Êxodo 17.1-7
Ciclo da Páscoa
P. William Felipe Zacarias
Amados irmãos, amadas irmãs,
e se você encontrasse Deus hoje e pudesse fazer todas as reclamações que quisesse, quais seriam? Não, não é a hora de agradecer. Aqui são reclamações mesmo. O que você diria a Deus frente a frente? E se Deus hoje te tirasse da zona de conforto e te levasse para o deserto, o que você diria? O que você faria? Como agiria? Às vezes Deus nos leva ao deserto – mas Deus nunca nos abandona no deserto.
1 ELIM E REFIDIM
Deus é especialista em tirar o ser humano da sua zona de conforto. Quando o ser humano fica confortável demais onde está, Deus o tira do conforto, prova a sua fé e o coloca em missão. Se olharmos a Bíblia, vamos descobrir que Deus detesta zonas de conforto: tirou Abraão da zona de conforto em Ur dos Caldeus; tirou Moisés do conforto da terra de Midiã; chamou Elias, Isaías, Jeremias e todos os profetas; fez Paulo cair do cavalo; ele mesmo, o próprio Deus, desceu a esse mundo e morreu em uma desconfortável cruz! Deus detesta zonas de conforto.
O povo de Deus estava bastante confortável – e a zona de conforto geralmente faz as pessoas ficarem mal-acostumadas. Vejamos o que está escrito em Êxodo 15.27: “Então cheguei a Elim, onde havia doze fontes de água e setenta palmeiras. E acamparam junto das águas”. No caminho à terra prometida, os israelitas encontraram um verdadeiro oásis. Elim se tornou um verdadeiro paraíso para esse povo que caminha pelo deserto. E, na prática, significava para o povo que Moisés era um líder guiado pelo próprio Deus.
Mas, então, vem o Senhor e muda tudo: “Tendo partido toda a congregação dos filhos de Israel do deserto de Sim, fazendo suas paradas, segundo o mandamento do Senhor, acamparam-se em Refidim; e não havia ali água para o povo beber” (Êxodo 17.1). Quem mudou os israelitas de lugar? Moisés? Não! O próprio Deus, o Senhor. E onde o mandamento do Senhor levou os israelitas? A um lugar onde não havia água para beber. Deus tirou o seu povo das fontes e palmeiras de Elim e os levou para a terra seca de Refidim. Deus tira o seu povo do conforto e os leva para o confronto. Deus tira o seu povo da abundância e os leva para a provação. Deus tira o seu povo da água e os leva para o deserto.
Uma das características da zona de conforto é que ela esmorece a nossa fé. Não são poucas as pessoas que, conforme vão conquistando coisas na vida, vão aos poucos deixando Deus de lado. Quando a prosperidade bate na porta, Deus começa a se tornar dispensável. A Igreja já não é mais um lugar interessante. A fé desanima. Quando isso acontece, é preciso amadurecer a fé. Amadurecer a fé significa conhecer melhor e com maior intimidade o próprio Deus e Senhor. E as provações vêm, muitas vezes, como uma oportunidade que Deus está oferecendo para uma fé fraca se tornar mais forte e robusta.
A fé que depende de sentimentos e de prosperidade é uma bomba relógio: em algum momento ela vai explodir. É inevitável. O desafio que o texto bíblico nos propõe é que adoremos ao Senhor em Elim, mas também o adoremos em Refidim; que o amemos em Elim e o amemos em Refidim; que sejamos fiéis em Elim e sejamos fiéis em Refidim.
2 MOISÉS
Então, os israelitas vão para cima de Moisés. Eles não veem a ida a Refidim como um mandamento do Senhor, mas como um equívoco da liderança de Moisés. Por isso, exigem que ele faça algo. Enquanto Moisés age pelos mandamentos que vem do alto, os israelitas agem apenas pelas leis que conhecem da terra. O povo foi levado a Refidim por um motivo teológico e espiritual, mas os israelitas só enxergam os motivos políticos e temporais.
Não é fácil lidar com pessoas. Quando fiz um estágio na Paróquia Evangélica de Rio Bonito em Joinville/SC, conheci o seu Germano Müller. Ele mora no interior da cidade e era um dos maiores produtores de leite da região. Nunca me esqueço quando um dia ele me disse algo que repito com minhas próprias palavras: “Pastor, eu prefiro trabalhar com as vacas a com as pessoas porque as pessoas são muito difíceis”. Penso e acredito que esse é um dos sentimentos expressos aqui por Moisés. Liderar um grupo de pessoas não é uma tarefa fácil. A história dos israelitas comprova isso em todo o Antigo Testamento. Aliás, esse não é apenas o sentimento de Moisés; o próprio Senhor disse: “Eis que é povo de dura cerviz” (Êxodo 32.9), que poderia significar “é um povo muito teimoso”, especialmente porque esquecem rapidamente o que Deus fez na sua história e porque vivem a vida a partir das suas vontades sem obediência à vontade de Deus. Ficam presos à sua zona de conforto e, quando são tirados dela, veem isso apenas como coincidência, má gestão ou outros motivos que não sejam a mão poderosa de Deus.
A situação ficou tão grave que Moisés chegou a pensar que seria apedrejado. Essas palavras nos transportam para a cena de tal forma que até conseguimos enxergar o rosto irado das pessoas ao redor de Moisés – quase como lobos devoradores.
É então que Deus age. Acompanhado dos anciãos, Moisés bateu com o seu cajado na rocha em Horebe e dela saiu água. Isso é mais do que matar a sede humana dos israelitas: é Deus matando a sede espiritual de sentido e propósito. A saída de Elim para Refidim não foi um erro de cálculo, mas obra de Deus para provar a fé do seu povo e agir com sua poderosa mão diante dos seus olhos. E, assim, a água da rocha apagou o fogo da ira do povo de Deus.
3 MASSÁ E MERIBÁ
Após um evento desse tamanho, é preciso dar nome a esse lugar para que as próximas gerações saibam o que Deus fez ali em favor do seu povo. Embora nós, muitas vezes, busquemos esquecer os pontos negativos da história, Moisés não pensou duas vezes: Massá (pôr a prova) e Meribá (discutir, contender). Esse é lugar não em que o povo colocou Deus à prova, mas onde Deus provou a fé do seu povo. Massá e Meribá se tornam o lugar memorial não apenas de onde o Senhor saciou a sede do seu povo, mas onde a fé dos israelitas foi provada e amadurecida – para aprender a não depender das zonas de conforto.
Amados irmãos, amadas irmãs,
Às vezes Deus nos leva ao deserto – mas Deus nunca nos abandona no deserto.
A Quaresma nos lembra dos desertos da nossa vida. Às vezes as coisas saem do controle, escapam das nossas mãos. Talvez a sua família esteja com problemas; talvez você esteja enfrentando problemas em sua profissão e no mercado de trabalho; talvez você esteja lutando contra uma doença; talvez você esteja passando por um momento emocional difícil; talvez a depressão tenha ocupado um lugar na sua vida; talvez você sente muita saudade de alguém que não está mais aqui. E tudo isso nos leva a uma sede por respostas, por sentido, por orientação, por propósito. E, como os israelitas, você pergunta: “Senhor, por que o Senhor me trouxe a este deserto? Queres que eu morra de sede?”
Este tempo é uma oportunidade para amadurecer a sua fé. O Senhor pode até ter te levado ao deserto, mas jamais te abandonará no deserto. O povo de Deus não foi chamado para ficar no deserto. Ele é um lugar difícil, mas apenas de passagem.
Sim, se você quiser, pode até reclamar com Deus. O que o Senhor rejeita é a murmuração feita pelas suas costas – quando, como os israelitas, nos queixamos de Deus a outros. Mas, com o Senhor, você pode colocar seus joelhos no chão e reclamar, “tim tim por tim tim”, daquilo que não está bem. Há vários salmos de pessoas reclamando com Deus. O Senhor escuta atentamente – desde que seja diretamente com ele.
Você está buscando uma resposta? Você está se sentindo vazio? Você está com sede? Você está sentindo o deserto? Na Quaresma, colocamos areia na nossa Pia Batismal. Ela representa o deserto. Quero convidar todas as pessoas a virem à frente e a colocarem a mão nessa areia. Sinta ela. Deixe a areia se esfarelar em sua mão. Ao fazer isso, diga ao Senhor qual é o seu deserto. Reclame, clame diretamente com o Senhor. E creia na promessa de que com fé e muita oração e obediência, a água brotará da rocha. Enquanto fazemos isso, vamos ouvir a música “Noites Traiçoeiras”.
(Momento de colocar a mão na areia).
Neste Dia Internacional da Mulher, lembramos que Jesus se encontrou com a mulher samaritana. Ele foi atento a ela. A escutou. A respeitou e deixou de lado as contendas entre Judeus e Samaritanos. E Jesus fez a promessa: quem beber da sua água, nunca mais terá sede!
Não sei o que você veio colocar diante do Senhor com as mãos na areia. O que sei é que o único que pode matar essa sua sede é o próprio Senhor Jesus. Que Jesus sacie a sua sede mais existencial. Que Jesus faça brotar fontes de água da vida em seu interior. Que Jesus faça você transbordar do amor de Deus para que outras pessoas conheçam a Jesus através de você. Que o Senhor transforme teu deserto em um jardim florido e cheio de vida. Amém.