Mateus 17.1-9
Ciclo do Tempo Comum
P. William Felipe Zacarias
Amados irmãos, amadas irmãs,
Não há nome mais importante na Bíblia que o nome de Jesus. Mas, Jesus é o nome mais importante na sua vida?
Aquela foi uma semana cheia de acontecimentos. Seis dias antes, pelo agir do Espírito Santo, a boca de Pedro proclamou que Jesus Cristo é o Filho do Deus vivo (cf. Mateus 16.13-20). Então, para a surpresa de todos, Jesus anuncia a sua morte e ressurreição, dando um susto nos discípulos, especialmente Pedro (cf. Mateus 16.21-23). E então vem o convite mais inesperado: “Se alguém quer vir após mim, a si mesmo se negue, tome a sua cruz e siga-me” (Mateus 16.24). Uma semana de revelações e ensinamentos que ainda eram enigmáticos para os discípulos.
Então, seis dias depois, o inesperado passa por cima dos planos humanos, o extraordinário de Deus invade o ordinário da vida humana, o agir de Deus gera temor e tremor na humanidade. Vamos ao texto bíblico:
1 O ENCONTRO COM DEUS (v. 1-3)
Três discípulos são chamados para subir ao monte com Jesus. Era o momento de deixar o barulho e o caos da cidade para buscar a solidão onde o coração está mais aberto para perceber o que Deus quer mostrar. O monte é o lugar do silêncio e do encontro com Deus. Os discípulos carregam esse legado através da lembrança do agir de Deus nos montes do Antigo Testamento.
Às vezes, é preciso se retirar, encontrar no dia a dia um lugar de solidão onde está apenas você e Deus. O tempo de comunhão com Deus na solidão é um encontro bastante transformador onde o eu vazio e compulsivo e cheio de atividades é trocado pelo eu do Cristo que habita em mim[1]. No mundo, nós somos chamados o tempo todo a sermos relevantes, espetaculares e poderosos. Já o retiro da solidão é o lugar privado da conversão onde morre a velha criatura e nasce um filho de Deus. Estar no retiro da solidão significa estar apenas você, nu, vulnerável, fraco, pecador, insignificante diante do Deus compassivo. Esse é o espaço único de purificação e transformação, do grande encontro com Deus – não para barganhar e conseguir algo, mas como um fim em si mesmo onde Cristo está presente e seu coração fala ao nosso coração.
Antes de contemplarem a glória de Deus, Pedro, Tiago e João decidiram seguir Jesus ao retiro. Neste mundo agitado e barulhento, um tempo de solidão com o Senhor é algo valioso e transformador. Tanto a comunhão quanto a solidão precisam fazer parte da vida da pessoa cristã.
Então, na solidão do alto do monte, o momento glorioso aconteceu: “E foi transfigurado diante deles; o seu rosto resplandecia como o sol, e as suas vestes tornaram-se brancas como a luz” (Mateus 17.2). Mais surpreendente que Jesus resplandecer é sabermos que ele é o Deus que se fez ser humano. Jesus é Deus – a segunda Pessoa da Trindade. Portanto, não surpreende que ele resplandeça; mas surpreende o fato de que ele, mesmo sendo Deus, assumiu a forma humana. Jesus é o Deus que sente fome; Jesus é o Deus que sente sede; Jesus é o Deus que fica cansado; Jesus é o Deus que precisa dormir; Jesus é o Deus que morre na cruz! Este que agora resplandece é o mesmo que será pendurado no madeiro – isso sim é um grande e surpreendente mistério.
Acontece, então, um encontro inesperado: Moisés e Elias estão com Jesus. Eles são considerados os personagens mais importantes do Antigo Testamento. Moisés representa a Lei; Elias representa os profetas. Para lembrarmos a glória de Moisés, vamos abrir nossas bíblias em Êxodo 19.16-20. Moisés é o homem que teve um encontro com a glória de Deus no Antigo Testamento. Foi o homem usado por Deus para conduzir o povo da escravidão do Egito à liberdade da Terra Prometida. Já Elias foi usado por Deus em um tempo difícil em que Acabe e Jezebel levaram todo o povo à idolatria a Baal. Leiamos 1 Reis 18.36-39. Embora os profetas de Baal tivessem molhado insistentemente o altar do sacrifício, o fogo do Senhor o consumiu por inteiro. Elias foi usado por Deus em uma das grandes revelações de Deus ao seu povo no Antigo Testamento.
Moisés e Elias. Dois grandes personagens. Dois grandes heróis. Duas grandes histórias. Contudo, não são maiores que Jesus. A missão de Moisés era libertar o povo da escravidão do Egito e levá-los à Terra Prometida; a missão de Jesus é libertar o seu povo da escravidão do pecado e levá-los à gloriosa eternidade. A missão de Elias era restaurar a verdadeira profecia entre o seu povo; Jesus é o cumprimento da profecia. E agora, Moisés e Elias, grandes homens, contemplam o Deus-homem: o Salvador Jesus Cristo – e conversam com ele. O retiro e a luz testemunham que não há nome mais importante nos céus e na terra que o nome de Jesus.
2 O CHAMADO A OUVIR (v. 4-6)
Aquele momento foi tão glorioso que Pedro pensou que poderiam ficar ali para sempre. Mesmo que de sua boca havia sido proferida a confissão de que Jesus Cristo é o Filho do Deus vivo, Pedro ainda não entendera tudo completamente. O retiro é importante – mas não podemos viver apenas no retiro. A solidão proporciona um encontro íntimo com Deus, mas não somos chamados a viver apenas em solidão. Mesmo quando o Senhor revela a sua glória, o alto do monte não é o nosso lugar.
Além disso, a glória de Deus é grande demais para que o ser humano a possa suportar. O ser humano em sua finitude não “dá conta” de tamanha experiência. É demais. Como Moisés em Êxodo 33 que pôde ver apenas as costas de Deus, pois caso visse a sua glória, seria destruído. Para proteger Pedro, Tiago e João, o Senhor envia uma nuvem luminosa. Agora, os olhos não vêm, mas os ouvidos ouvem: “Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo; a ele ouvi” (Mateus 17.5b).
O Pai ama o Filho e o Filho ama o Pai. Acontece algo aqui que com os olhos da cabeça jamais conseguiremos compreender. Jesus já predisse a sua morte e ressurreição e poderia perguntar: “Pai, se tu me amas mesmo, não me faças passar pela cruz”. Contudo, não é o que Jesus faz. A vontade do Pai é a vontade do Filho e a vontade do Filho é a vontade do Pai. No Getsêmani, Jesus até fará uma oração pedindo que, se possível, esse amargo cálice lhe fosse afastado; contudo, ele não se limita a isso: “Todavia, não seja como eu quero, e sim como tu queres” (Mateus 26.39). Jesus aceita a sua missão salvadora porque o mesmo amor que o Pai tem por nós, também ele tem por nós. O Espírito Santo o consola. A Trindade estava empenhada na missão de salvar o ser humano dos seus pecados. O agir de Deus é um agir missionário.
Por isso, é a voz de Jesus que devemos ouvir. Moisés e Elias apontam para Cristo. A maior autoridade da Bíblia está na voz de Cristo. A Palavra de Cristo é mais importante que as palavras de Moisés e Elias – ele mesmo é a Palavra de Deus (cf. João 1.1, 14).
3 SÓ RESTOU JESUS (v. 7-9)
Os três discípulos se prostraram na terra. Aquele momento de encontro com Deus foi magnífico. Estão tomados de medo. Jesus troca o medo pelo temor que é o respeito e a reverência. E quando abrem novamente os seus olhos, a quem eles enxergam? Jesus. Somente Cristo. Tudo o que fica é Cristo. É nele que colocamos a nossa fé. É nele que colocamos a nossa esperança. É ele o único capaz de nos salvar. É ele quem morreu na cruz pela nossa salvação. É ele!
A solidão, o encontro e o prostrar-se tem como objetivo final purificar a nossa vida para que só sobre Cristo nela. Mais nada. A relevância, o espetáculo e o poder já não mais importam; já não mais interessam. Tudo o que importa é Cristo – e permanecer com Cristo. Não há nome maior que Cristo. Não há outro Salvador senão Cristo. Não há outro mediador entre Deus e homens senão Jesus Cristo. Ele é tudo – o resto é nada!
Amados irmãos, amadas irmãs,
Não há nome mais importante na Bíblia que o nome de Jesus. Mas, Jesus é o nome mais importante na sua vida? Qual resposta o Senhor quer de nós após contemplarmos e conhecermos tamanho milagre?
1) Adore-o. Se Moisés e Elias o contemplam e adoram, quem é você, pequeno teimoso, para não adorá-lo de todo o seu coração? Os seus joelhos ainda conhecem a textura do chão? Ou faz tempo que você não se curva de forma humilde para adorar ao Senhor? Nos diz o Salmo 2.6, 11: “Eu constituí o meu Rei sobre o meu santo monte Sião. Sirvam o Senhor com temor e alegrem-se nele com tremor.” Também Paulo nos diz em Filipenses 2.10-11: “para que ao nome de Jesus se dobre todo joelho, nos céus, na terra e debaixo da terra, e toda língua confesse que Jesus Cristo é Senhor, para glória de Deus Pai”. Adore ao Senhor não apenas como um ritual vazio pronunciado com os lábios, mas com o coração: “Este povo me adora com os lábios, mas o seu coração está longe de mim” (Mateus 15.8). Onde está o seu coração? Com o que você tem enchido o seu coração? Com o que você tem ocupado o seu coração?
2) Ouça-o. “A ele ouvi” (Mateus 17.5). Jesus é a maior autoridade sobre Deus, afinal de contas, ele é o próprio Deus. Sua Palavra é mais importante que a de Moisés, Elias ou qualquer outra pessoa – inclusive, a minha. Escute a voz do Rei – com temor e tremor, reverência e respeito, deixando sua voz ecoar dentro do seu coração, para trazer as transformações necessárias.
3) Proclame-o. A ressurreição já aconteceu. Cristo está vivo e precisa ser proclamado a todos os povos e pessoas. Que você possa no silêncio do encontro com Deus meditar tão profundamente nas palavras de Cristo que elas estejam sempre na ponta dos seus lábios. Que sua vida reflita a luz de Jesus, pois o mundo não lê a Bíblia, mas lê você. Ao verem você, que as pessoas vejam Jesus. Transborde de Jesus.
E assim, que Jesus seja a pessoa mais importante da sua vida, do seu coração, dos seus joelhos em oração, dos seus ouvidos aos seus ensinamentos e da sua boca que o proclama com alegria e sem ter medo ou vergonha. Amém.
[1] NOWEN, Henri. O caminho do coração. 3. ed. Petrópolis: Vozes, 2014. p. 18.