Romanos 5.12-17
Ciclo da Páscoa
P. William Felipe Zacarias
Amados irmãos, amadas irmãs,
o pecado é uma desgraça; a salvação é de graça.
Na Quaresma, temos a oportunidade de refletirmos com profundidade sobre alguns temas muitas vezes cercados de negação. É um espelho onde podemos olhar a nossa vida refletida na Lei de Deus. É o tempo em que somos lembrados daquilo que insistimos em esquecer: somos pecadores e naturalmente estamos separados de Deus. Por isso, convido hoje a olharmos para os conceitos trazidos pelo apóstolo Paulo em sua carta aos Romanos: Pecado, Lei, Morte e Graça. Esses conceitos muitas vezes são óbvios. Mas precisamos lembrar o óbvio – antes que o óbvio deixe de ser óbvio.
1 O PECADO É UMA DESGRAÇA
Nós somos pecadores porque cometemos pecados ou cometemos pecados porque somos pecadores? A resposta que importa não é a que nós damos, mas aquela que as Escrituras nos concedem. Por isso, primeiro precisamos ir às definições:
a) O pecado nos separa de Deus: “As iniquidades de vocês fazem separação entre vocês e o seu Deus; e os pecados que vocês cometem o leva a esconder o seu rosto de vocês” (Isaías 59.2). O pecado não é apenas fazer o mal ou o que é errado, mas a separação completa e total da criatura do seu Criador desde Gênesis 3. O ser humano foi criado para ter comunhão com Deus. O pecado destruiu essa comunhão. Por isso, o pecado separa o ser humano do seu propósito original conforme os planos de Deus. O ser humano passa a ter um vazio do tamanho de Deus – e por mais que busque preencher esse vazio de outras formas, apenas Deus o preenche plenamente;
b) O pecado é uma herança: “Eu nasci na iniquidade, e em pecado me concebeu a minha mãe” (Salmo 51.5). Antes de você cometer pecados, você já é uma pessoa pecadora. Como escreveu Nikolaus Ludwig von Zinzendorf, “somos a raça indefesa de Adão”. O pecado não é uma escolha, mas uma desgraça que nos acompanha de geração em geração. Agostinho de Hipona escreveu “não posso não pecar”, porque como seres nascidos em pecado, a nossa natureza jaz no pecado. Para Lutero, o ser humano não possui livre-arbítrio, mas sua vontade é totalmente escrava do pecado – e tudo quanto faz está marcado com o pecado, até as coisas boas. A desgraça do pecado, portanto, reside no fato de que ele não é apenas uma ação do ser humano, mas uma condição da natureza do ser humano (condição ontológica). Por isso, não somos pecadores porque cometemos pecados, mas cometemos pecados porque somos pecadores. O ser humano é pecador – mesmo que sua consciência esteja cauterizada e ele não sinta o seu pecado[1].
2 A LEI REVELA A DESGRAÇA DO PECADO
A Lei não tem o poder de salvar. Ao contrário, a Lei tem o poder apenas de revelar o pecado. Como nossa natureza humana é pecadora, a Lei apenas dá o diagnóstico da nossa verdadeira condição enquanto separados de Deus e de seu propósito para conosco.
a) A Lei inflama o pecado: “Porque até ao regime da lei havia pecado no mundo, mas o pecado não é levado em conta quando não há lei” (Romanos 5.13). Em seu comentário à Carta aos Romanos, Karl Barth diz que o pecado é um conteúdo inflamável cuja faísca da Lei causa um incêndio[2]. Contudo, onde os olhos se tornaram cegos para o pecado, a Lei é uma faísca sobre um monte de lenha molhada: não surge nenhum fogo[3]. Neste tempo de consciências cauterizadas onde tudo é permitido, onde o pecado “deixou de existir” e onde a culpa não é sentida, a Lei de Deus é rejeitada. Sem o diagnóstico, o ser humano permanece na doença. Sem a acusação, não há como recorrer ao Advogado. Sem a Lei, não há como conhecer o pecado;
b) A Lei é uma verdade de fora: “Pela Lei vem o pleno conhecimento do pecado” (Romanos 3.20). O diagnóstico do pecado não é o nosso sentimento em relação a ele, pois nós somos pecadores mesmo se não sentirmos o pecado e a culpa. A revelação de que somos pecadores não é apenas interna, mas externa quando nos olhamos no espelho da Lei de Deus e descobrimos quem realmente nós somos;
3 A MORTE É UMA LEMBRANÇA DE QUE O PECADO É UMA DESGRAÇA
Se a primeira consequência do pecado é a separação que o pecado faz entre o ser humano e Deus neste mundo, a segunda consequência é o risco da separação eterna entre Deus e o ser humano.
a) A morte é o salário do pecado: “Porque o salário do pecado é a morte” (Romanos 6.23a). A morte é a constante e dura lembrança de que vivemos em um mundo caído no pecado. Nós estamos amarrados às amarras da morte. A morte é o nosso destino por causa do pecado de Adão. A morte é a lei suprema do mundo, a aflição de todas as aflições, lembrança constante da ira de Deus cujo ser humano por si mesmo é completamente impotente;
b) A morte é o último inimigo: “O último inimigo a ser destruído é a morte” (1 Coríntios 15.26). Por incrível que pareça, a morte é a suprema lei da vida – pois tudo o que é vivo, morre. Por sermos herdeiros de Adão, todos precisaremos enfrentar esse inimigo um dia. Não é possível fugir. Não é possível se esconder. Não é possível segurar na mesa com todas as forças e dizer “eu não vou”. Chegará o derradeiro momento em que vamos encarar esse inimigo face a face.
4 A SALVAÇÃO É DE GRAÇA
Mas então, como escapar? Se nossa natureza humana é pecadora, como escapar da ira divina? Não fomos salvos pelas nossas próprias obras; somos salvos da desgraça do pecado pela graça de Cristo, o segundo Adão que não pecou. Cristo veio nos salvar das amarras que não conseguíamos desamarrar sozinhos.
a) Cristo se tornou o pecado: “Aquele que não conheceu pecado, Deus o fez pecado por nós, para que, nele, fôssemos feitos justiça de Deus” (2 Coríntios 5.21). Jesus não apenas carregou os nossos pecados, mas se fez o pecado para dar-nos a justificação. Lutero chamava isso de “a maravilhosa troca”: Cristo pega o que é nosso e nos dá o que é dele: ele pega o pecado e nos dá sua inocência. O justo se torna injusto para que os injustos sejam tornados justos. Isso é a graça de Deus. Ele não pecou, mas assumiu sobre si a desgraça do pecado para nos fazer livres;
b) A graça é o sim de Deus ao ser humano: “Pela graça vocês são salvos, mediante a fé; e isto não vem de vocês, é dom de Deus; não de obras, para que ninguém se glorie” (Efésios 2.8-9). Nós fomos salvos da desgraça do pecado pela maravilhosa graça de Deus. Já não somos mais condenados, mas salvos. Deus disse sim a nós em seu maravilhoso amor por nós revelado em Cristo Jesus, nosso Senhor e Salvador.
Amados irmãos, amadas irmãs,
o pecado é uma desgraça; a salvação é de graça.
Deus disse seu sim a nós.
· A separação que havia entre o ser humano e Deus foi aniquilada: Em Cristo temos plena comunhão com Deus. O vazio é preenchido. A vida ganha sentido e propósito. “Já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim” (Gálatas 2.20-21). A herança do pecado ainda permanece conosco, pois em Cristo somos simultaneamente justos e pecadores. Contudo, a herança do pecado já não define a nossa eternidade: Ela será com Cristo e em Cristo;
· Cristo assumiu a condenação da Lei na cruz. Ele foi condenado para que nós sejamos inocentados. Por isso, ele é o nosso Advogado que nos defende quando o peso da Lei quer nos condenar. Diante do peso da Lei, é preciso olhar para Cristo: ele nos salvou da condenação da Lei para que vivamos pela sua graça;
· Cristo morreu na cruz para nos dar a vida. A morte ainda é o último inimigo a ser vencido – mas ela não é o fim da trajetória da pessoa cristã. Cristo passou pela morte. Foi engolido pela morte para devorá-la de dentro para fora. Por isso, podemos enfrentar esse último inimigo não com nossas forças, mas na certeza de que, em Cristo, a morte já foi vencida – e viveremos para sempre com o Senhor.
A desgraça do pecado só pode ser enfrentada pela graça de Cristo. A Quaresma é tempo de arrependimento e conversão – é tempo de encarar a desgraça do pecado e correr para a graça de Cristo aos pés da sua cruz: “Agora, pois, já não existe nenhuma condenação para os que estão em Cristo Jesus” (Romanos 8.1). Portanto, viva uma vida marcada pela graça de Deus. Viva como criatura reconciliada com Deus. Viva diariamente sabendo que você é uma pessoa amada por Deus. Amém.
[1] WIESE, Werner. Ética Fundamental. São Bento do Sul: União Cristã, 2008. p. 95-96.
[2] BARTH, Karl. A Carta aos Romanos. São Leopoldo: Sinodal/EST, 2016. p. 198.
[3] BARTH, 2016. p. 199.