Colossenses 3.1-4
Ciclo da Páscoa
P. William Felipe Zacarias
Amados irmãos, amadas irmãs,
várias situações do dia a dia nos lembram o quanto vivemos a vida terrena. No mundo, você pode subir vários degraus, mas nunca será bom o suficiente para ser aceito e amado. A vida terrena é cheia de cobranças, boletos, doenças, problemas familiares, ressentimentos, mágoas, pecados... Tudo isso coloca nossos pés bem no chão da terra! Mas, se Cristo ressuscitou para a vida eterna, por que você ainda está tão preso à vida terrena?
1 A ESCADA EM PÉ
(Uma escada segura em pé no altar com um cartaz escrito “Salvação” após o último degrau).
A Comunidade em Colossenses tinha dificuldades de crer na graça de Cristo. Eles ainda acreditavam que precisavam praticar boas obras e cumprir a Lei de Moisés para conseguirem a salvação e a vida eterna. Eles acreditavam que só agradariam a Deus de forma suficiente se continuassem subindo degrau por degrau (subir na escada). Subir a escada exige esforço humano, habilidade humana e prática humana. Desse ponto de vista, em quem está o centro? No ser humano. Ele passa a ser o centro de tudo! Sua obra é a mais importante (chegar ao topo). E, se ele pudesse chegar ao último degrau, todo o mérito é seu! Perceba: aqui o foco não está em Cristo, mas no ser humano!
Quando o foco da salvação e da vida eterna está no ser humano, surge um grande problema! Uns começam a julgar os outros! “Ah, você não está no degrau em que eu estou”, “ah, você não é tão espiritual quanto eu”, “olha onde estou: sou uma pessoa superespiritual!” Era exatamente isso que acontecia na Comunidade dos Colossenses. A escada não era apenas uma forma de buscar salvação, mas também de julgar os outros! (Descer da escada).
2 A ESCADA DEITADA
Paulo precisou escrever uma carta aos irmãos de Colossos para que eles fossem trazidos de volta à graça! E ele faz isso a partir da Páscoa. O apóstolo de Cristo escreveu: “Portanto, se vocês foram ressuscitados juntamente com Cristo, busquem as coisas lá do alto, onde Cristo vive, assentado à direita de Deus” (Colossenses 3.1). Cristo ressuscitou! Mas não apenas Cristo, ressuscitou: nós também já fomos ressuscitados!
A Ressurreição é, ao mesmo tempo, um evento futuro e um fato que já aconteceu. Para entendermos isso, precisamos voltar um pouco na carta de Paulo. Olhemos Colossenses 2.12: “Tendo sido sepultados juntamente com ele no batismo, no qual vocês também foram ressuscitados por meio da fé no poder de Deus que o ressuscitou dentre os mortos”. No Batismo, nós morremos e fomos ressuscitados. No Batismo, morre a velha criatura e nasce o filho de Deus pela fé: foram ressuscitados por meio da fé no poder de Deus. No Catecismo Menor, Martinho Lutero escreveu:
Que significa batizar com água?
Significa que, por arrependimento diário, a velha pessoa em nós deve ser afogada e morrer com todos os pecados e maus desejos.
E, por sua vez, deve sair e ressuscitar diariamente nova pessoa, que viva em justiça e pureza diante de Deus para sempre.[1]
Ou seja: sempre que celebramos o Sacramento do Batismo, lembramos da Páscoa, pois as águas do Batismo significam morte e ressurreição. Mas a eficácia do Batismo não tem seu efeito pelo mero gesto de fazê-lo, mas na fé que se apega, confia e crê nas promessas dadas no Batismo (Confissão de Augsburgo, artigo XIII).
O que Paulo está dizendo é: se no Batismo fomos ressuscitados em Cristo e por Cristo para a vida eterna no céu, por que ainda estamos tão apegados às coisas da terra? Como já participantes da ressurreição, passamos a buscar os valores que são compatíveis com a nova vida dada a nós em Cristo Jesus. Já não é a vida na terra que dá direção à vida na terra, mas são os céus que dão direção à vida na terra: “Buscai as coisas do alto” significa que, como simultaneamente justos e pecadores por causa de Cristo, vivemos buscando tudo o que Deus nos prometeu em nosso Batismo.
Dito de outra forma: os colossenses ainda estavam tão apegados à escada que deixaram de lado a obra de Cristo. Esqueceram que Cristo fez tudo pela nossa salvação e que as obras não são úteis para chegar a Deus, mas o resultado de uma vida com Deus. (Pegar a escada e deitá-la no corredor central em direção à cruz). Paulo está dizendo que os colossenses já foram ressuscitados no Batismo. Eles precisam ter fé de que Cristo pegou a escada e a transformou em caminho – ele mesmo é o caminho: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida; ninguém vem ao Pai senão por mim” (João 14.6). A salvação não é um lugar para se chegar, mas um ponto de partida que começou no Batismo e na fé! É um fato que já aconteceu na morte e ressurreição de Jesus e cujos benefícios recebemos no Batismo pela fé (cf. João 1.11-12). No Batismo, morremos e ressuscitamos com Cristo. Pela fé, trilhamos o novo caminho (Jesus) que nos leva ao céu.
Amados irmãos, amadas irmãs,
além da lembrança da vitória de Jesus sobre a morte em sua ressurreição, a Páscoa significa o fim da escada e o começo do caminho. Viver a Ressurreição de Jesus significa buscar caminhar com ele diariamente – mesmo em falhas e tropeços. Jesus fez tanto por ti! Abre o teu coração ao Senhor. Ele quer te trazer “vida e vida em abundância” (João 10.10). A vida sem Cristo é morte! A morte com Cristo é vida!
É verdade! Esta vida terrena é cheia de problemas, ansiedades e preocupações – como se o tempo todo precisássemos subir uma escada e, mesmo assim, nunca fôssemos bons o suficiente para sermos aceitos e amados. A vida terrena é cheia de cobranças, boletos, doenças, problemas familiares, ressentimentos, mágoas, pecados... Tudo isso coloca nossos pés bem no chão da terra! Cristo ressuscitou para que você possa ver o céu! Na vida terrena, Cristo te convida a buscar o céu. Olhe para o amor de Jesus. Ele já transformou a escada em caminho – pare de subir a escada! Cristo te ama. Viva com ele diariamente. Amém.
[1] LUTERO, Martim. Catecismo Menor. 29. ed. atualizada. São Leopoldo: Sinodal, 2024. p. 18-19.