1 Crônicas 29.10-17
Culto de Ação de Graças
P. William Felipe Zacarias
Amados irmãos, amadas irmãs,
você domina o dinheiro? Ou é dominado pelo dinheiro?
“O dinheiro é um ótimo servo, mas um péssimo senhor”[1].
Davi, o grande rei de Israel, está no fim da sua vida. A velhice chegou e a idade pesa em suas costas. O rei ainda tinha um único desejo: construir o Templo de Jerusalém para ser o lar permanente da Arca da Aliança que continha os 10 Mandamentos. Antes, a Arca da Aliança estava no Tabernáculo – uma tenda improvisada. O rei Davi já tinha a planta do Templo em suas mãos. Contudo, Deus o proibiu de construí-lo, pois Davi tinha muito sangue em suas mãos. A tarefa ficará a encargo de seu filho e sucessor: Salomão.
Os livros das Crônicas contam as mesmas histórias dos livros dos Reis, mas, agora, de forma cronológica e ressaltando os pontos positivos da história de Israel. O capítulo 29 de 1 Crônicas é esse momento crucial da transição do poder onde pai passa o reinado ao seu filho: Davi passa o poder a Salomão. Davi não faz a transição com ressentimentos ou tristeza, mas em profunda reverência e louvor a Deus. E, como um último ato, convida o povo a ofertar com alegria para que Salomão possa construir o Templo de Jerusalém – o lar da Arca da Aliança e centro cúltico e espiritual do povo. É ali que serão realizados os sacrifícios e demais rituais de Israel. E a oração do final da vida de Davi revela o que o Senhor espera de nós – e de nossa oferta.
1 NOSSA OFERTA É LOUVOR A DEUS (v. 10-13)
Muitas vezes, temos o costume de associar a palavra louvor exclusivamente à música. Isso é um erro. O louvor compreende toda a nossa vida. Então, afinal de contas, o que é o louvor? Louvar significa adorar a Deus. É a resposta adequada da criatura ao Criador que reconhece a majestade de Deus. Davi faz isso em sua oração. Ele louva e adora a Deus por seus atributos: bendito, Deus de Israel (Jacó), Poderoso, Grandioso, Digno de Honra, Glória e Majestade, o dono de tudo. Por isso, quanto mais profundo é o nosso conhecimento de Deus, mais profunda será a nossa adoração; do contrário, quanto mais raso é o nosso conhecimento de Deus, mais rasa será a nossa adoração.
Peter Leihart, um teólogo norte-americano, escreveu:
É uma verdade fundamental da Escritura que nos tornamos semelhantes ao que ou a quem adoramos. Quando Israel adorava os deuses das nações, o povo se tornava como as nações – sanguinárias, opressivas, cheias de engano e violência (cf. Jeremias 7).
Ele escreveu também:
Nessa linha, o Salmo 115.4-8 lança uma brilhante luz sobre a história da antiga aliança e o significado do ministério de Jesus. Depois de descrever os ídolos como figuras que têm todos os órgãos dos sentidos, mas sem nenhum sentido real, o salmista escreve: “Tornem-se como eles aqueles que os fazem e todos os que neles confiam”. Ao adorar ídolos, os seres humanos se tornam mudos, cegos, surdos [como os ídolos que adoram].[2]
Nós nos tornamos aquilo que adoramos! Quando conhecemos a Deus e o adoramos, nos tornamos semelhantes à sua vontade. Quando adoramos ídolos, nos tornamos semelhantes à idolatria que cometemos. Como bem escreveu Fiódor Dostoiévski em Os Irmãos Karamázov: “Para o homem, uma vez livre, não há preocupação mais constante, mais dolorosa, do que encontrar, com a maior rigidez, alguém para adorar”[3]. O reformador suíço João Calvino dizia que “o coração do ser humano é uma fábrica de ídolos”.
Assim, o louvor está ligado à adoração – que não pode ser reduzido à música. A nossa vida diária é louvor a Deus. Para além do culto na igreja, em nossa vida vivemos o culto do dia a dia. Nos tornamos parecidos com o que adoramos: se for um jogador de futebol, passamos a adotar comportamentos, linguagens, estilos de corte de cabelo e tatuagens; se for um político, passamos a adotar seu comportamento, linguagem e até desligamos a crítica quando diz ou faz coisas absurdas; assim também se for um artista, uma instituição, um objeto...
E é aqui que entra o dinheiro! Nossa vida inteira é chamada a ser louvor a Deus. E isso precisa envolver o nosso bolso. A maneira como lidamos com o dinheiro revela o que está no centro da nossa adoração. A forma como lidamos com o dinheiro é parte do nosso culto a Deus no dia a dia. E o tanto que depositamos em ofertas revela se o Reino de Deus é uma prioridade ou algo secundário em nossas vidas.
Na nossa espiritualidade, não basta perguntar quanto tempo é investido na oração e onde servimos na Igreja de Jesus com nossos dons. É preciso perguntar também: para onde vai o nosso dinheiro? Adoramos a Deus com o nosso dinheiro? Louvamos ao Senhor com os bens que conseguimos? Ou temos dinheiro para tudo, menos para o Reino de Deus – que deveria ser a prioridade de toda pessoa cristã?!
No fim da sua vida, Davi entendeu que não é dono de nada! “Um dia um jovem disse a um pastor que queria morrer como seu avô: rico e milionário. Então, com muito amor, o pastor olhou para o jovem e disse: seu avô era milionário: no momento em que ele morreu, ele perdeu tudo! Mas ele tinha Cristo? Decida morrer em Cristo!”
Portanto, além da música, da oração e dos dons e talentos, louvamos a Deus através das nossas ofertas. Jesus disse: “Onde está o teu tesouro, aí estará também o teu coração” (Mateus 6.21). Onde está o teu coração? Você louva a Deus com seu dinheiro?
2 NOSSA OFERTA É GRAÇA DE DEUS (v. 14-16)
Outro aspecto importante da profunda oração de Davi é o reconhecimento de que a oferta que damos é fruto da graça de Deus. Davi orou: “Porque quem sou eu, e quem é o meu povo para que pudéssemos dar voluntariamente estas coisas? Pois tudo vem de ti, e nós somente devolvemos o que já era teu” (1 Crônicas 29.14NTLH). O que Davi está dizendo em sua oração? Nós podemos ofertar porque de ti recebemos. Se não fosse a graça de Deus de nos abençoar com vida, dinheiro e bens, não teríamos ofertas para oferecer a Deus.
Por isso, as nossas ofertas são frutos da graça de Deus. Nós temos o costume de pensar que fomos nós quem conseguimos sozinhos tudo o que possuímos. “Foi nossa obra. Foi nosso esforço. Foi nossa capacidade.” Olhemos o que diz a Palavra de Deus: “Portanto, não pensem que foi com a sua própria força e com o seu trabalho que vocês obtiveram todas essas riquezas. Lembrem do Senhor , nosso Deus, pois é ele quem lhes dá força para poderem conseguir riquezas” (Deuteronômio 8.17-18).
Muitas vezes apenas nos damos conta dessa verdade quando enfrentamos um problema de saúde ou quando, como Davi, sabemos que a vida está chegando ao fim. Esses são aqueles momentos cruciais onde muitas coisas são reavaliadas. Sim, você tem muitas coisas. Contudo, se não houvesse vida e saúde para isso, como você teria conseguido? Como seus antepassados teriam conseguido? Tudo o que temos é fruto da graça de Deus. Não apenas isso: tudo é de Deus. Tudo a ele pertence. A nós cabe administrar com sabedoria tudo o que Deus nos concedeu por sua graça.
Ao ofertarmos, não estamos apenas entregando parte dos nossos recursos a Deus: estamos devolvendo o que já é dele! E deixar de entregar o que já é do Senhor é tratado na Bíblia como roubo: “Será que alguém pode roubar a Deus? Mas vocês estão me roubando e ainda perguntam: “Em que te roubamos?” Nos dízimos e nas ofertas. Com maldição vocês são amaldiçoados, porque estão me roubando, vocês, a nação toda. Tragam todos os dízimos à casa do Tesouro, para que haja mantimento na minha casa” (Malaquias 3.8-10). O egoísmo mata a solidariedade. Deus quer generosidade!
Martinho Lutero fala dessa graça quando interpreta a frase “o pão nosso de cada dia nos dá hoje” da oração do Pai nosso:
O que significa pão de cada dia? Tudo que se refere ao sustento e às necessidades da vida, como por exemplo: comida, bebida, roupa, calçado, casa, lar, meio de vida, dinheiro e bens, marido e esposa íntegros, filhos íntegros, empregados íntegros, patrões íntegros e fiéis, bom governo, bom tempo, saúde, disciplina, honra, amigos leais, bons vizinhos e coisas semelhantes.[4]
Tudo isso e muito mais Deus nos concede por sua infinita graça. Qual vai ser o tamanho da nossa gratidão? Por isso, vamos ao terceiro e último ponto:
3 NOSSA OFERTA É VOLUNTÁRIA A DEUS (v. 17)
Por fim, a oração de Davi fala sobre a oferta voluntária dada sinceramente ao Senhor. O que agrada ao Senhor não é a oferta dada por obrigação, como um peso terrível... Deus quer que a oferta seja sincera. Deus quer que a oferta seja verdadeira. Deus quer que a oferta seja para o seu louvor. Deus quer que a oferta seja para a edificação do seu Reino. Por isso, o apóstolo Paulo escreveu: “Cada um contribua segundo tiver proposto no coração, não com tristeza ou por necessidade, porque Deus ama quem dá com alegria” (2 Coríntios 9.7).
Gastamos o dinheiro em muitas coisas – com alegria. Momentos felizes, bens para a casa, consumo, assinaturas... Mas, quando é para a Igreja, aí parece que é o “fim do mundo”. A oferta se torna um peso. Deixa de ser voluntária, generosa e sincera para ser um fardo pesado. Talvez porque o dinheiro ainda é um ídolo em nossas vidas, adorado e exaltado nos altares do consumo!
A oferta que agrada a Deus é a oferta alegre, voluntária e sincera. Essa oferta não ajuda apenas a Comunidade a manter estruturas, mas a pregar o Evangelho e fazer missão! Não se trata apenas de coisas visíveis, mas também espirituais – pois os pertences da Comunidade não são um fim em si mesmos, mas devem servir à pregação do Evangelho – a obra mais espiritual que existe! A oferta alegre, voluntária e sincera contribui e mantém a missão de Deus viva.
É como devolver um prato. Suponha que você está em uma festa de aniversário. Sobrou bastante bolo e, na saída, o aniversariante oferece um pedaço do bolo em um prato para você levar para casa. Então, ele faz um único pedido: depois você traz o prato de volta.[5] Assim é a oferta alegre, voluntária e sincera: nós ficamos com o bolo (que são todas as bênçãos da vida e o pão nosso de cada dia). Deus pede apenas o prato de volta para que a sua missão no mundo continue.
Amados irmãos, amadas irmãs,
hoje é o Culto de Ação de Graças. Hoje é o dia de devolver o prato com alegria. Hoje também é dia de louvar a Deus com nossas ofertas, reconhecer que o Senhor tem sido gracioso para conosco e fazer isso de forma sincera e voluntária. Espiritualidade também envolve o bolso. E a generosidade é uma grande virtude cristã.
Davi estava no contexto da construção do Templo. Nosso Templo já está construído e foi muito bem cuidado até aqui. Está nas nossas mãos “devolver o prato” e mantê-lo para a glória de Deus, pregação do Evangelho e administração dos Sacramentos. Os antigos nos deixaram muitas coisas: esse Templo Três Reis Magos, nosso Salão, terrenos, fundos... Desfrutamos dessas bênçãos pela graça de Deus. A pergunta é: o que a nossa geração deixará para os que ainda virão? “Ah, pastor. Mas a Comunidade é rica e tem recursos”. Pela graça de Deus que tocou os antepassados. E nós, nos deixamos ser tocados pela graça de Deus? Nossa oferta não é uma troca com Deus, mas gratidão por tudo o que já recebemos. Faça hoje sua oferta pensando nisso. Oferte com alegria. Agradeça ao Senhor por tudo o que você já recebeu. E que o dinheiro seja um bom servo seu, pois ele é um péssimo senhor. Amém.
[1] DOUGLAS, Claus. Celebrando o amor de Deus: o despertar para um novo culto. Curitiba: Esperança, 2000. p. 224. Grifo meu.
[2] LEIHART, Peter. Transforming Worship. apud: CARSON, D. A. Louvor: análise teológica e prática. Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2017. p. 31.
[3] DOSTOIÉVSKI, Fiódor. Os Irmãos Karamázov. São Paulo: Martin Claret, 2019. p. 288.
[4] LUTERO, Martim. Catecismo Menor. 2. ed. São Leopoldo: Sinodal, 2024. p. 14.
[5] Cf. DOUGLAS, 2000. p. 226.