João 10.1-10
Ciclo da Páscoa
P. William Felipe Zacarias
Amado irmão, amada irmã,
como você se sente quando você entra na nossa linda igreja? É possível descrever esse sentimento? Nós temos recebido visitantes em nossa igreja. O que acontece quando eles entram nesse espaço é quase unânime: um suspiro acompanhado da frase “que linda”. Lembro de um Culto Nacional Online da IECLB gravado aqui onde pessoas comentaram no YouTube: “Que igreja linda”. Talvez, quem aqui congrega desde seu batismo já esteja acostumado com esse ambiente. Para os novos, entrar aqui é como passar por um portal, uma porta que dá acesso a um paraíso de calma em meio ao caos da cidade. Entrei aqui pela primeira vez em 2019. Havia uma reunião de pastores aqui em Hamburgo Velho e lembro claramente do suspiro que dei quando aqui entrei pela primeira vez – e não pensei naquele momento que um dia seria pastor nesta Comunidade. Assim são os caminhos de Deus.
Jesus disse: “Eu sou a porta. Quem entrar por mim, será salvo” (João 10.9). Talvez muitas pessoas entram aqui buscando a beleza deste lugar – e, de fato, a nossa Igreja é muito bonita. Contudo, a verdadeira beleza deste templo não está apenas no visível, mas principalmente no invisível. Enquanto a beleza visível é vista com os olhos da cabeça, a beleza invisível só pode ser vista com os olhos do coração. Sim!
No dia 05 de Outubro de 1544, o reformador alemão Martinho Lutero pregou na dedicação da Igreja do Castelo de Torgau, na Alemanha – dois anos antes do seu falecimento. Nesse sermão, Lutero diz que o templo é uma casca, um invólucro. Como na semente, a casca é necessária para proteger a vida que está dentro da semente; contudo, a casca não é a vida em si. O prédio com a torre, os vitrais, espaços e móveis é a casca preciosa que protege a vida que pulsa do lado de dentro. E a casca se torna descartável quando do lado de dentro a vida já não pulsa mais.
É meu dever pregar a verdade desconfortável: Hoje, muitos admiram essa casca, mas recusam a vida que pulsa dentro dela. Querem vir conhecer o templo, mas negam o ouvir a pregação da Palavra de Deus; procuram esse espaço para fazer fotos, mas se negam a viver aqui em comunhão com outras pessoas; entram pela porta da Igreja, mas jamais decidiram entrar pela porta que é Jesus Cristo, o nosso Senhor e Salvador. Quando a vida da semente é negada, o que resta é uma admiração vazia que não compreende o sentido teológico e espiritual da construção, pois ela não é apenas um grande projeto arquitetônico, mas a revelação concreta da fé da sua Comunidade. Parafraseando Schiller, ela é a “fé plástica” da Comunidade. E só quem vive realmente a vida na Palavra de Deus e em comunidade sabe o que realmente significa esse lindo invólucro.
Quem não vive a vida pulsante do Evangelho e não passa pela porta de Cristo, admira apenas uma casca. Quem vive o Evangelho e passou pela porta de Cristo e conhece as Escrituras, admira mais que uma casca – mas um lugar onde tudo só faz sentido a partir da Palavra de Deus, de forma que, sem ela, nos tornamos cegos. Não são apenas paredes fortes e bem construídas; não é apenas a madeira bem talhada em detalhes; não são apenas vitrais bem projetados; não são apenas janelas para dar claridade; não são meros ornamentos para embelezar o templo. Tudo – absolutamente tudo – num templo luterano cumpre uma missão específica: apontar para Cristo que é a porta das ovelhas. Apontar para a Salvação. A missão deste espaço é que, pela proclamação da Palavra, pessoas sejam encontradas pelo amor de Deus. É para isso que este espaço existe. Do contrário, os bancos poderiam ser jogados fora e o espaço poderia ser usado para qualquer outra coisa.
Esse é o sentido que precisa ser redescoberto neste centenário. Qual é o sentido do Templo? Para quê ele foi construído? Para quê ele existe hoje? E a resposta é: não apenas para ser contemplado ou visitado, mas como lugar da pregação da Palavra de Deus e da fé evangélica de confissão luterana de sua Comunidade. Não se trata apenas de patrimônio histórico, mas de um lugar cheio da espiritualidade que se conecta com as teias de significado da nossa vida em meio às ambiguidades da vida Pós-Moderna. E a espiritualidade que dá sentido e propósito para esse espaço está além daquilo que os olhos da cabeça conseguem ver.
Amados irmãos, amadas irmãs,
isso é o mais importante. Se a semente morre por dentro, a casca também morre. Se a vida deixar de pulsar nesse espaço, não demorará muito para esse espaço servir a outros propósitos – como já acontece na Alemanha onde templos antigos se transformam em restaurantes, baladas e até estacionamentos de bicicletas. Se o Evangelho deixar de ser pregado pura e retamente, se os Sacramentos deixarem de ser administrados corretamente, se a comunhão se tornar apenas uma escolha ou opção, se as portas estão fechadas a outras pessoas por causa de um germanismo enraizado, então a vida da comunidade deixará de pulsar e a estrutura exterior restará apenas como memória de um passado onde a fé ainda era um valor importante.
O centenário do nosso Templo só tem valor se for celebrado a partir da Palavra de Deus. Do contrário, não haveria o que celebrar. O Culto é festivo por causa da Palavra de Deus que inspirou pessoas a erguerem essa construção. O Culto é festivo por causa da Palavra de Deus que alimentou gerações neste morro desde 1832. O Culto é festivo por causa da Palavra de Deus que fez tudo! Lutero disse sobre a Reforma: “Eu não fiz nada; a Palavra fez tudo”. E assim como pela Palavra de Deus todas as coisas vieram a existir do nada, da mesma forma essa construção foi erguida e é mantida aqui pela viva Palavra de Deus.
Cristo Jesus precisa estar no centro. Ele é a porta. Ele é a Salvação. Ele é a vida da sua Igreja. Como atual pastor desta Comunidade, esse é meu desejo mais pessoal: que as pessoas não venham aqui apenas pela linda igreja, mas para um encontro real e pessoal com Cristo, a Porta da Igreja. Quem vê apenas a construção bonita, sai da mesma maneira como entrou. Quem na construção encontra o tesouro do Evangelho e o Senhor Jesus, sai diferente, pois Jesus prometeu: “Eu sou a porta. Se alguém entrar por mim, será salvo; entrará, e sairá, e achará pastagem” (João 10.9). Enquanto Cristo estiver no centro, não tenho dúvida de que gerações continuarão congregando nesse lugar. Cristo é a vida que motivará pessoas a manterem este lugar. Que ao estar aqui, você não veja apenas a casca, mas também Jesus, a vida que pulsa e dá sentido à construção. Amém.