1 Coríntios 10.16-17
Ciclo da Páscoa
P. William Felipe Zacarias
Amados irmãos, amadas irmãs,
Vivemos a era das escolhas infinitas. Se antigamente você tinha o café passado, hoje uma única máquina de café oferece diversas opções diferentes de cafés; se antes haviam poucos canais de televisão, hoje as plataformas de streaming e o próprio youtube possibilitam uma gama de oportunidades de escolha; se antes havia a Igreja Católica e a Igreja Evangélica, hoje não apenas a fé cristã se multiplicou e se tornou personalizada a gostos individuais, mas o próprio fenômeno religioso criou uma multiplicidade de escolhas que estão em uma prateleira. Então, onde fica Cristo: Ele é tudo ou só mais um?
1 A SUFICIÊNCIA DE CRISTO EM PAULO
A Comunidade em Corinto é aquela que mais deu dor de cabeça ao apóstolo Paulo. Não é à toa que o apóstolo precisou escrever quatro cartas àquela Comunidade (cf. 1 Coríntios 5.9-10; 2 Coríntios 6.14-18; 7.8), sendo que duas cartas infelizmente foram perdidas. A Comunidade era bagunçada, cheia de brigas, divisões, disputas de poder... Uma desorganização total que enfraquecia a vivência do Evangelho de Jesus.
Corinto era uma cidade portuária e rica. Por ali, passavam centenas e talvez milhares de pessoas do mundo inteiro da época diariamente. Eram pessoas de diferentes regiões, países, culturas e religiões. Por isso, Corinto era uma cidade marcada pela pluralidade, pois muitas ideias e religiões circulavam pela cidade. Além disso, a cidade possuía dois templos dedicados a deuses gregos: Apolo e Afrodite que eram adorados pelo povo em banquetes e grandes refeições.
O Evangelho de Jesus Cristo chegou a Corinto na segunda viagem missionária de Paulo onde um casal de judeus, Áquila e Priscila, se converteram à fé cristã. Primeiro, Paulo pregava o Evangelho na sinagoga dos judeus; ao ser proibido, passou a pregar o Evangelho na casa de Tício Justo que ficava ao lado da sinagoga (cf. Atos 18.1-11). A partir da pregação do Evangelho, mais pessoas foram se achegando e assim nasceu a Comunidade Evangélica em Corinto.
Contudo, havia um problema urgente e grave: muitos dos novos adeptos à fé cristã achavam que não fazia mal algum participarem da Ceia do Senhor na Igreja em um dia e em outro dia participarem das refeições oferecidas em adoração à Afrodite e Apolo. Para os coríntios, não fazia mal ter um pé na igreja e outro pé em outra religião... Diante do pluralismo religioso, os cristãos coríntios achavam que podiam viver várias “fés” de uma vez só. Cristo não era único, mais só mais um, mais uma opção pra escolher na grande prateleira das fés de Corinto.
O problema nem era em si as refeições, mas a fé colocada em outros deuses. Participar de uma refeição com pessoas que creem de outra forma é uma coisa. Nas nossas famílias, essas refeições acontecem o tempo todo. Ou todo mundo é da IECLB na sua família? O problema é crer nas divindades e ensinamentos das outras religiões e querer conjugar isso com a fé cristã. Aí temos um problema! Grande problema cujo nome a Bíblia deixa muito claro: Idolatria. A questão não é a refeição em si, mas a fé.
Por isso, Paulo fala da Ceia do Senhor. Paulo está falando da suficiência de Cristo. Ele é suficiente. Os cristãos de Corinto devem renunciar completamente as outras crenças e se firmarem unicamente em Cristo. O povo de Deus deve ser também um único pão que participa da obra de Cristo. Na última Ceia com seus discípulos, Cristo disse “isto é o meu corpo” e “isto é o meu sangue”. Cristo não disse “isso parece”, “isso simboliza” ou “isso representa”, mas “isto é”. Isso muda tudo! Ele é suficiente. E nenhum outro alimento espiritual se compara à Ceia de Cristo – onde ele está verdadeiramente presente.
2 A SUFICIÊNCIA DE CRISTO EM LUTERO
O brado de Paulo é o grande brado retumbante da Reforma do Séc. XVI: Somente Cristo! Eu gosto muito de um hino de Páscoa de Lutero onde ele traduz com muita beleza e poesia a mesma mensagem que Paulo anunciou aos Coríntios. É o hino “Christ Lag in Todesbanden” (Cristo estava preso nas amarras da morte). Na última estrofe do hino, o músico Lutero escreveu:
7 – Nós comemos e vivemos em fartura
com o verdadeiro bolo pascoal.
O velho fermento não deve
ficar misturado à palavra da graça.
Cristo quer ser o alimento
e nutrir sozinho a alma,
a fé não quer viver de outro.[1]
Aqui está a fartura da graça inesgotável de Cristo, o alimento abundante e suficiente. Aqui há a fartura da graça que nunca acaba! Somente Cristo. Abandonem as vãs refeições a ídolos e busquem a fé somente em Cristo. Outras refeições podem ter boa aparência, mas não farão bem à saúde espiritual. Cristo, sozinho, não apenas mata a fome, mas alimenta e nutre para um novo corpo ressurreto para a vida eterna. Nenhum outro alimento espiritual pode fazer isso. Somente Cristo!
3 A SUFICIÊNCIA DE CRISTO HOJE
E hoje? Cristo é tudo ou apenas mais um? Cristo é toda a nossa fé ou só mais uma escolha nas prateleiras do dia a dia? Você crê exclusivamente em Cristo ou tem um pezinho aqui e outro acolá? Você é como a Comunidade de Corinto ou como Paulo e Lutero?
Muitos luteranos vivem a fé na Igreja, mas também na benzedeira, no espiritismo, no horóscopo ou em outras formas de religiosidade que nada tem a ver com Cristo. Podem até ter a aparência de uma refeição bonita e saborosa, mas afastam de Cristo. Aqui não posso fugir da tarefa de pregar a Palavra. Pregar a verdade da suficiência de Cristo é uma cruz que o pregador precisa carregar. A verdade deve ser dita – ainda que seja impopular! E a verdade é essa: seguir a Cristo de verdade e receber o Sacramento da Santa Ceia implica na renúncia a outras fés. Ou estamos em Cristo ou estamos fora de Cristo! Ou Cristo dirige a nossa vida ou “os astros”; ou cremos na ressurreição ou na reencarnação.
Claro, obviamente a fé na exclusividade de Cristo não nos dá o direito de desrespeitar ou até de atacar outras religiões. Há poucos dias atrás faleceu o sociólogo alemão Jürgen Habermas. No seu livro “Entre Naturalismo e Religião” ele deixa algo muito claro: a tolerância e o respeito não significam renunciar à própria fé, mas justamente por crer na própria fé é que respeito a fé dos outros. Só pode haver respeito e tolerância onde há discordâncias, pois onde todos concordam, não há o que respeitar e tolerar.[2] Respeitar não significa assumir a fé do outro; respeitar significa assumir que há diferenças e que decidi permanecer com Cristo e crer que ele é suficiente para sustentar a fé.
Amados irmãos, amadas irmãs,
Cristo é tudo ou só mais um? Muitos evangélicos de confissão luterana estão se comportando como aquela Comunidade Evangélica em Corinto, acreditando que “não faz mal” ter um pezinho aqui e outro lá. Acredito que se Paulo estivesse vivo e escrevesse uma carta a nós hoje, provavelmente ele diria o mesmo: fiquem com Cristo! Ele basta e é suficiente! Somos um só pão, um só corpo! Nós não somos suficientes: Cristo é suficiente! Como escreveu Lutero: “Cristo quer ser o alimento e nutrir sozinho a alma. A fé não quer viver de outro”.
A Semana Santa escancara tudo o que Cristo fez por nós. Mas quando você coloca tudo isso apenas como mais uma opção na prateleira, é como se o sofrimento de Cristo nem fosse tão importante assim... Aí, no guarda-roupas da fé você tem a roupa cristã e as outras roupas que você usa conforme convêm. Deixa isso de lado e reviste-se de Cristo. Ele é o Senhor. Ele é o Salvador. Ele é o caminho, a verdade e a vida – ninguém vai ao Pai senão por ele (cf. João 14.6). Ele é suficiente!
Alguns podem resistir à essa mensagem. Já em outros a fé é despertada. Que o Espírito Santo aja para que você creia em Cristo e renuncie a tudo que te afasta de Cristo. Vamos orar.
Amém.
[1] LUTERO, Martinho. “Cristo estava preso nas amarras da morte – 1524”. in: LUTERO, Martinho. Obras Selecionadas. v. 7. 2. ed. São Leopoldo: Sinodal; Porto Alegre: Concórdia; Canoas: Ulbra, 2016. p. 523-524.
[2] cf. HABERMAS, Jürgen. Entre naturalismo e religião: estudos filosóficos. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 2007. p. 279-347.