Atos 1.6-14
7º Domingo da Páscoa
P. William Felipe Zacarias
Amados irmãos, amadas irmãs,
Você sabia que quando se rema só de um lado, o barco navega em círculos? Bem, antes de falar disso, faço outra pergunta: O que o Senhor espera da sua Igreja?
O evangelista Lucas terminou seu Evangelho narrando a Ascensão de Jesus; agora, ele inicia seu segundo livro, Atos dos Apóstolos, narrando o mesmo evento. Ele não apenas continuou a história de onde parou; Lucas faz mais: entre a ida de Jesus aos céus e o seu retorno há um meio-tempo cheio de coisas a serem feitas: esse meio-tempo se chama História da Igreja na qual Atos é o primeiro livro. A subida de Jesus aos céus abre o palco da história para a Igreja ser navegante. Agora é a nossa vez, impulsionados por Cristo no poder do Espírito Santo.
Jesus subiu aos céus. Agora, é a vez da Igreja. E o texto que ouvimos de Atos 1.6-14 é revelador: o que o Senhor espera da sua Igreja? E o que o Senhor não espera da sua Igreja? Bem, convido a começarmos respondendo a segunda pergunta:
1 O QUE O SENHOR NÃO ESPERA DA SUA IGREJA?
a) a restauração de Israel: “Então, os que estavam reunidos lhe perguntaram: Senhor, será este o tempo em que restaures o reino a Israel?” (Atos 1.6). Jesus estava para subir aos céus, mas seus discípulos continuavam enraizados na terra. Mesmo após a Ressurreição, ainda não haviam compreendido a missão de Jesus. Não conseguem compreender a grandiosidade do Reino de Deus. Acreditam em um reino muito pequeno, terreno e com limites físicos – enquanto o Reino de Deus não conhece fronteiras geográficas. Ainda estão achando que poderão derrubar Roma e reerguer Israel como nos tempos do Rei Davi – mas Jesus não é o Rei Davi: Ele é o Rei dos reis e Senhor dos senhores. Claro, eles imaginam: “Se nem a morte pôde contra ele, quem dirá o exército romano? Ele será imbatível!” Além disso, os discípulos devem ter feito algumas contas: eram 12 tribos de Israel; eles eram 12 discípulos, tirando Judas que já havia morrido. Bem, bastava escolher mais um e pronto: eles mesmos seriam os restauradores do reino de Israel. Fico imaginando Jesus ouvindo esses pensamentos com sua onisciência... Enfim, eles ainda não receberam o Espírito Santo. Por isso seu entendimento do Reino de Deus ainda está bastante obscuro.
Mas há um fato importante aqui para os dias atuais. No mundo evangélico em geral se espalhou a ideia de que a restauração do Estado de Israel em 1948 seria um sinal de que o fim está próximo e de que Jesus estava para voltar. Ainda hoje há quem use o Estado de Israel como um “termômetro” para medir se Jesus está próximo de voltar ou não conforme esquentam ou esfriam as guerras do Oriente Médio e se Israel está próximo ou não de obter os mesmos territórios que possuía no tempo do Rei Davi. Então, a quem ainda pergunta se a restauração de Israel é um sinal de que o fim está próximo, segue a resposta dada pelo próprio Senhor Jesus: “Não vos compete conhecer tempos ou épocas que o Pai reservou pela sua exclusiva autoridade” (Atos 1.7). Portanto, o Senhor não espera que sua Igreja fique especulando sinais ou a restauração do território de Israel.
b) que os cristãos se tornem videntes: Repito a resposta de Jesus “Não vos compete conhecer tempos ou épocas que o Pai reservou pela sua exclusiva autoridade” (Atos 1.7). Deus não chamou a Igreja para ser um tipo de “vidente” que fica tentando prever o futuro através de sinais diversos que acontecem na terra. O Senhor não chamou os cristãos para ficarem especulando sobre os seus mistérios divinos. O Senhor não chamou a Igreja para aterrorizar pessoas com estas especulações que se tornam mais uma ameaça do que um convite amoroso ao abraço de Deus. O nosso chamado é outro. Logo vamos conhecê-lo. Antes, vamos à terceira coisa que Deus não espera da sua Igreja:
c) que os cristãos fiquem paralisados olhando o céu: “E estando eles com os olhos fitos nos céus, enquanto Jesus subia, eis que dois varões vestidos de branco se puseram ao lado deles e lhes disseram: Varões galileus, porque estais olhando para as alturas?” (Atos 1.10-11a). Se a primeira tentação era restaurar o reino de Israel, a segunda é ficar olhando para os céus. Jesus já havia dito que eles deviam ir a Jerusalém para receberem o Espírito Santo (cf. Atos 1.8). Contudo, eles não obedecem, mas ficam tão imobilizados que precisam surgir dois anjos para os colocarem em movimento.
O Senhor não chamou a Igreja para ficar parada olhando para os céus e ficar pensando: “Quando é que Jesus vai voltar? É hoje? É amanhã?” O Senhor não espera que sua Igreja fique paralisada olhando para os céus e esquecendo os problemas da terra! A História da Igreja precisa acontecer. Lembro: é nesse meio-tempo entre a subida e a volta de Jesus que a Igreja faz sua missão. Por isso, Deus não espera que sua Igreja fique parada, mas que esteja em movimento – pois movimento significa vida e vida em abundância (cf. João 10.10).
Então, chegou o momento de fazer a outra pergunta a esse texto bíblico:
2 O QUE O SENHOR ESPERA DA SUA IGREJA?
a) que ela dê testemunho: “Mas recebereis poder, ao descer sobre vós o Espírito Santo, e sereis minhas testemunhas” (Atos 1.8a). O Espírito Santo não transforma os cristãos em videntes que leem sinais na terra e adivinham quando acontecerá a volta de Jesus. O Espírito Santo não transforma os cristãos em videntes, mas em testemunhas. O futuro é aguardado com esperança; o passado é testemunhado com alegria. E o poder do Espírito Santo é aquele que firma os apóstolos no testemunho do Evangelho de modo aos seus ouvintes perseverarem na doutrina dos apóstolos (cf. Atos 2.42). Pelo poder do Espírito Santo, o Senhor espera que sua Igreja anuncie Jesus para a salvação: “que deseja que todos sejam salvos e cheguem ao pleno conhecimento da verdade. Porque há um só Deus e um só Mediador entre Deus e a humanidade, Cristo Jesus, homem, que deu a si mesmo em resgate por todos, testemunho que se deve dar em tempos oportunos” (1 Timóteo 2.4-6). Testemunho, no grego do Novo Testamento, é martiria, pois dar testemunho significa assumir a possibilidade do martírio pela mensagem pregada – como, de fato, aconteceu com todos os apóstolos, exceto João.
Portanto, não há nada que o Senhor espera da sua Igreja que seja maior que a importância do seu testemunho no mundo. A Igreja não apenas faz missão, mas é missão, pois a Missão de Deus está no seu DNA. E fazer missão significa ir e fazer novos discípulos (cf. Mateus 28.18-20), pregar o Evangelho (cf. 1 Coríntios 9.16), servir (cf. Marcos 10.45) e praticar a diaconia (cf. Mateus 25.31-46).
b) que ela planeje seu testemunho: “e sereis minhas testemunhas tanto em Jerusalém como em toda a Judeia e Samaria e até aos confins da terra” (Atos 1.8b). Sem alvo a vida não sai do lugar. Da mesma forma, sem alvo a Missão não sai do lugar. É preciso haver um objetivo. E planejar o testemunho é criar a estratégia para chegar ao objetivo.
Assim, o próprio Senhor Jesus deixou um planejamento missionário para os seus apóstolos. Eles não deveriam começar por todos os lados, mas seguirem um programa (até porque mais tarde Paulo entrará como colaborador desse planejamento). Eles devem começar em Jerusalém – onde receberão o Espírito Santo. Primeiro, eles deverão anunciar o Evangelho aos habitantes de Jerusalém – e isso aconteceu imediatamente após o Pentecostes com a pregação de Pedro (cf. Atos 2.14-41). Então, o Evangelho deverá ser anunciado na Judeia e Samaria que é a região – e isso aconteceu após o Martírio de Estêvão que espalhou os cristãos pelas regiões da Judeia e da Samaria (cf. Atos 8.1). Filipe pregou na Samaria (cf. Atos 8.4-8). Então, só mais tarde, o Evangelho chegou aos confins da terra – que, na narrativa bíblica, é a Espanha (cf. Romanos 15.24).
No mundo evangélico muitas vezes se propaga a falsa ideia de que quando o Espírito Santo age, não há planejamento. O texto que ouvimos afirma o contrário: o Senhor não apenas deseja que planejemos o nosso testemunho e a nossa missão, mas envia o Espírito Santo para capacitar os cristãos para planejar seu testemunho. A igreja que planeja a sua missão não é menos espiritual; o que é mais espiritual que seguir a Bíblia? Seguindo a Bíblia, descobrimos que o Senhor espera que a sua Igreja planeje o seu testemunho através de objetivos (alvos), estratégias (caminhos) e ações (projetos). Isso é fundamental para evitar o desperdício de energia e conseguir melhores resultados – conforme o Senhor agir por sua vontade (cf. 1 Coríntios 3.6-9).
c) que ela viva em comunhão e oração mesmo nas diferenças: “Quando ali entraram, subiram para o cenáculo onde se reuniam Pedro, João, Tiago, André, Filipe, Tomé, Bartolomeu, Mateus, Tiago, filho de Alfeu, Simão, o Zelote, e Judas, filho de Tiago. Todos estes perseveravam unânimes em oração, com as mulheres, com Maria, mãe de Jesus, e com os irmãos dele.” (Atos 1.13-14). A lista de nomes não deve deixar detalhes passarem desapercebidos. Os discípulos seguiam a Jesus; contudo, havia diferenças pessoais entre eles. Simão, por exemplo, é descrito como zelote. Isso significa que ele era politicamente alguém radicalmente contra Roma. É possível que Simão tenha sido um dos que formulou a pergunta em Atos 1.6.
Os apóstolos não eram unânimes em tudo – mas eram unânimes quanto ao Evangelho de Jesus. Possuíam clareza do significado do Evangelho: boa notícia de salvação ao mundo caído no pecado; boa notícia a ser espalhada em Jerusalém, Judeia e Samaria, e até aos confins da terra; encontro de Deus com o ser humano caído. Por isso, mesmo havendo outras diferenças, eles podiam perseverar unânimes em oração também com um grupo de mulheres – entre elas, Maria, a mãe de Jesus.
O Senhor espera que sua Igreja não seja dividida por diferenças pequenas, menores e insignificantes, mas que esteja unida em oração pela unanimidade do Evangelho de Cristo. O Senhor espera que sua Igreja faça da oração um testemunho ao mundo dividido e polarizado. O Senhor espera que sua Igreja dê o exemplo e faça diferença. O Senhor espera que sua Igreja não permita que nada estrague a sua comunhão.
Não há como fazer missão quando a Igreja está dividida, pois isto é um mal testemunho. Pode haver opiniões diversas sobre diversos assuntos, mas é preciso haver unanimidade na oração e em torno do significado do Evangelho de Jesus Cristo.
Amados irmãos, amadas irmãs,
o que o Senhor espera da sua Igreja hoje? Bem, já temos as respostas: que a Igreja dê testemunho, que a Igreja planeje seu testemunho, que a Igreja seja viva em comunhão e oração mesmo quando há diferenças interpessoais. E não há maior testemunho do amor de Cristo que uma Igreja unida que segue na mesma direção.
Por isso, quero concluir trazendo a nós dois remos. Através destes dois remos, quero lembrar as duas Metas Missionárias da IECLB de 2025 – 2030: Cada remo é uma das duas Metas Missionárias:
Meta Missionária 1: Fortalecer a vitalidade comunitária e o crescimento integral da Igreja.
Meta Missionária 2: Fortalecer a incidência do testemunho público da Igreja.
Com estas duas Metas Missionárias, a IECLB não apenas dá seu testemunho, mas também planeja seu testemunho e se fortalece na comunhão e na oração. São dois remos. Um voltado para o lado de dentro das Comunidades – a vida interna que faz crescer; o outro, voltado para o testemunho externo da Comunidade – buscando alcançar outras pessoas.
No barco, quando se rema apenas de um lado, o barco navega em círculos. Por isso, não podemos nem remar apenas de um lado ou outro. É preciso juntar os dois remos para o barco ir adiante. Creio que assim, remando com os dois remos – as duas Metas Missionárias – o barco da nossa Comunidade seguirá seu rumo na missão de Deus cativando mais pessoas para participarem do Reino de Deus.
Esse é o convite que Deus te faz hoje de manhã: vem remar com a gente. Não seja apenas espectador, mas se envolva, participe, dê seu nome. Não espere ser chamado. Voluntarie-se para servir no Reino. Venha participar. E que, pelo agir do Espírito Santo, nossa Comunidade siga sua missão no caminho certo – o Evangelho. Amém.