Mateus 9.9-13, 18-26
2º Domingo após Pentecostes
P. William Felipe Zacarias
Amados irmãos, amadas irmãs,
Onde a sua vida dói? Onde você precisa de cura? Onde pessoas que você ama precisam de cura? Qual cura você procura? Tenho algo importante pra te dizer: Jesus é o médico dos pecadores, enfermos e mortos.
O Senhor Jesus estava fazendo grandes sinais. Ele acalmou uma tempestade (cf. Mateus 8.23-27), expulsou demônios (cf. Mateus 8.28-34) e curou um paralítico (cf. Mateus 9.1-8). Uau! Quantos sinais! Quantas obras! Quantas ações! Impressionante! E então, após fazer tantos sinais, Jesus vê um homem sentado na coletoria. Seu nome é Mateus, o cobrador de impostos – alguém odiado pelas pessoas da época. Jesus não o acusa. Jesus não o rejeita. Jesus não o descarta. Jesus o chama – porque a misericórdia é a marca do seu ministério. Jesus diz a Mateus: Segue-me! E algo se move no interior de Mateus de tal maneira que ele não discute, pensa ou espera, mas se levantou e o seguiu. Essa é a maneira especial de Jesus em seu jeito de conversar com cada pessoa. Ele chamou, Mateus ouviu e seguiu.
Mateus então passa a caminhar com Jesus lado a lado, juntamente com os outros discípulos. Esse Mateus é o mesmo que escreveu as palavras que estamos lendo! Se antes ele escreveu a partir do que ouviu de outros, agora ele escreve a partir do encontro que teve com Jesus. Se antes os ensinamentos sobre Jesus foram recebidos de terceiros, agora Mateus escreve a partir dos seus próprios olhos e ouvidos. Daqui em diante, ele testemunha não da experiência de outros, mas da sua própria caminhada com o Senhor Jesus – e isso é revelador. Logo de início, é assim que Mateus fala de Jesus:
1 JESUS, O MÉDICO DOS PECADORES (v. 10-13)
Jesus sentou-se à mesa. E então, diferentes pessoas começaram a tomar lugar à mesa com Jesus e seus discípulos. Perceba: não foi Jesus quem os chamou, mas foram eles que se aproximaram. Já conheciam Jesus. Já experimentaram a compaixão de Jesus. Já sabiam que na mesa de Jesus eles tinham lugar. Porque sim: na mesa de Jesus os pecadores têm lugar.
Nem todos gostaram disso! Quem age em público sempre corre o risco de se tornar o alvo do dedo apontado que critica. E os fariseus não demoraram a criticar: “Por que come o vosso Mestre com publicanos e pecadores?” (Mateus 9.11b). Claro, os fariseus se vestiam com as vestes da justiça, da santidade... Queriam ser vistos e reconhecidos publicamente por sua piedade exterior... Quando, o que lhes faltava era a piedade interior. São sepulcros caiados! Vivem de aparências! Seus corações são duros como pedras!
Jesus sabe disso! Ele não vê apenas as aparências, mas o que está do lado de dentro. Por isso, diz aos fariseus: “Os sãos não precisam de médico, e sim os doentes” (Mateus 9.12). E, como os fariseus diziam conhecer as Escrituras, Jesus lhes cita uma passagem de Oséias 6.6: “Misericórdia quero e não sacrifícios” (Mateus 9.13a). Ou seja: o Senhor se agrada mais da misericórdia que do cumprimento de regras vazias que colocam a lei como prioridade e o ser humano e seus sofrimentos como algo secundário. “Pois não vim chamar justos, e sim pecadores ao arrependimento” (Mateus 9.13b).
A primeira boa-notícia anunciada por Mateus é que nós temos um lugar à mesa com Jesus. Somos bem-vindos. Não seremos rejeitados. Jesus é o médico dos pecadores. Por isso, é preciso reconhecer-se como pessoa pecadora! Quem é justo, não precisa de Jesus. Quem é falho e comete pecados, tem lugar na mesa da transformação onde sua misericórdia justifica a pessoa pecadora por graça para que viva uma nova vida. Esta mesa é a Ceia do Senhor que não é um “banquete dos justos”, mas graça oferecida a quem reconhece que nem sempre faz a vontade do Senhor. Você pode dizer a si mesmo: eu tenho um lugar na mesa com Jesus, apesar dos meus pecados.
2 JESUS, O MÉDICO DOS ENFERMOS (v. 20-22)
Então, após Jesus falar sobre o jejum (cf. Mateus 9.14-17), chegou a ele um chefe. Mateus, que viu a cena, diz que antes de tudo aquele chefe adorou a Jesus. Este homem se colocou de forma humilde diante do Senhor e reconheceu quem é Jesus. Então ele faz um pedido: sua filha acabara de falecer, mas ele crê que Jesus poderá trazê-la à vida novamente.
Jesus toma seus discípulos e se dirige à casa daquele chefe. Contudo, aconteceu um imprevisto no caminho. É como naqueles casos em que você vai fazer uma consulta e retira uma senha e, de repente, outra pessoa tem uma senha prioritária e passa na sua frente. Jesus está indo atender o pedido daquele chefe, mas no meio do caminho uma mulher que sofria doze anos com sangramentos tocou com fé na veste de Jesus.
Pelas leis da época, a mulher com sangramentos estava impedida de frequentar o templo. Ou seja, aquela mulher estava privada de vivenciar os rituais da sua espiritualidade. Não era um sofrimento apenas físico, mas espiritual – um anseio de poder estar novamente na Casa de Deus. Talvez ela já tivesse tentado de tudo – esgotado os recursos. Mas ao ver Jesus ela percebeu a sua chance. Ela crê em Jesus. E, em meio à multidão, ela conseguiu: ela tocou em Jesus!
Jesus sentiu o toque daquela mulher. Ele faz uma pausa na sua caminhada. Ele se vira a ela e a vê. Jesus não é indiferente, mas diferente. “Misericórdia quero”. E, talvez com um sorriso, diz àquela mulher: “Tem bom ânimo, filha, a tua fé te salvou. E, desde aquele instante, a mulher ficou curada” (Mateus 9.22).
Jesus não é indiferente aos nossos sofrimentos e às nossas doenças. Ele sente. Ele vê. Ele fala. Ele conhece os nossos sofrimentos mais humanos. Jesus não faz de conta que não viu, não sabe, não notou. Ele vê! Ele sabe! Ele nota! Ele age! E aqui, sendo ele o Deus-homem, o Senhor nos dá uma grande lição de humanidade: é preciso ver o sofrimento, é preciso saber dos sofrimentos, é preciso agir nos sofrimentos do próximo. Como escreveu Carl Jung: “Conheça todas as teorias, domine todas as técnicas, mas ao tocar uma alma humana, seja apenas outra alma humana”.
3 JESUS, O MÉDICO DOS MORTOS (v. 18-19, 23-26)
Na medicina humana, a morte significa um limite! Até ali, pode-se medicar, tratar, cuidar... Já diante da morte, a medicina humana nada pode fazer para trazer de volta à vida. Mas onde as mãos humanas não alcançam, as mãos de Deus alcançam.
Agora sim, o chefe será atendido. Mateus, que viu tudo, diz que Jesus chegou à sua casa. Os tocadores de flauta já estavam a postos. Eles eram pranteadores profissionais que eram contratados especificamente para funerais. Ali estavam para que o serviço fosse contratado imediatamente. Na dor do luto de um pai, os tocadores de flauta estavam ali para “ganharem alguma coisa” com o sofrimento alheio.
Por isso, sem nenhuma enrolação, Jesus os manda embora. E quando Jesus diz que a menina estava dormindo, essa multidão ali presente dá risadas. Jesus as escuta, mas não se deixa intimidar: “Mas, afastado o povo, entrou Jesus, tomou a menina pela mão, e ela se levantou” (Mateus 9.25). Porque diante do Senhor da vida até a morte perde o seu poder! O pedido daquele chefe é atendido. Após adorar a Jesus, ele pediu claramente: “Vem, impõe a mão sobre ela, e viverá” (Mateus 9.18b). E ela viveu! Jesus agiu com misericórdia. Pai e filha experimentaram a misericórdia de Jesus. E os tocadores de flauta? Perderam o que buscavam: o dinheiro.
Amados irmãos, amadas irmãs,
Jesus é o médico dos pecadores, enfermos e mortos. Ele age com misericórdia, não com sacrifícios. Jesus é misericordioso.
Qual cura você procura? Qual cura você tem buscado? Mas, antes de tudo, o que significa cura? Nem sempre a cura que queremos é aquela que precisamos! E, talvez, aceitar isso é a primeira cura necessária.
No Ministério Pastoral, experimentei isso algumas vezes. Já visitei pessoas acamadas em um leito de hospital que não conseguiam partir para o descanso no Senhor. E, também ali, algumas vezes, percebi que a cura necessária não era a eliminação da doença, mas o perdão de algum familiar, a paz com Deus ou ser perdoado por alguém. E, nestes casos, aconteceu algumas vezes de algumas horas após a cura pelo perdão, as pessoas conseguiram descansar em paz. Eu não ousaria dizer que não foram curadas!
Precisamos ressignificar a palavra cura! O que é cura? É uma pessoa estar sempre bem e com saúde? Isso é uma ilusão. Nós sabemos que não vamos ficar aqui para sempre. Deus faz curas; mas Deus continua sendo Deus quando a cura não vem da maneira como queremos. Acima de tudo precisamos lembrar da misericórdia de Jesus. Ele é misericordioso. Não é um Deus indiferente ao sofrimento humano, mas que sofreu na cruz e, por isso, sabe o que é sofrer! O Deus que nós cremos conheceu pessoalmente o sofrimento humano ao morrer na cruz!
Por isso, é preciso trocar a cura que queremos pela cura que precisamos. Qual cura você quer? E qual cura você precisa? Podem acontecer duas coisas: uma delas é que a cura que você precisa poderá conduzir você à cura que você quer; a outra é que a cura que você precisa será tão importante que a cura que você quer se tornará muito menor e irrelevante.
Talvez, a cura que você quer é que a doença seja eliminada, mas a cura que Deus quer é você descubra no sofrimento que a sua graça é o que te basta, pois o poder se aperfeiçoa na fraqueza (cf. 2 Coríntios 12.9). Talvez, a cura que você quer é que sua família seja bem-vista pelas outras pessoas, enquanto a cura que Deus quer é que sua família descubra diariamente o verdadeiro valor do perdão. Talvez, a cura que você quer é ganhar muito dinheiro pra ser bem-sucedido e ter muitas coisas, enquanto a cura que Deus quer para você é que você aprenda a administrar com sabedoria os recursos que você já tem e aprenda que ter tudo é ter muito pouco.
Seja qual for a cura que você procura, lembre-se: a misericórdia de Cristo está com você. E na procura da cura, comece a se perguntar: isso que eu quero é o que Deus quer? E ore como ensinou Jesus: “Seja feita a tua vontade assim na terra como no céu”. Amém.