autoridades que deveriam enfrentar a injustiça, colaboram com ela (cf. Miquéias 3.1-4). Os juízes, sacerdotes e profetas que deveriam refrear as injustiças e denunciá-las, rendem-se a quem paga mais (cf. Miquéias 3.9-11).[1] Os juízes não cumprem os seus deveres (cf. Deuteronômio 16.18-20) e a solidariedade aos estrangeiros, órfãos e viúvas (cf. Deuteronômio 24.17-21) foi abandonada. Quando a injustiça reina, quem mais sofre são os mais vulneráveis.
Ao mesmo tempo, as obrigações religiosas do povo de Deus “estão em dia”. Por comparecerem constantemente ao culto no Templo e oferecerem sacrifícios, acreditam estar vestidos com as vestes da piedade e protegidos de todo mal. Apesar de se vestirem com as roupas da piedade, o Senhor sabe que durante a semana tudo o que praticam é a injustiça, a infidelidade e a falta da misericórdia. Se Israel e Judá não mudarem os seus caminhos, a desgraça virá a galope! (E veio, com a invasão assíria e babilônica).
1 ESCUTEM, O JURI ESTÁ FORMADO (v. 1-2)
O profeta Miquéias anuncia de braços levantados: o povo de Deus está no banco dos réus. Nada de falar. Agora, é tempo de ouvir – como já deveriam ter ouvido desde os tempos antigos (cf. Deuteronômio 6.4-9, Shemá Israel). O júri já está formado: Montes, colinas e os fundamentos da terra que representam a presença e a proximidade de Deus, o encontro dos céus com a terra e estabilidade. No monte Moriá aconteceu o sacrifício no lugar de Isaque (cf. Gênesis 22.1-9); no monte Sinai, Moisés recebeu os Dez Mandamentos (cf. Êxodo 19); o milagre da chuva aconteceu após o profeta Elias ter orado no cume do monte Carmelo (cf. 1 Reis 18.42); Jesus anunciou as bem-aventuranças na montanha (cf. Mateus 5.1-12), foi transfigurado no monte (cf. Marcos 9.2) e ascendeu aos céus sobre o monte das oliveiras (cf. Lucas 24.50; Atos 1.12). Diante das injustiças na terra, Deus revelou sua glória nos altos dos montes de onde vem a Salvação (cf. Salmo 121). Montes, colinas e os fundamentos da terra precisam formar o júri porque a humanidade não é confiável para tal.
2 O SENHOR NÃO É O CULPADO (v. 3-5)
Deus fala com ironia: “Povo meu, que tenho te feito? E com que te enfadei? Responde-me!” (Miquéias 6.3). É como se Deus estivesse dizendo: “Por acaso eu sou culpado pelo castigo de vocês? Eu deixei de oferecer algo a vocês?”. No original hebraico, temos uma assonância: duas palavras que são pronunciadas da mesma forma: hele ’etika que significa “eu te cansei” e he ’elitika que significa “te fiz subir”[2] Então, é como se Deus estivesse provocando o povo ao dizer: “Será que fui eu que sobrecarreguei vocês demais?”, ou: “será que coloquei peso demais nas costas de vocês?”
A resposta é: Não! Quem mais trabalhou e agiu pelo povo foi o próprio agir salvador e libertador de Deus. Foi o Senhor quem tirou o povo do Egito e quem os libertou da escravidão. Moisés foi levantado por Deus como libertador e intercessor; Arão foi levantado por Deus para apoiar Moisés e exercer a função sacerdotal; Miriã foi a profetiza que cantou da vitória após a travessia do Mar Vermelho (cf. Êxodo 15.20-21). O Senhor agiu e agiu muito – através de pessoas! Quando Balaque enviou Balaão para amaldiçoar o povo de Deus, o Senhor mudou o coração de Balaão através da boca de uma jumenta. Em vez de pronunciar maldições, Balaão profetizou bênçãos a Israel (cf. Números 22-24). Da mesma forma agiu o Senhor desde Sitim até Gilgal quando o povo de Deus atravessou em terra seca o rio Jordão e colocaram doze pedras como memorial para que as crianças as vissem e lembrassem como o Senhor abriu o caminho para o seu povo (cf. Josué 3.1 – 4.19). Deus agiu – e muito!
Contudo, embora a geração de Miquéias até conheça as histórias do agir de Deus no passado da história do seu povo, eles têm dificuldades em crer no agir de Deus. Muitos já tratavam essas histórias como mitos. Não confiavam que o Senhor poderia agir no presente. Não era apenas falta de memória, mas falta de fé. A geração do presente desacredita que o Senhor realmente agiu nas gerações passadas.
3 TENTATIVA DE AUTOJUSTIFICAÇÃO (v. 6-8)
Diante das acusações, a culpa pesou! Qual era a melhor solução aparente? Recorrer ao culto oficial que fornece diversos tipos de sacrifícios para as diversas necessidades espirituais. Chegam a pensar o impensável: o sacrifício do filho mais velho. Não! Não é isso que o Senhor quer; o Senhor quer a prática da justiça, o amor à misericórdia e que seu povo ande humildemente (em comunhão) com ele. O que o Senhor quer não é um sacrifício semanal, mas a verdadeira adoração na prática a semana inteira. Não basta vestir as roupas da piedade no dia santo e viver a injustiça a semana inteira. O que Deus exige é o verdadeiro arrependimento e a verdadeira conversão diária.
Amados irmãos, amadas irmãs,
O profeta Miquéias anuncia de braços levantados: o povo de Deus está no banco dos réus. O próprio Senhor é o juiz. E a sentença já está dada! Qual é a sentença? Condenação. O juízo de Deus irá cair sobre a terra. A ira de Deus irá cair em um dia de densas e escuras nuvens. O castigo virá! O juízo de Deus choveu sobre a cruz do Gólgota onde Cristo estava crucificado! Deus não é o culpado pelo castigo do povo (como vimos cf. Miquéias 6.3-5), mas decidiu assumir o castigo em Cristo Jesus para que sejamos libertos da culpa e possamos viver diariamente praticando a justiça.
A sentença já saiu: somos inocentes não por nossos próprios méritos, mas pela graça de Jesus. A condenação já foi feita por nós. O castigo divino já foi efetuado. Agora, Deus permite que o adoremos diariamente e não apenas aos Domingos. A graça de Jesus nos chama a vivermos a fé diariamente através da prática concreta da justiça e da misericórdia. É preciso haver coerência entre a adoração no Domingo e a vida de fé durante a semana.
O que o Senhor quer de nós hoje? Arrependimento e conversão. O que Deus quer de nós é que caminhemos até aos pés da cruz em busca de perdão e nova vida. O que Deus quer de nós é que a partir de uma transformação no coração, a nossa vida seja transformada não apenas no Domingo, mas também de Segunda a Sábado – onde nos dispomos a andar com Deus, ter comunhão com Deus e, assim, praticar a justiça e a misericórdia conforme Jesus ensinou nas bem-aventuranças (cf. Mateus 5.1-12).
Hoje nós temos Santa Ceia. Cremos, ensinamos e confessamos a Presença Real de Cristo nos dois elementos da Santa Ceia. Cristo realmente está entre nós. Que Deus use a Ceia de hoje para lembrar você que Cristo já sofreu o castigo, a ira e a condenação por nós. A Santa Ceia é a festa da graça de Deus. Ao recebê-la com o coração arrependido, podemos crer no perdão, na reconciliação e no amor de Deus. Venha na Ceia hoje na certeza de que Deus te ama e te perdoa – seja lá o que você tenha feito. Através dela, vem uma nova sentença pra você: inocente, por causa de Cristo. Amém.
[1] cf. SCHÖKEL, Alonso. Profetas II: Ezequiel – Doze profetas menores – Daniel – Baruc – Carta de Jeremias. Série Grande Comentário Bíblico. São Paulo: Paulus, 1991. p. 1065.
[2] cf. nota de rodapé na Bíblia de Jerusalém.