Mateus 27.33-50
Ciclo da Páscoa
P. William Felipe Zacarias
Amados irmãos, amadas irmãs,
Naquela Sexta-feira de trevas, quando a cruz ficou de pé, o mundo virou de cabeça para baixo.
1 A MAIOR CRUZ (v. 33-39)
Palavras malditas aos pés da cruz
No cemitério onde corpos indigentes entravam em decomposição ao ar livre no monte da Caveira, o Deus-homem foi levantado em uma rude cruz. Ali está ele – respirando o denso odor da morte. O Calvário não é apenas o lugar da crucificação – é um lugar com imagem de morte, cheiro de morte e sons de morte.
Àquele que foi levantado ao madeiro, oferecem vinho misturado com fel – a bebida que era oferecida a soldados para aliviar momentaneamente as dores de suas feridas em batalhas. E assim se cumpre a profecia do Salmo 69.21: “Por alimento me deram fel e na minha sede me deram a beber vinagre”. Contudo, Jesus recusa receber a bebida. Ele preferiu beber o cálice amargo oferecido pelo Pai!
Os pregos doem. O próprio peso do corpo pendurado na cruz vai pressionando e sufocando os pulmões. Se não bastasse esse sofrimento, aos pés da cruz a humanidade escancara sua queda: gestos e palavras machucam tanto quanto a própria cruz! Diante do Deus-homem crucificado, os homens julgam como se fossem Deus!
As suas vestes são repartidas. Era comum os executores tomarem propriedade das vestes do condenado – principalmente se o condenado tivesse posse de uma túnica costurada de cima até em baixo (algo de muito valor). Enquanto Jesus sufoca, o ser humano faz farra e festa! “Vamos sortear essas vestes! Quem terá mais sorte?”... Nada... Nada é mais desumano que debochar do sofrimento alheio! A humanidade caída na desgraça e miséria do pecado debocha do Deus crucificado.
Naquele dia, os joelhos deveriam cair no chão diante do crucificado em profundo arrependimento..., mas as pernas permanecem inflexíveis! O ser humano permanece de pé para rir e repartir as vestes – enquanto Deus é humilhado no trono da cruz com a inscrição “Este é Jesus, o Rei dos Judeus”. Não, essa não foi colocada como uma confissão de fé, mas, outra vez, como forma de debochar do crucificado.
Jesus foi crucificado no meio de dois ladrões. O lugar do meio era destinado àquele considerado o pior de todos. Ele, o inocente Cordeiro de Deus, considerado o mais perigoso! Porque ideias parecem ser mais perigosas que ações de violência. As ideias inflamam a mente e o coração e fazem pessoas serem capazes de tudo por elas. Jesus foi crucificado no meio porque sua mensagem foi considerada mais perigosa que os furtos realizados pelos ladrões!
A zombaria continua. Palavras continuam ferindo, machucando o Filho de Deus. Aqueles que passam pela estrada ao lado do Calvário balançam a cabeça em sinal de deboche. Se já não bastasse a humilhação da cruz, é preciso sofrer a humilhação dos gestos e palavras que não ferem o corpo, mas a alma. Sim! A cruz machuca o corpo de carne; as palavras machucam a mente e a alma! Quão amargo cálice Jesus bebeu por nós!
2 A MAIOR TENTAÇÃO (v. 40-44)
“Desce da cruz”.
Eles não calam a boca. Eles não se ajoelham. Eles não param. A humilhação continua. Agora, eles usam as próprias palavras de Jesus contra Jesus: “Ó tu que destróis o santuário e em três dias o reedificas! Salva-te a ti mesmo, se és Filho de Deus” (Mateus 27.40). Então compreendemos que ouvir a Palavra de Deus é diferente de crer na Palavra de Deus. Muitos escutam e creem (cf. Romanos 10.10); outros ouvem e não creem. Assim, aqui está a sabedoria humana diante da loucura divina (cf. 1 Coríntios 1.18-25). Eles acham que sabem, mas não sabem de nada! Estão cegos e surdos, mas jamais mudam. Derramam para fora do que está cheio o coração.
Ali, na rude cruz, está “O Idiota” de Fiódor Dostoiévski – o inocente cuja bondade o mundo não consegue compreender[1]. Ali, na rude cruz, está aquele tão debochado pelo Anticristo de Friedrich Wilhelm Nietzsche[2]. Ali, na rude cruz, está o Cristo retratado entre os indiferentes por Edward Munch[3]. Àquele que está na cruz são dirigidas as palavras “desce da cruz”. Que tentação – grande tentação! A maior tentação de todas! Maior que aquelas de Satanás no deserto! Contudo, Jesus decidiu beber o amargo cálice oferecido pelo Pai: “Obediente até à morte – e morte de cruz!” (Filipenses 2.8). Jesus suportou toda dor e todo escárnio em obediência à vontade do Pai que, no Filho, agiu para nos conceder salvação.
3 O MAIOR GRITO (v. 45-49)
“Deus meu, Deus meu, por que me abandonaste?”
Trevas cobrem a terra. O firmamento sente os sofrimentos daquele por meio de quem todas as coisas foram criadas (cf. João 1.1-3). Ele, Jesus, é a Palavra criadora do Pai na força do Espírito Santo. A Criação sentiu o sofrimento daquele que é a Palavra de Deus. Aquele jamais poderia ser um dia bonito!
Em meio às trevas, Jesus grita em aramaico: Eli, Eli, lamá sabactani? Deus meu, Deus meu, por que me abandonaste? Estas palavras dão início ao Salmo 22. Jesus sente o vazio do Pai. Sente-se abandonado. Isaque, o filho de Abraão foi poupado do sacrifício, mas Jesus, Filho de Deus, o Pai, não é poupado de sua cruz! Assim como o cordeiro morreu no lugar de Isaque, Jesus é o Cordeiro que morreu em nosso lugar.
Deus Pai silencia ao ver seu Filho Unigênito sofrer na cruz e carregar os nossos pecados. Os céus sentem o que acontece na cruz. Deus, o Pai, se afasta. Além de ser traído por Judas e ser abandonado pelos seus amigos, Jesus sentiu o difícil silêncio do Pai.
Mas nem aqui, nesta hora derradeira, as bocas se calam! Os deboches continuam. Dizem que Jesus estava chamando por Elias. Não! Eles não entenderam errado! Eles ouviram muito bem que Jesus falou “Eli”. Mas, de propósito, fazem um jogo de palavras para debochar ainda mais daquele que está crucificado.
E então, conforme João 19.28-29, Jesus disse: “Tenho sede”. Ele criou a água; mas tem sede! A crucificação ressecava o corpo do crucificado. É uma sede visceral. Oferecem-lhe um vinagre para amenizar sua dor e molhar seus lábios já secos. Em meio a tanta dor e a tantos deboches, este é um pequeno gesto de misericórdia.
4 O MAIOR REPOUSO (v. 50)
“E Jesus, clamando outra vez com grande voz, entregou o espírito”
Enfim, Jesus descansou. A dor acabou. O sofrimento cessou. Espírito aqui significa vida! O ar saiu de seus pulmões. Aquele que soprou o fôlego de vida em Adão agora suspirou seu último fôlego no alto de uma cruz. Ele descansou. E no seu descanso, nós também podemos descansar. No seu repouso, nós também podemos repousar.
Jesus foi sepultado. O compositor alemão Johann Sebastian Bach traduziu seu descanso em belas palavras de poesia musical:
Nós nos sentamos no chão com lágrimas
e chamamos por você
diante do seu túmulo:
descanse em paz, em paz descanse!
Descanse, membros esgotados!
Descanse em paz, descanse bem!
Sua sepultura e sua lápide
devem ser para as consciências inquietas
um confortável travesseiro de descanso
e para as almas um lugar de descanso.
Naquela Sexta-feira de trevas, quando a cruz ficou de pé, o mundo virou de cabeça para baixo. Senhor Jesus. Descanse em paz. Em paz descanse. Amém.
[1] Cf. DOSTOIÉVSKI, Fiódor. O Idiota. São Paulo: Martin Claret, 2008. A associação do idiota de Dostoiévski com Jesus foi feita em: SCRUTON, Roger. As Memórias de Underground. São Paulo: É Realizações, 2019.
[2] NIETZSCHE, Friedrich Wilhelm. O Anticristo – 1888. In: NIETZSCHE, Friedrich Wilhelm. Obras escolhidas. Porto Alegre: L&PM, 2013.
[3] Veja em: <https://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:Edvard_Munch_-_Golgotha_%281900%29.jpg>. Acesso em: 02. abr. 2026.