Atos 2.14, 36-41
Ciclo da Páscoa
P. William Felipe Zacarias
Amados irmãos, amadas irmãs,
Os nossos pecados pregaram o Filho de Deus no madeiro da cruz. Mas ele ressuscitou. Ele está vivo. E agora, o que faremos?
Os discípulos estão reunidos no Cenáculo (cf. Atos 1.12-13) que é o andar de cima na casa de Maria, mãe de João Marcos (cf. Atos 12.12-13). Matias já foi escolhido para ocupar o lugar de Judas, o traidor. Jerusalém estava lotada de pessoas de todos os lugares que ali foram para celebrar a Festa das Semanas – a comemoração pelas colheitas e o fim do tempo da colheita. Havia pessoas por todos os lados vindas de diferentes nações. A cidade estava lotada. Talvez os mais próximos tivessem ouvido falar de tudo o que aconteceu com Jesus; os mais distantes, dificilmente. Jesus havia subido aos céus apenas dez dias antes. Agora, a fé não vem pelo enxergar ou tocar (como aconteceu com Tomé), mas pelo ouvir da Pregação do Evangelho. O Senhor providencia a salvação através da loucura da pregação.
Foi então que, no Cenáculo, o Espírito Santo desceu sobre os discípulos que começaram a falar em voz alta. Nos diz Atos 2.6: “Assim, quando se fez ouvir aquela voz, afluiu a multidão, que foi tomada de perplexidade, porque cada um os ouvia falar na sua própria língua”. O milagre do Pentecostes aconteceu no andar de cima da casa. As vozes podiam ser ouvidas à distância. O som das vozes chamou a atenção da multidão reunida para a Festa das Semanas. A multidão se aglomerou ao redor daquela casa aos milhares. E cada pessoa entendia a mensagem do Pentecostes em sua própria língua – pois o Evangelho é uma mensagem universal! Foi então que Pedro se levantou e pregou a Palavra de Deus à multidão ali reunida.
1 A PROCLAMAÇÃO DA PALAVRA (v. 14-36)
Pedro começa a pregar. O alto da casa ou talvez até uma janela ou varanda se tornou o seu púlpito. Do alto, sua voz vai longe e pode ser compreendida pela multidão reunida. Pedro se levanta. Se antes Pedro se abaixou na roda dos escarnecedores com medo de ser crucificado, agora Pedro nada tem a temer! Ele não tinha microfone, mas o Espírito Santo estava com ele.
A pregação de Pedro é cristológica. O conteúdo da sua pregação é Cristo. Inspirado pelo Pentecostes, Pedro anuncia que a vinda do Espírito Santo aconteceu conforme Joel havia profetizado, que o que aconteceu com Jesus foi a vontade de Deus, o Pai (cf. Atos 2.23), que Davi já falava de Jesus. Estudos indicam que essa casa de Maria ficava próxima ao Monte Sinai onde Davi fora sepultado. Pedro diz: “Davi: ele morreu e foi sepultado, e o seu túmulo permanece entre nós até hoje” (Atos 2.29). É possível que Pedro tenha até apontado o dedo em direção ao túmulo de Davi, usando esse exemplo ou ilustração para testemunhar que Jesus não possui nenhuma sepultura, mas ressuscitou.
Pedro tem diante de si judeus que foram participar da Festa das Semanas. Ele conhece o seu público-alvo. E por isso faz de tudo para estabelecer as correlações entre a história de Jesus e as profecias do Antigo Testamento – as Escrituras tão bem conhecidas pelos judeus. Pelo agir do Espírito Santo, Pedro quer convencer seus ouvintes que o Cristo crucificado e ressuscitado é o Messias prometido aos reis e profetas da Antiga Aliança.
E então chega o momento crucial onde encontramos o escopo da pregação de Pedro: “— Portanto, toda a casa de Israel esteja absolutamente certa de que a este Jesus, que vocês crucificaram, Deus o fez Senhor e Cristo” (Atos 2.36). Eis o contraste entre a ação humana e a ação divina: vocês o crucificaram; Deus o fez Senhor e Cristo! Ele é o enviado por Deus – e vocês mataram o enviado por Deus! Mas o Senhor o ressuscitou dos mortos. O que Pedro está dizendo é: vocês! Vocês são os culpados! Vocês mataram o ungido de Deus! É uma pregação direta!
2 O IMPACTO DA PALAVRA (v. 37)
A pregação de Pedro, pelo poder do Espírito Santo, não foi lançada ao vento, mas chegou aos lugares mais profundos dos corações dos seus ouvintes: “Quando ouviram isso, ficaram muito comovidos e perguntaram a Pedro e aos demais apóstolos: — Que faremos?” (Atos 2.37). No grego do Novo Testamento, a palavra comovidos (κατενύγησαν τὴν καρδίαν) significa “um arrepio súbito que penetra o coração”, algo que causa grande impacto! A pregação fiel de Pedro atingiu em cheio os corações de seus ouvintes – sua pregação é bíblica e inspirada pelo Espírito Santo, não ideológica. Pedro não prega suas ideias ou seus achismos, mas as Escrituras (Antigo Testamento). E a pregação das escrituras com o agir do Espírito Santo atinge o coração em cheio!
Quando Pedro diz que seus ouvintes mataram o enviado por Deus, esta pregação atinge seus corações como uma flecha. É isso que faz a Palavra de Deus quando pregada pura e retamente: “Porque a Palavra de Deus é viva e eficaz, e mais cortante do que qualquer espada afiada de dois gumes, e penetra até o ponto de dividir alma e espírito, juntas e medulas, e é apta para julgar os pensamentos e propósitos do coração” (Hebreus 4.12). É exatamente isso que a pregação fiel de Pedro causou: um grande impacto nos corações dos seus ouvintes.
Foram tão impactados que começaram a perguntar entre si: “Que faremos, irmãos?” (Atos 2.37). O coração reconhece o erro e pede por uma saída. O ser humano sente em seu interior o peso do pecado e busca o alívio. O coração sente a perdição e deseja a salvação. Mas, onde encontrá-la? O que fazer? E agora, será que estamos perdidos?
Os ouvintes de Pedro foram convencidos dos seus pecados – algo que não é fácil, mas obra do Espírito Santo. Se tem algo que o ser humano não gosta é ser confrontado em suas falhas – ainda mais quando acredita estar certo a todo custo. O impacto da pregação de Pedro quebrou todo orgulho e abriu as portas dos corações dos ouvintes para que o Evangelho pudesse entrar e gerar a sede por transformação que nenhuma outra ideia é capaz de fazer.
3 A RESPOSTA À PALAVRA (v. 38-40)
Aprendi com o pastor britânico John Stott (1921-2011) que uma pregação não é uma palestra. Enquanto uma palestra exige que seus ouvintes prestem atenção e façam anotações das ideias transmitidas, a pregação comunica apenas uma mensagem clara e que exige uma resposta.[1] Como escreveu Tiago: “Sejam praticantes da palavra e não somente ouvintes, enganando a vocês mesmos” (Tiago 1.22).
Os ouvintes perguntaram: “Que faremos, irmãos?” (Atos 2.37). Pedro responde claramente: “ — Arrependam-se, e cada um de vocês seja batizado em nome de Jesus Cristo para remissão dos seus pecados, e vocês receberão o dom do Espírito Santo.” (Atos 2.38). Arrependam-se! “Mudem seu coração. Mudem seu caminho. Façam meia volta e se dobrem diante do Senhor Jesus. Assumam o erro. Deixem de lado o orgulho e sirvam ao senhorio de Cristo!” Sim! Os joelhos não se dobraram diante da cruz, mas devem agora se dobrar a partir da ressurreição: “para que ao nome de Jesus se dobre todo joelho, nos céus, na terra e debaixo da terra, e toda língua confesse que Jesus Cristo é Senhor, para glória de Deus Pai” (Filipenses 2.10-11). “As autoridades o mataram – mas ele ressuscitou e é o Senhor. As autoridades nada mais podem contra ele. Dobrem seus joelhos e arrependam-se diante do Senhor Jesus.”
Essa é a resposta que Deus quer à pregação fiel da sua Palavra: arrependimento, conversão, mudança de vida. Não podemos entrar no culto e sairmos da mesma forma como chegamos. É preciso mudar algo. É preciso que a Palavra entre profundamente no coração. É preciso que haja transformação! É preciso que a Palavra de Deus impacte nosso coração e coloque nossos joelhos no chão diante do Senhor. A Palavra de Deus não é proclamada para ser apenas ouvida, compreendida e assimilada; a Palavra exige uma resposta! Uma mudança! Uma transformação! Pedro deixou claro qual deveria ser a resposta da multidão: arrependimento! “Salvem-se desta geração perversa”[2] (Atos 2.40) que pregou na cruz aquele que foi enviado pelo Senhor!
4 A COLHEITA DA PALAVRA (v. 41)
Enfim, a pregação corajosa de Pedro, abençoada pelo Espírito Santo, fez a obra espiritual que nenhum ser humano pode fazer: “Então os que aceitaram a palavra de Pedro foram batizados, tendo um acréscimo naquele dia de quase três mil pessoas” (Atos 2.41). Imaginem um culto com quase três mil batismos. Foi uma festa. Os discípulos devem ter se revezado nos batismos. A alegria tomou conta dos presentes e, ao redor daquela casa, nascia a primeira comunidade cristã. Isso foi obra do Espírito Santo – e não da oratória ou das técnicas de Pedro, um simples pescador. Aquele foi um dia glorioso para a Igreja de Jesus – o início da fé que hoje reúne bilhões ao redor do mundo (pelo menos, nominalmente). Esta foi a colheita. Esse foi o resultado. Essa foi a bênção do Espírito Santo. Como mais tarde diria Lutero sobre a Reforma da Igreja: “eu não fiz nada; a Palavra fez tudo”.
Amados irmãos, amadas irmãs,
essa foi a pregação evangelística de Pedro. E ela quer ser evangelística também a nós hoje aqui reunidos. Não foram apenas aqueles judeus que crucificaram a Jesus. Nós também o crucificamos com os nossos pecados. Como diz o hino Ó Fronte Ensanguentada (LCI 425):
3. O que tens suportado
foi minha própria dor;
eu mesmo sou culpado
de tua cruz, Senhor.
Ó vê-me, aflito e pobre:
castigo mereci;
com tua graça encobre
o mal que cometi!
Os nossos pecados levaram Jesus à cruz. Nós somos os culpados pela sua crucificação. Os nossos pecados pregaram o Filho de Deus no madeiro da cruz. Mas ele ressuscitou. Ele está vivo. E agora, o que faremos?
A pregação não é apenas para ser ouvida; ela exige uma resposta. Qual é a sua resposta? Diante da acusação que a própria Palavra faz em nossos corações de que somos pecadores, como reagimos? Diante do impacto da Palavra no nosso coração, nos mantemos orgulhosos ou humildemente aceitamos a verdade e nos arrependemos dos nossos pecados diante do Senhor? Qual é a sua resposta?
Acredito que tudo começa por uma pergunta: “Que faremos, irmãos?” E o pedido de resposta que a Palavra de Deus nos faz hoje é: “Arrependam-se”. Voltem ao seu Batismo. Voltem à graça que já foi oferecida a vocês e da qual um dia se distanciaram – e da qual diariamente se distanciam com os seus pecados.
Temos aqui esta cruz. Ela nos ajuda na resposta que precisamos dar à Palavra ouvida. Se você quiser, venha diante da cruz e faça uma oração silenciosa. Converse com Deus. Apresente seus pecados em forma de confissão. Reconheça que somos culpados pela sua crucificação. Venha para receber o perdão de Cristo e relembrar a graça que já foi oferecida a você no seu batismo. Eu também vou – porque, não sei se vocês sabiam, mas pastores também são pecadores. E, quem quiser, pode ficar à vontade para vir á frente e, diante desta cruz, fazer sua oração individual de confissão. Ouça o que diz 1 João 1.8-9: “Se dissermos que não temos pecado nenhum, a nós mesmos enganamos, e a verdade não está em nós. Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados e nos purificar de toda injustiça.” Não há nenhuma pessoa aqui que não tenha cometido pecados – é o que diz a Palavra de Deus. Mas hoje, diante dessa cruz, Deus te oferece a oportunidade de perdão e reconciliação. Venha. Mantemos um tempo de silêncio enquanto isso.
Oração coletiva: Senhor Jesus, não foram os pregos que te seguraram na cruz, pois és Deus e Senhor. Ficaste na cruz tão somente por amor a nós. Nos arrependemos dos nossos pecados. Confessamos a nossa culpa. Reconhecemos que nem sempre vivemos o nosso batismo. Ajuda-nos diariamente a buscarmos mais a tua presença em nossas vidas e a vivermos conforme a tua vontade. Em nome de Jesus. Amém.
[1] STOTT, John. O desafio da pregação. Viçosa: Ultimato, 2022.
[2] σκολιᾶς = torta.