Joel 2.1-2, 12-17
Ciclo do Tempo Comum
P. William Felipe Zacarias
Amados irmãos, amadas irmãs,
a Quaresma é um chamado ao arrependimento, não à superstição.
Duas catástrofes atingem o povo de Deus. A primeira, uma grande praga de gafanhotos (cf. Joel 1.2-13; 2.3-11) que aparecem como um grande exército a devastar tudo o que estava pela frente. A segunda, uma seca que faz o gado gemer e ficarem sedentos (cf. Joel 1.14-20). Um tempo desgraçado para o povo de Judá cujo um dos grandes medos é que as nações ao redor digam: “O Deus de vocês não é poderoso? Como pôde deixar isso acontecer com vocês?”
Catástrofes são responsáveis por gerar dúvidas, inquietações e a busca por um sentido que justifique ou explique por que Deus deixou acontecer o que aconteceu. Nestes momentos de deserto, a própria fé é colocada contra a parede: “dê explicações”. E então, no meio da catástrofe, o profeta Joel é levantado pelo Senhor para falar ao povo.
1 A TROMBETA DA LEI
A trombeta precisa ser tocada. Ela não anuncia o louvor ao Senhor (Salmo 150). Ela não anuncia a vitória de batalhas (Josué 6). Ela não anuncia que a celebração no templo irá começar (Números 10). Não! Ela anuncia a desgraça: “Toquem a trombeta em Sião e deem o alarme no meu santo monte. Que todos os moradores da terra tremam, porque o Dia do Senhor está chegando; já está próximo. É dia de trevas e escuridão, dia de nuvens e densas trevas!” (Joel 2.1-2a).
A praga de gafanhotos fez o céu ficar escuro em pleno dia. Aquele que toca a trombeta o faz para dar um alerta a todos para se protegerem. Quem assiste a tragédia não pode fazer nada a não ser ver a destruição das lavouras e os gafanhotos invadirem as casas.
Na visão do Profeta Joel, o dia do juízo chegou. O povo será julgado pelos seus pecados. A ira de Deus recaiu sobre o seu povo. A catástrofe tem, portanto, para Joel, uma motivação espiritual: a desobediência do povo de Deus. O Senhor está irado com o seu povo – e o dia da ira chegou, assim como nos dias antigos quando a ira de Deus se acendeu contra o Egito (cf. Êxodo 10.1-20). Agora, porém, o alvo não é o inimigo, mas o próprio povo desobediente.
A primeira trombeta é o anúncio da lei que pesa e anuncia o juízo e o castigo de Deus. A notícia que ela traz não é boa, mas má. O Senhor veio executar o juízo do seu povo. Eles vão pagar pelos seus pecados.
2 A RESPOSTA HUMANA
Qual é a resposta do ser humano diante da iminência da desgraça? Qual é a resposta do ser humano quando o peso da Lei recai sobre ele? Qual é a resposta do ser humano à ameaça do castigo e da vergonha?
A resposta humana é a barganha manifestada em forma de superstição! Diante da desgraça, o povo de Judá acredita que pode aplacar a ira divina através das suas obras. Praticam rituais vazios para agradar ao Senhor e afastar a sua ira. Não buscam a transformação integral das suas vidas, mas permanecem como estão, apenas oferecendo alguma religiosidade que, talvez, agrade a Deus e o faça mudar de ideia. O ser humano cria superstições para de alguma forma barganhar com o divino e conseguir o que quer. O foco não está na transformação integral do ser humano, mas em apenas resolver os seus problemas pessoais. Isso não é fé, mas egoísmo transformado em religião. É a idolatria do “eu” que assume o lugar mais precioso no altar da própria vida.
O Senhor não quer rituais vazios. O Senhor detesta a barganha. O Senhor odeia a superstição. Através da boca do profeta Joel, o Senhor diz o que quer do ser humano: “Rasguem o coração, e não as roupas. Convertam-se ao Senhor, seu Deus, porque ele é bondoso e compassivo, tardio em irar-se e grande em misericórdia, e muda de ideia quanto ao mal que havia anunciado” (Joel 2.12-13). O Senhor não quer uma mudança apenas de aparência, mas no coração. O Senhor não quer uma mudança exterior em forma de religiosidade usada para barganhar o que desejamos, mas a mudança interior que começa no coração. O Senhor quer uma mudança de todo o ser, e não apenas a prática de rituais que tem como intenção aplacar sua ira. O Senhor quer uma mudança integral, que venha como uma torrente de dentro para fora. O Senhor quer arrependimento verdadeiro, e não uma negociação. Não basta rasgar as vestes para que Deus e o mundo veja o quanto você é espiritual; Deus quer que você rasgue o seu coração!
3 A TROMBETA DO EVANGELHO
Foi então que soou a trombeta do Evangelho: “Toquem a trombeta em Sião, proclamem um santo jejum, convoquem uma reunião solene. Reúnam o povo, santifiquem a congregação, congreguem os anciãos, reúnam as crianças e os que mamam no peito. Que o noivo saia do seu quarto, e a noiva, dos seus aposentos. Que os sacerdotes, ministros do Senhor, chorem entre o pórtico e o altar e orem: “Poupa o teu povo, ó Senhor, e não faças da tua herança um objeto de deboche e de zombaria entre as nações. Porque hão de dizer entre os povos: ‘Onde está o Deus deles?’” (Joel 2.15-17).
A trombeta anuncia o início de uma grande celebração (cf. Números 10). A festa da graça chegou. O Senhor é compassivo, misericordioso – e muda de ideia! Chegou a hora do culto da mudança! A salvação do povo de Deus não está em suas obras, rituais, superstições ou barganhas, mas na graça de Deus. E todos são bem-vindos: idosos, bebês recém-nascidos, noivos e noivas. Os sacerdotes irão rasgar seu coração diante do Senhor, confessando os pecados do povo e crendo na compaixão de Deus. Como dizia o evangelista Billy Graham: “Avivamento não é descer a rua com um grande tambor; é subir ao calvário em grande choro”.
Amados irmãos, amadas irmãs,
a Quaresma é um chamado ao arrependimento, não à superstição. Muitas pessoas praticam diversos rituais na Quaresma buscando barganhas com Deus ao invés de focarem na transformação pessoal integral, rasgando seus corações diante do Senhor em arrependimento verdadeiro. Os rituais externos não interessam ao Senhor; o que interessa ao Senhor o seu coração – e a transformação do seu coração.
Não pratique o jejum se o faz para barganhar algo de Deus. Não deixe de comer carne se o faz para negociar com Deus. Não faça nada que não tenha a intenção primaz de transformar a sua vida diante do Senhor. O convite da Quaresma é que você abra a sua alma diante do Senhor, reconheça e confesse seus pecados, busque por perdão e reconciliação, clame por transformação e reflita sobre as suas prioridades.
O Senhor é misericordioso e compassivo. Não vá à presença do Senhor em arrependimento porque teme o juízo, mas porque confias na sua bondade e na sua misericórdia. Vá porque você sabe que Deus muda de ideia e quer perdoar você. Vá porque você sabe que ele te espera de braços abertos tal qual o filho mais novo foi abraçado no amor do pai (cf. Lucas 15.20). Rituais e superstições nos levam a ter que subir a escadinha até “chegarmos a Deus”; a graça nos leva ao abraço de Deus sem nenhuma condição precisar ser cumprida anteriormente.
O pecado rasga a nossa vida. Mas quando rasgamos o nosso coração diante do Senhor, Deus é fiel e misericordioso para costurar, fechar e sarar todas as feridas abertas pelo pecado. É por isso que Cristo Jesus morreu na cruz: por você, pelo seu perdão. Isso é graça.
Para rasgarmos o nosso coração diante do Senhor, convido você a abrir o Salmo 32.1-5 (página 765). Vamos ter um tempo de silêncio total. Leia e releia esses versículos em oração, confessando suas falhas ao Senhor. Rasgue seu coração diante de Deus. Esteja aberto para receber o abraço compassivo e misericordioso do Senhor.
Amém.