João 7.37-39
Domingo de Pentecostes
P. William Felipe Zacarias
Amados irmãos, amadas irmãs,
Agostinho de Hipona escreveu: Senhor, “fizeste-nos para ti, e inquieto está o nosso coração, enquanto não repousar em ti”[1].
A Festa das Cabanas (ou Tabernáculos) estava no fim. A festa durava sete dias. Enquanto a Páscoa Judaica era a festa que celebrava o início da colheita, a Festa das Cabanas celebrava o fim de todas as colheitas do ano (frutas, oliveiras e videias). A Festividade possuía esse nome (Tabernáculos ou Cabanas) porque os agricultores montavam cabanas nos campos onde se hospedavam durante o tempo das colheitas. As festividades eram marcadas por diversos rituais que faziam parte das teias de significado do povo de Deus e eram uma rememoração de como o Senhor agiu no passado. Durante os sete dias da Festa das Cabanas, todas as manhãs, uma procissão de sacerdotes descia até o tanque de Siloé com uma jarra de ouro. A jarra era enchida de água e então os sacerdotes subiam de volta ao templo onde a água era derramada solenemente sobre o altar ao som de trombetas e coros que entoavam os Salmos 113 e 118. Assim, durante os sete dias da festa, com o gesto da água, o povo de Deus era lembrado de que o Senhor saciou a sua sede na peregrinação pelo deserto rumo à Terra Prometida. Além disso, o ritual das águas também era uma oração que clamava por chuvas para a fertilidade da terra nas novas plantações.
Jesus estava na Festa das Cabanas com os seus discípulos. Por seis dias ele apenas observou o ritual das águas que era repetido anualmente. No sétimo dia, Jesus foi impulsionado a falar. E o que ele diz denuncia o vazio das nossas próprias vidas.
1 VINDE E BEBA (v. 37)
A água foi derramada sobre o altar – mas não pode matar a sede mais interior do ser humano: a sede de Deus. Por isso, Jesus se levantou e se apresentou como água a ser bebida. No contexto do Novo Testamento, a Festa das Cabanas não apenas rememorava o passado e comemorava o presente, mas carregava a esperança pelo messias prometido. A marca da esperança estava bem presente na celebração. A festividade já acontecia a muitos anos. Profetas antigos haviam profetizado a vinda do Messias. A Festa das Cabanas era a Festa da Esperança – e o que Jesus está dizendo é que a esperança se cumpriu nele. Chegou o momento de a sede ser saciada. Chegou o momento de descobrir uma nova vida. Chegou o momento em que Deus está cumprindo tudo o que havia dito aos antepassados.
Jesus não apenas convida – mas ele é a água da vida. Ele diz: “Se alguém tem sede, venha a mim e beba” (João 7.37b). Qual sede? A sede de Deus! Pode acontecer um momento na nossa vida em que descobrimos o quanto somos insaciáveis. Nada é suficiente para preencher a nossa vida. A mansão, o carro de marca do último modelo, a televisão de “mil polegadas”, os treinos em dia, os investimentos financeiros... Ou as redes sociais que escancaram o nosso tédio... A família que não parece ser perfeita como todas as outras... Então, olhamos para dentro de nós e tudo o que vemos é um vazio que queremos preencher a todo custo, sem sucesso! Como nessa escultura de Albert Gyorg chamada “Melancolia” onde uma pessoa sentada em um banco olha para o vazio que há na sua vida.
Facilmente podemos nos reconhecer nesta escultura. Muitas pessoas tiveram sucesso em tudo na sua vida, mas ainda buscam o sentido da sua vida; muitas pessoas têm orgulho de tudo o que construíram na vida, mas ainda buscam o fundamento das suas vidas; muitas pessoas fizeram tudo certo na vida, mas ainda sentem que algo do lado de dentro está errado! É o vazio! É o caos! Como na pintura de Edward Munch, “O Grito” onde o caos pode não estar do lado de fora, mas de dentro. O coração fica inquieto – porque parece pulsar sem uma direção a seguir. Então, Jesus faz esse convite amoroso: “Se alguém tem sede, venha a mim e beba” (João 7.37b).
2 CREIA E TRANSBORDE (v. 38)
Após ir a ele, Jesus pede que creiamos nele: “Quem crer em mim, como diz a Escritura, do seu interior fluirão rios de água viva” (João 7.38), citando Ezequiel 47.1 e Zacarias 14.8. Jesus promete não apenas um preenchimento, mas um transbordamento. Não é apenas saciar a sede, mas um fluir contínuo. É a água vinda diretamente da nascente – a melhor água que existe. É uma nova vida. É um novo sentido para a vida. É a libertação de tudo o que fazemos para preencher o vazio das nossas vidas. É o Evangelho.
Para transbordar da água da vida é preciso beber continuamente da Palavra de Deus. É pela sua Palavra que o Senhor fala e preenche as nossas vidas. É pela sua Palavra que é gerada a fé, pois “E, assim, a fé vem pelo ouvir, e o ouvir, pela palavra de Cristo” (Romanos 10.17). O melhor antídoto para a vida vazia é preenchê-la com a Palavra de Deus. Lê-la. Estudá-la. Conhecê-la. Amá-la!
E é aqui que o texto bíblico se conecta com a festividade de hoje: Pentecostes! É o Espírito Santo aquele que nos conduz à fé pelo ouvir da Palavra de Deus. Como escreveu Martinho Lutero na sua explicação do Credo Apostólico no Catecismo Menor:
Creio que, por minha própria inteligência ou capacidade, não posso crer em Jesus Cristo, meu Senhor, nem chegar a ele. Mas o Espírito Santo me chamou pelo Evangelho, iluminou com seus dons, santificou e conservou na verdadeira fé. Assim também chama, reúne, ilumina e santifica toda a Igreja na terra, e em Jesus Cristo, a conserva na verdadeira e única fé.[2]
O Espírito Santo não apenas trouxe Cristo a este mundo através da concepção de Maria, mas traz Cristo para as nossas vidas como fonte de água da vida. É o Espírito Santo que gera a fé em Cristo através do ler e ouvir a Palavra de Cristo. O Espírito Santo não preenche a nossa vida com emocionalismos dopaminérgicos, mas com a Santa Palavra de Deus.
3 RECEBA E TESTEMUNHE (v. 39)
Preenchidos de sentido pela Palavra de Deus no poder do Espírito Santo, somos convidados a testemunhar. Jesus prometeu: “Isto ele disse com respeito ao Espírito que haviam de receber os que nele cresssem” (João 7.39a). No dia de Pentecostes, Jesus cumpriu o que prometeu. O Consolador desceu sobre os discípulos, Maria e outras mulheres reunidos no Cenáculo em Jerusalém. O Espírito Santo veio ser o poder que encoraja os verdadeiros discípulos do Senhor a testemunharem do Evangelho do Senhor Jesus.
Sempre que descobrimos algo bom, temos a tendência de compartilhar a notícia com os demais. As mulheres compartilham umas com as outras o descobrimento de diferentes flores – e trocam mudas entre si; homens compartilham uns com os outros sobre tecnologia, carros, mercado. Quando descobrimos algo bom, queremos que outros também possam experimentar o que experimentamos.
Da mesma forma aconteceu com os discípulos após Pentecostes. Eles beberam a água viva. Eles transbordaram da água da vida. Eles aceitaram o convite. Eles creram. Eles receberam. Agora, pelo poder do Espírito Santo, são levados ao mundo inteiro para partilhar com outras pessoas tudo o que Deus fez na vida deles. É algo tão bom que não pode ficar guardado apenas para si. Precisa ser partilhado adiante – ainda que isso custe a própria vida! É o Espírito Santo quem cria essa coragem única para que a vida preenchida pelo Evangelho seja testemunhada às vidas vazias que estão ao nosso redor. É preciso testemunhar – pelo poder do Espírito Santo.
Amados irmãos, amadas irmãs,
lembro outra fez a frase de Agostinho: Senhor, “fizeste-nos para ti, e inquieto está o nosso coração, enquanto não repousar em ti”[3]. Há um vazio em nosso coração do tamanho de Deus. Há uma sede em nossa vida do tamanho do Evangelho. Há uma ânsia por ser saciado plenamente.
Com o que você tem preenchido a sua vida? Jesus disse: “A boca fala do que está cheio o coração” (Mateus 25.34). Os assuntos que estão na ponta da sua língua revelam do que está cheio o seu coração: trabalho, finanças, bens... Os assuntos que você mais posta nas Redes Sociais revelam do que está cheio o seu coração: política partidária, fofocas, status... A maneira como você vive revela do que está cheio o seu coração. Do que está cheio o teu coração? E por que mesmo assim você se sente vazio como aquela pessoa sentada no banco olhando para si?
Hoje é Pentecostes. Hoje lembramos que o Espírito Santo está conosco. Hoje lembramos que não estamos sozinhos. Hoje lembramos que no ouvir da Palavra de Deus o Espírito Santo enche a nossa vida de fé e de sentido para que a nossa boca esteja cheia da sua Palavra.
Jesus é a água viva. No poder do Espírito Santo, receba hoje essa água que sacia toda a sua sede. Que o Espírito Santo testemunhe de Cristo no seu coração. Que o Espírito Santo te convença dos caminhos errados que estás seguindo e te conduza a Cristo. Que o Espírito Santo te inspire a com criatividade testemunhar o Evangelho a outras pessoas. Que o Espírito Santo remova todo caos e confusão – e deixe tudo claro!
Bebam, transbordem e testemunhem – humildemente, pelo poder do Espírito Santo. O Senhor preencha a tua vida de sentido. O Senhor preencha a tua vida com seu amor. O Senhor preencha a tua vida com seu Evangelho. E que, pelo Espírito Santo, você saia hoje daqui diferente da maneira como entrou. Amém.
[1] AGOSTINHO, Aurélio. Confissões. Coleção Patrística. Vol. 10. 3. ed. São Paulo: Paulus, 2018. p. 20.
[2] LUTERO, Martim. Catecismo Menor. 25. ed. atualizada. São Leopoldo: Sinodal, 2024. p. 11.
[3] AGOSTINHO, 2018. p. 20.