João 14.1-14
Ciclo da Páscoa
P. William Felipe Zacarias
Amados irmãos, amadas irmãs,
O que tem perturbado o seu coração? O que tem tirado o seu sono? Como está a tua vida? Como está tua família e teu casamento? O que te causa angústia e medo?
Jesus diz: Não se turbe o vosso coração. Credes em Deus? Crede também em mim.
O Evangelho de João é o livro mais lido do mundo. Cristãos e até não cristãos ficam emocionados ao entrarem em contato com esse livro. Enquanto Lucas (o médico) usa uma linguagem mais técnica, João é o discípulo que escreve de coração a coração. São palavras profundas que tocam as profundezas do nosso ser. Em 2019 escutei uma palestra de Luc Ferry, filósofo francês ateu e ex-ministro da educação da França. Logo no início da palestra ele disse a seguinte frase para a multidão que lotou o Salão de Atos da UFGRS: "Se eu tivesse que ser isolado em uma ilha e só pudesse levar um livro comigo, seria o Evangelho de João", o que demonstra o quanto estas palavras marcam seus leitores - mesmo quando não são cristãos.
E então, neste 5º Domingo da Páscoa, o Lecionário Comum Revisado nos leva de volta para a noite da Quinta-feira da Paixão. Esta é aquela Quinta-feira crucial em que Jesus será traído por Judas e negado três vezes por Pedro; é a noite em que Jesus suará gotas de sangue no Getsêmani enquanto seus discípulos dormem; é a noite que antecede a sua crucificação. É a noite crucial em que tudo o que precisa acontecer pela nossa salvação, acontece. Mesmo sabendo dos próximos passos, Jesus não procura causar uma revolução para evitar sua morte, mas acalma os seus discípulos restantes com palavras de calma e esperança.
1 DA PERTURBAÇÃO AO CAMINHO
Jesus pede que os corações dos seus discípulos não fiquem perturbados mas o seu próprio coração está perturbado: "Agora, está angustiada a minha alma, e que direi? Pai, salva-me desta hora? Mas precisamente com este propósito vim para esta hora". Ele mesmo sabe o que vai lhe acontecer em seguida - e mesmo assim tem coragem de pedir que seus amigos fiquem calmos. Jesus já sabe da cruz - e mesmo assim tem coragem de acalmar os corações dos seus amigos.
Os discípulos estão confusos. Jesus havia dito que iria para um lugar para o qual eles não poderiam segui-lo. Como teriam que se afastar do Mestre a qual seguiram por três anos? Como não poderiam acompanhá-lo adiante? Será que o Mestre iria abandoná-los? Não, eles ainda não compreendem que esse lugar se chama cruz - e que Jesus precisará passar por isso sozinho.
Jesus os consola, mas não de qualquer jeito. Jesus não usa palavras vazias e repetidas como "vai ficar tudo bem"; Jesus não cai no otimismo falho e vazio das "autoajudas"; Jesus não proclama uma solução fácil fundamentada no potencial humano. Jesus aponta que há um caminho a ser seguido. Este caminho não leva a qualquer lugar deste mundo, mas até à casa do Pai, onde há muitas moradas. Os discípulos precisam ter fé de que Jesus diz a verdade.
Então, Tomé pergunta: Qual é o caminho? E Jesus responde: "Eu sou o caminho, a verdade e a vida. Ninguém vem ao Pai senão por mim". No grego do Novo Testamento, há uma regra neste caso em que o primeiro substantivo rege os dois seguintes. Portanto, o que Jesus está dizendo é: "Eu sou o caminho verdadeiro e vivo". Jesus é o caminho para Deus porque ele é a verdade de Deus e a vida de Deus. Jesus está dizendo: "Não se turbe o vosso coração. Tenham fé e sigam o único caminho que leva ao Pai. Esse caminho sou eu". Ou: "Lembrem-se: vocês não caminham rumo a um destino incerto ou em direção ao acaso. Eu sou o caminho. Sigam comigo para a casa do Pai onde há muitas moradas". Jesus acalma o coração dos seus amigos não os paralisando, mas colocando-os a caminho.
Apenas o versículo 6 daria uma pregação inteira. Mas como desejo trazer também o restante do texto, trago o maravilhoso resumo de Tomas de Kempis, um grande monge alemão e autor do livro "A Imitação de Cristo" sobre esse versículo. Ele escreveu:
Siga-me. Eu sou o caminho, a verdade e a vida. Sem o caminho, não há como ir; sem a verdade, não há saber; sem a vida, não há viver. Eu sou o caminho que você deve seguir; a verdade que você deve crer; a vida pela qual você deve esperar. Eu sou o caminho inviolável; a verdade infalível; a vida sem fim. Eu sou o caminho mais reto; a verdade soberana; a vida verdadeira, vida abençoada, vida incriada.
2 DA PERTURBAÇÃO À REVELAÇÃO DE DEUS
Para acalmar o coração dos seus discípulos, Jesus não fala apenas do caminho, mas também da revelação de Deus - e, na verdade, esses dois temas se misturam em todo o texto.
Filipe pede a Jesus: "Senhor, mostra-nos o Pai, e isso nos basta". Há o desejo por ver a Deus Pai. E Jesus responde: "Quem me vê a mim, vê o Pai. Quem conhece o Filho, conhece o Pai, pois o Pai está no Filho, e o Filho está no Pai mas o Pai não é o Filho e o Filho não é o Pai. O Pai é semelhante ao Filho em sua divindade, mas diferente do Filho em sua pessoa (persona). Jesus não revela o Pai apenas na semelhança com o Pai, mas também na diferença. O Pai é Pai por causa do Filho; e o Filho é o Unigênito do Pai.
E a boa notícia é que Jesus não ficou com o Pai somente para ele; Jesus decidiu compartilhar a paternidade do seu Pai conosco, para que também nós fôssemos chamados filhos de Deus, a saber, aos que creem no seu nome. Jesus também partilhou da paternidade do seu Pai na oração ensinada aos discípulos, pois Jesus não disse "Pai meu", mas "Pai nosso".
No Antigo Testamento, Moisés pôde ver apenas as costas de Deus. Agora, em Jesus, Deus é visto face a face: "E o Verbo se fez carne e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade; e vimos a sua glória, glória como do Unigênito do Pai.
As pessoas com corações perturbados são chamadas a olharem para Cristo e a verem nele não apenas o homem, mas o próprio Deus que se fez gente e habitou entre nós. No rosto do Cristo crucificado encontramos o rosto da misericórdia de Deus. Deus não fugiu do sofrimento, mas o encarou de frente. Da mesma forma, o olhar misericordioso de Cristo repousa sobre as nossas perturbações e sofrimentos. Quem vê Jesus, vê o Pai. Deus não prometeu que não haveria sofrimento, mas que estaria conosco até o fim. E ele sofre conosco - jamais estaremos sozinhos.
3 DA PERTURBAÇÃO À ORAÇÃO
Então, por último, Jesus menciona aos seus discípulos aflitos o poder da oração: "E tudo quanto pedirdes em meu nome, isso farei, a fim de que o Pai seja glorificado no Filho. Se me pedirdes alguma coisa em meu nome, eu o farei. Na perturbação, coloca os joelhos no chão em oração. Na perturbação, derrama diante de Deus o teu coração. Na perturbação, fala a Cristo a tua aflição. Não segures isso para ti. Não te agarres à tua dor. Deixe-a aos pés da cruz. Entrega ela a Jesus. Ele é o teu Salvador.
Orar não é apenas falar com Deus. Orar é permitir que Deus nos transforme, pois Deus usa a oração para nos transformar. Aos poucos, vamos compreendendo a vontade de Deus - e passamos a pedir o que Deus coloca em nossos corações. Não imploramos pela nossa vontade, mas pedimos pela vontade de Deus. E essa oração Deus não apenas ouvirá, mas realizará.
Na oração, encontramos o caminho; na oração, Deus se revela a nós em sua escuta amorosa; na oração, somos acolhidos pelo amor de Deus que inclina o ouvido para ouvir o que temos a dizer. Não se turbe o vosso coração. Entregue tudo a Cristo em oração. Jesus é o caminho verdadeiro e vivo. Ele escuta a tua oração, pois vive e reina para sempre. Ele acalma o coração. Ele concede a paz que excede todo entendimento. Deixe tudo aos pés da cruz de Cristo.
Amados irmãos, amadas irmãs, 5
Jesus diz: Não se turbe o vosso coração. Credes in Deus? Crede também em mim. Aquela era a hora crucial de Jesus. Ao invés de pedir consolo, ele consola os seus amigos. Ao invés de pedir um abraço, é ele quem os abraça. Ao invés de pedir socorro, é ele quem os socorre. Quão consoladoras são estas palavras. Desafio que decoremos especialmente os versículos 1 a 6 para termos essas palavras consoladoras bem fixas em nossos corações para delas lembrarmos em momentos de aflição.
Quero terminar citando Lutero que escreveu:
Se também quiseres ser cristão, igual aos apóstolos e a todos os santos, então deves estar prevenido e ter a certeza de que virá uma horinha, que atingirá o teu coração, de modo que ficarás apavorado e cheio de medo (...). Quando o tempo muda, e vem a doença após a saúde, guerra e desgraça após a paz, fome após a fartura, aflição, pavor e desespero não têm fim. (...) Por isso, trata de estar preparado para tanto, venha quando vier, para que possas suportar e permanecer firme e extrair conforto da Palavra de Deus.'
Nas Bíblias, você encontrou um coração. Olhe para esse coração. Pense e reflita sobre o que perturba o seu coração hoje. Se quiser, escreva no papel. Se há algo que você deseja entregar nas mãos de Deus, venha, se coloque a caminho; venha ao Pai; venha e coloque diante de Cristo em oração. Ao fim do culto vamos queimar os corações na confiança de que: "Suba à tua presença a minha oração, como incenso". Venha à cruz. Venha a Jesus. Venha ao Senhor.