João 3.1-18
Ciclo da Páscoa
P. William Felipe Zacarias
Amados irmãos, amadas irmãs,
Você já sentiu que, apesar de sempre fazer tudo certo, algo na sua vida está fora do lugar? Você já sentiu que, mesmo tendo decorado o Credo Apostólico, o Pai-nosso e, talvez, os 10 Mandamentos, ainda falta algo? Bem, se você veio aqui hoje novamente, provavelmente você veio buscar algo. Eu não sei como está a sua vida. O que você veio buscar hoje?
Nicodemos é o cara que fazia tudo certo, mas tudo estava errado!
1 JESUS RECEBE NICODEMOS (v. 1-2)
Nicodemos é um fariseu – principal dos fariseus. Um homem instruído, culto e conhecedor da Lei de Deus. Ele foi à Jesus à noite. Uma das possibilidades é que Nicodemos não queria que ninguém o visse conversando com o “perigoso” Jesus tão perseguido pelos fariseus; outra possibilidade é a de que Nicodemos foi até Jesus à noite porque era o momento preferido pelos fariseus para grandes debates e discussões que duravam até altas horas. Seja como for, essa história começa com esse encontro: de um lado, um teólogo, estudioso da revelação de Deus; à sua frente, o próprio Deus – por Nicodemos ainda não reconhecido.
Nicodemos parece motivado pela curiosidade. Jesus estava realizando sinais, milagres – transformou água em vinho nas bodas em Caná da Galileia, por exemplo (cf. João 2.1-12). O doutor que “sabe tudo” encontra-se diante de um grande mistério – algo que sua mente e sua estrutura lógica não são capazes de assimilar. Ele quer saber: como Jesus faz o que faz? E Nicodemos até emite uma confissão: chama Jesus de mestre, pois ninguém outro pode fazer as coisas que Jesus faz se Deus não estiver com ele. Nicodemos reconheceu o agir poderoso de Deus na pessoa de Jesus.
2 JESUS RESPONDE NICODEMOS (v. 3-4)
Nicodemos chegou a Jesus cheio das suas verdades, das suas convicções e das suas certezas. Nicodemos era um homem que aos seus olhos fazia tudo certo conforme a Lei. Contudo, agora Jesus começa a colocar as verdades de Nicodemos em cheque.
Jesus fala de um novo nascimento – e isso confunde a mente do teólogo. E quando o teólogo ousou falar de Deus para aquele que é o próprio Deus, Jesus lhe disse: “Em verdade, em verdade te digo que, se alguém não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus” (João 3.3). Então, diante de Deus, o homem que “sabia tudo sobre Deus” ficou cheio de dúvidas. Nascer de novo? Como assim?
Nicodemos já era uma pessoa idosa. Um “velho”, como ele mesmo disse. O que isso significa? É uma vida inteira construída sobre o fundamento das próprias verdades, ideias e convicções. Foi uma vida inteira fazendo “o que era certo” aos seus próprios olhos. Como agora, nessa idade, voltar atrás naquilo em que acreditou a vida inteira? Como agora, nessa idade, deixar essas convicções para nascer de novo? Nicodemos precisa escolher entre a teimosia e a fé.
3 JESUS PROVOCA NICODEMOS (v. 5-15)
Jesus continua respondendo ao doutor. Contudo, Jesus fala das coisas celestiais a um senhor preso nas verdades terrenas. Jesus fala do céu para alguém que só consegue olhar para a terra. Jesus olha para o alto; Nicodemos olha para baixo. Jesus fala da vida moldada pelo Espírito de Deus; Nicodemos só consegue falar da carne e da Lei. Nicodemos quer ter o controle de Deus em suas mãos através da sua teologia, mas a verdade é que “o vento sopra onde quer, ouves a sua voz, mas não sabes donde vem, nem para onde vai;” (João 3.8). Quando o ser humano tenta agarrar a Deus com seu conhecimento, sua teologia e sua intelectualidade, Deus escapa das suas mãos como o vento que passa entre os nossos dedos.
A situação se tornou bastante desconfortável para Nicodemos. Ele ainda quer “segurar o vento que não pode ser aprisionado”. Então, Jesus o provoca: “Tu és mestre em Israel e não compreendes estas coisas?” (João 3.10). Se tem algo que incomoda um doutor quando ele é orgulhoso é a frase “como tu não consegues entender isso?” Isso dilacera a alma do doutor na Lei.
Na sua paciência, Jesus concede um exemplo conhecido: Moisés. Jesus sabia que Nicodemos obviamente conhecia a história de Moisés. Jesus diz: “E do mesmo modo por que Moisés levantou a serpente no deserto, assim importa que o Filho do Homem seja levantado, para que todo o que nele crê tenha a vida eterna” (João 3.14-15). Nicodemos conhece essa história. Os israelitas murmuravam demais no deserto. Por isso, apareceram serpentes venenosas no acampamento, levando muitas pessoas morreram. O povo se arrependeu e pediu ajuda a Moisés. Então Deus disse a Moisés que ele deveria fazer uma serpente de bronze e colocá-la no alto de um poste: todo que fosse picado e olhasse para a serpente ficaria curado e viveria. Nicodemos sabe disso. E agora, Jesus está dizendo que ele mesmo terá que ser pendurado na cruz para que haja salvação e vida eterna. Talvez tenha ficado mais fácil para Nicodemos – ou não!
4 JESUS AMA NICODEMOS (v. 16-18)
E então, encontramos a maior declaração de amor já feita. Jesus profere os versículos que foram chamados por Martinho Lutero de “a Bíblia em miniatura”: “Porque Deus amou ao mundo de tal maneira que deu o seu Filho Unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (João 3.16). Jesus está dizendo que a Salvação não virá pelo cumprimento da Lei, mas através do amor incondicional de Deus. A fé (confiança) nesse amor é tudo o que Deus pede de nós – e é obra do agir do Espírito Santo em nossas vidas. Enquanto a Antiga Aliança estava fundamentada na Lei dada a Moisés, a Nova Aliança tem seu fundamento no amor manifestado em Cristo Jesus no alto da cruz.
Amados irmãos, amadas irmãs,
Nicodemos é o cara que fazia tudo certo, mas estava errado!
Nós somos esse Nicodemos! Nós somos esses que estamos “carecas de saber” coisas sobre Deus. Nós somos esses que sabemos o Credo Apostólico, a oração do Pai-nosso e os 10 Mandamentos de cor. Nós somos esse Nicodemos que acha que o mero conhecimento das coisas de Deus é suficiente.
Nós somos esse Nicodemos que, velho, está amarrado às próprias convicções como um nó difícil de desatar. Nós somos esse Nicodemos que, “escondido dos olhos do mundo”, vêm ao culto, mas que durante semana deixa a fé quase irreconhecível para as outras pessoas. Nós somos esse Nicodemos tão preso nas coisas da terra de forma que não compreende a mensagem do mensageiro que veio do céu. Quem é Nicodemos? Nós somos Nicodemos! Você e eu!
E o que o Senhor pede de nós? O mesmo que pediu a Nicodemos: é preciso nascer de novo –, não da carne, mas do Espírito. O que o Senhor pede de nós não é apenas convicções de fé – embora sejam importantes –, mas uma nova vida moldada pela vontade de Deus, como servos da sua Palavra. O que o Senhor pede de nós é uma nova vida transformada pela Palavra de Deus e que dê frutos, principalmente o amor (cf. 1 Coríntios 13.1-13; Gálatas 5.22-23). Se a sua vida de fé ainda não tem dado frutos espirituais, cuidado: você pode estar amarrado nas próprias verdades, “oh pequeno Nicodemos da atualidade!”
Convido a cantarmos um hino. É uma música que marcou muito meu tempo de Juventude Evangélica. Você pode ir aprendendo a letra e a melodia, mas, se quiser, você pode também fechar seus olhos e baixar sua cabeça para deixar essa mensagem ecoar dentro de você. (Primeiro Amor – Paulo César Baruk).
Amém.