João 11.1-45
Ciclo da Páscoa
P. William Felipe Zacarias
Amados irmãos, amadas irmãs,
Você já experimentou o silêncio de Deus? Você já sentiu que sua oração não passava do teto sobre a sua cabeça? Você já sentiu que Deus parecia mais perto em outros tempos, mas que agora parece distante? Você já clamou, orou, chorou e nada aconteceu? Bem, tenho algo para lhe dizer: O Senhor nunca chega atrasado. O Senhor sempre chega na hora certa.
1 O SENHOR PARECE DISTANTE E ATRASADO
“Ah, se o Senhor estivesse presente quando aconteceu”. Às vezes, Deus parece distante, ausente, indiferente... Nós oramos, clamamos, pedimos, colocamos os joelhos no chão, choramos, nos derramamos na presença do Senhor... E nada acontece – como se não houvesse ninguém ouvindo do outro lado... Como se nossas palavras não passassem do teto que está sobre as nossas cabeças... Como a canção de Pink Floyd no álbum The Wall (A Parede): “Is There Anybody Out There?”(Tem alguém do outro lado?)
Esse é sentimento bem humano de Marta e Maria. Elas já conhecem o poder de Jesus. Marta, inclusive, já crê na ressurreição dos mortos para a vida eterna (cf. João 11.27). Contudo, parecia que no momento que mais precisavam da ajuda de Jesus, ele não estava presente; quando mais precisavam do agir do poder de Deus, Jesus estava distante; quando mais precisavam de um milagre, Lázaro morreu! Agora, elas vivem o luto – e pessoas visitam sua casa para visitá-las.
2 O SENHOR CHEGA E CHORA
Então, Jesus chegou. Ao tomar conhecimento do sofrimento das irmãs, Jesus não se contém. Jesus chorou! Ele é o Senhor, mas tem sentimentos. Ele é Deus, mas lágrimas correm no seu rosto. Por meio dele, o universo foi formado, mas ele chora. Seu coração é tomado pela dor das irmãs Marta e Maria. Não! O Deus cristão não é indiferente; em Jesus, é o Deus-humano que, em sua humanidade, lamenta a dor da perda. O Senhor é empático aos sofrimentos humanos. O Senhor não é metafísico, frio, calculista, apático... O Senhor chora.
O velório é o lugar do choro. Mas, por vezes é também o lugar daquelas pequenas “fofoquinhas” nada inocentes. Ao verem Jesus chorar, alguns dizem: “Vejam o quando ele o amava” (João 11.36). Já outros, preferem cochichar um julgamento: “Será que ele, que abriu os olhos ao cego, não podia fazer com que Lázaro não morresse?” (João 11.37). Então percebemos a “troca maluca” que aconteceu nessa cena: Deus chora como um ser humano; os seres humanos julgam como se fossem Deus. Mesmo na derradeira hora do luto, há aqueles cochichos que mais atrapalham que ajudam.
3 O SENHOR AGE PARA A SUA GLÓRIA
O Senhor já não pode ficar parado. Ele precisa agir – não porque os homens o provocaram. Ao contrário, ele já sabia desde o início: “Esta doença não é para morte, mas para a glória de Deus, a fim de que o Filho de Deus seja glorificado por meio dela” (João 11.4). Tudo aconteceu não por causa do acaso, mas para que o Filho de Deus tivesse a sua glória revelada aos discípulos e aos incrédulos que estavam ao redor de Marta e Maria.
Então, Jesus pede o improvável: “Tirem a pedra” (João 11.39). Aquilo parecia incoerente: Lázaro já havia morrido havia quatro dias. Por que agora mexer em sua sepultura? Aquilo parecia uma ação totalmente inconveniente – mas Jesus sabe o que está fazendo. Ele não é um louco inconsequente, mas o Senhor da vida e da morte. Além do mais, aquela pedra já sinaliza outra pedra que será removida – sim! Você sabe qual. Mas dela falaremos daqui alguns domingos...
E quando Jesus diz “Lázaro, venha para fora!” (João 11.43), as amarras da morte já não podem mais segurá-lo. Quando o Senhor da vida fala, a morte se cala. “Eu vim para que tenham vida, e a tenham em abundância” (João 10.10), disse Jesus. O Senhor não chega atrasado, mas age na hora em que quer agir. Ele é Jesus. Lázaro voltou à vida. O Filho foi glorificado tal qual Jesus havia dito. A consequência? Muitos passaram a crer em Jesus.
Amados irmãos, amadas irmãs,
O Senhor nunca chega atrasado. O Senhor sempre chega e age na hora certa.
Um dos temas mais difíceis da fé cristã é o sofrimento. Pela lógica humana, muitas pessoas acreditam que o sofrimento no mundo seria a prova da inexistência de Deus. Muitas pessoas pensam logicamente que, se Deus existe, não pode haver sofrimento.
Lutero debateu esse assunto com Erasmo de Roterdã onde o reformador alemão refletiu pastoralmente sobre o “Deus Abscôndito” (Deus escondido). Para Lutero, Deus soberanamente governa o cosmos em silêncio – e sua vontade é muitas vezes incompreendida. Às vezes, Deus opta por ficar em silêncio – e isso jamais significa sua ausência, mas a impossibilidade humana de descobrir toda a vontade divina.
Por isso, Lutero enfatizava que devemos contemplar Deus na cruz! A cruz é o lugar onde o Deus abscôndito e o Deus revelado se chocam! Na cruz, o poder de Deus está escondido sob as vestes do sofrimento e da maldição do pecado; ao mesmo tempo, na cruz, a misericórdia de Deus é revelada de tal forma que se torna visível para os olhos da fé. E Deus continua sendo visível onde o Evangelho é pregado pura e retamente e onde os Sacramentos são administrados conforme a ordem de Jesus. Ali, Deus se torna visível e presente.
O silêncio de Deus pode parecer desesperador. Quando Deus silencia, somos confrontados com a nossa própria finitude e a ausência de garantias de sucesso. Ao chegar nesse ponto, não se desespere; contemple os sofrimentos na cruz. Se você sente que Deus está distante ou que Deus silenciou, não desista. Continue firme e aguarde o tempo do Senhor. Ele nunca chega atrasado. Ele vai chegar pra você na hora certa.
Vamos orar.