Mateus 13.24-30, 36-43
8º Domingo após Pentecostes
P. William Felipe Zacarias
Amados irmãos, amadas irmãs,
Se você não é a pessoa mais pecadora que você conhece, você não entendeu o Evangelho! E pensar, entender e aceitar isso é difícil, mas é o único caminho possível para vivenciar aquilo que a Palavra de Deus chama de graça de Deus.
A questão é que a nossa cultura tornou a graça incompreensível. Não entendemos e nem vivemos a graça de Deus porque somos culturalmente condicionados a viver para agradar os outros. No dia a dia, dizemos frases como: “Nesta vida, nada é de graça”, “cada um acaba ganhando o que merece”, “quer dinheiro? Vá trabalhar”, “quer amor? Faça por merecer”, “quer misericórdia? Mostre que é digno dela”, “faça aos outros antes que lhe façam”, “aqui se faz, aqui se paga”, etc. A grande verdade é que não sabemos viver pela graça. Sabemos viver impondo ou recebendo condições, mas não pela graça ensinada por Jesus.
A palavra graça se tornou banal e desgastada. Ela já não mexe conosco como mexia com os primeiros cristãos. A graça tem se tornado uma desgraça. Com isso, tanto o mundo como a fé perderam a graça. Somos cristãos, mas agimos como se Deus não existisse; somos cristãos, mas só damos atenção a quem achamos que merece. Os relacionamentos baseiam-se em interesses. Quando o outro não tem mais nada a oferecer, é descartado da vida; o trabalho baseia-se em ganhar dinheiro e não em ser feliz servindo a Deus por meio do próximo;
O trabalho, as amizades, os relacionamentos amorosos, tudo se baseia simplesmente em um utilitarismo no qual EU consumo o outro até não ter mais nada a oferecer. É assim que muitos relacionamentos terminam. No utilitarismo, o outro não é um sujeito, mas um objeto que uso como eu quero. No utilitarismo, o outro não é um fim em si mesmo, mas um meio que uso para atingir meus objetivos pessoais. Em uma cultura assim, não há como entender e muito menos viver a graça de Deus.
Mas, como a parábola contada e explicada por Jesus pode nos levar a compreender a graça de Deus? Antes que desesperemos, trago três pontos desta parábola que nos mostram claramente como viver a graça de Deus em um mundo desgraçado e sem graça. Estes pontos se aplicam principalmente na vivência na igreja, mas também fora dela. Nesta noite, Deus quer nos desafiar a vermos quem somos e quem ele é!
1 A GRAÇA NOS IMPEDE DE DIFERENCIAR O JOIO E O TRIGO
Um homem entrou no escritório do médico e disse: — Doutor, tenho uma terrível dor de cabeça que nunca vai embora. O senhor poderia me receitar alguma coisa para ela? — Sim — disse o médico, — mas quero checar algumas coisas antes. Diga, você bebe muita bebida alcoólica? — Álcool? — disse o homem, indignado. — Nunca chego perto dessa porcaria. — Fuma, então? — Acho cigarro nojento. Nunca na minha vida provei um. — Diga-me uma coisa — pediu o médico. — Essa sua dor de cabeça é de um tipo agudo e penetrante? — Isso mesmo — disse-lhe: uma dor aguda e penetrante. — Então é simples, meu caro. Seu problema é que a sua auréola está apertada demais. Só precisamos soltá-la um pouquinho.[1]
Esta história tem ligação com a parábola que ouvimos Jesus nos contar. A constatação básica é que há joio no meio do trigo. Em meio aos fiéis, há os infiéis; em meio aos cristãos, há os não cristãos; em meio aos santos, há impuros.
Quando o trigo e o joio são pequenos, é quase impossível diferenciar o que é trigo e o que é joio. Não há muito bem como discernir a diferença, ainda mais em uma época em que a agronomia não era tão avançada. O joio não é trigo, mas ele se parece com o trigo. É difícil diferenciar uma da outra. Inclusive, até no crescimento o joio é igual ao trigo. Ambas as plantas crescem da mesma forma. Contudo, no amadurecimento, quando as plantas começam a dar frutos, é que a diferença aparece: à medida que amadurece, o trigo produz grãos grandes, densos e repletos de nutrientes. Esse volume faz a espiga ficar pesada. Assim, o trigo fica curvado para baixo. E tem o detalhe: o trigo doméstico não lança suas sementes ao chão, mas segura os grãos firmemente na espiga, “aguardando” pela colheita humana. O trigo se curva e se doa. O joio, por outro lado, produz sementes muito menores, leves e sem valor nutricional (que, muitas vezes, podem estar infectadas por fungos tóxicos para o consumo). Sem o peso, a haste do joio permanece de pé, apontando para cima. Como ele fica de pé, o vento espalha as suas sementes e ele se multiplica rapidamente.
Pastor, então como diferenciar o trigo do joio? Como saber quem é cristão de fato e quem não é? Bem, não é disto que o Evangelho está tratando. Não é nossa tarefa fazer essa diferenciação. Basta-os saber que há joio no meio do trigo.
Quando começamos a fazer diferenciação entre os irmãos e irmãs, não estamos vivendo a graça de Deus. Do contrário, estamos nos transformando no próprio Deus, assumindo o seu lugar e julgando o que só ele é capaz de julgar. Quando achamos que temos uma auréola na cabeça, começamos a fazer diferenciação entre as pessoas.
Entretanto, não é disso que a Parábola está tratando. O Evangelho não é para superespirituais. Não é para destemidos que nunca derramam lágrimas. Não é para aqueles que se acham melhores e querem controlar a vida de todos. O Evangelho é para pecadores, derrotados e desgraçados. O Evangelho não é para quem acha que tem uma auréola na cabeça. O evangelho não é para os orgulhosos. O evangelho é para quem se reconhece como pecador.
Ao nos reconhecermos como todos falhos, saberemos que não temos mérito nenhum para fazer qualquer diferenciação, apontando quem é trigo e quem é joio. Viver a graça em comunidade é viver em honestidade: nunca sou bom o suficiente, então os outros também não são. Viver a graça significa ser honesto consigo e com os outros sabendo que o preciso do amor de Deus tanto quanto meu irmão e irmã.
A graça de Deus é libertadora. Ela nos liberta da tarefa de julgarmos aos outros, sermos melhores que os outros ou querer agradar os outros. Pela graça, sabemos que há joio no meio do trigo; pela mesma graça, sabemos que a tarefa de diferenciar não é nossa. Não precisamos ter esse peso nas nossas costas.
2 A GRAÇA NOS IMPEDE DE ARRANCAR O JOIO DO MEIO DO TRIGO
Conta a história que um pecador notório foi excluído e proibido de entrar na igreja. Ele levou as suas dores a Deus: — Eles não me deixam entrar, Senhor, porque sou um pecador. — Do que é que você está reclamando? — Deus perguntou. — Eles também não me deixam entrar.[2]
Ao saber que há joio no meio do trigo, a reação dos servos na parábola foi bem imediata: “O Senhor quer que a gente vá e arranque o joio?” (Mateus 13.28). Nossa primeira intuição é que podemos fazer algo. “Se ficar só o trigo na igreja, que igreja teremos.” Caímos na ilusão que a igreja é a comunhão dos perfeitos. Caímos na tentação de arrancar para fora aqueles que achamos que não se encaixam no nosso evangelho.
Entretanto, como já dito no primeiro ponto, o trigo e o joio são muito parecidos. Como nós, humanos, poderemos saber qual deve ser arrancado e qual deve ser deixado? Por isso, a resposta evangélica do agricultor é muito sábia: “Não! Porque, ao separar o joio, vocês poderão arrancar também com ele o trigo.” (Mateus 13.29).
Como não sabemos diferenciar um do outro, não é nossa responsabilidade separar um do outro. Se o tentarmos fazer, corremos o grande risco de dividir a igreja de Jesus, arrancando o trigo junto com o joio. Não é nosso dever determinar quem pode participar e quem não pode participar. Nossa tarefa é simplesmente acolher, seja quem for.
O Evangelho da graça não exclui, mas inclui. O Evangelho da graça não rejeita, mas aceita. O Evangelho da graça não é indiferente, mas ama. A grande verdade é que distorcemos completamente o ensino de Jesus e inclusive usamos as suas palavras como armas contra os outros, ameaçando-os com o fogo do inferno. O Evangelho veio para causar medo? É para isso que Deus nos deu a sua graça? Para arrancarmos o joio do trigo?
Não é nossa tarefa arrancar o joio do meio do trigo. Isso também é liberdade. É um peso que sai das nossas costas, pois isso não é nossa responsabilidade. Ao fazermos, não apenas negamos a graça de Deus, mas colocamos em nossos ombros um peso que não podemos suportar, pois essa tarefa é divina, não humana.
O pastor Brennan Manning diz: “Não há maiores pecadores do que os supostos cristãos que desfiguram a face de Deus, mutilam o evangelho da graça e intimidam os outros por meio do medo. Eles corrompem a natureza essencial do cristianismo”[3].
3 A GRAÇA NOS IMPEDE DE ACHARMOS QUE SOMOS TRIGO
Amados irmãos e irmãs, mas será que de fato algum de nós merece a graça de Deus? Dada a nossa miséria, desgraça e pecaminosidade, podemos achar que somos trigos e que outros são joio?
A grande verdade é que todos nós somos a “raça indefesa de Adão”[4]. Não há nada em nós que possa mostrar que somos trigo. Esta é a hora da verdade: você e eu não podemos diferenciar o joio do trigo e nem arrancar o joio do meio do trigo porque todos somos joio! Não há nada em nós mesmos que possa agradar a Deus.
Davi orou no Salmo 51.5: “Eu nasci na iniquidade, e em pecado me concebeu minha mãe.” Paulo declara em Romanos 3.23: “pois todos pecaram e carecem da glória de Deus.” Está escrito em 1 João 1.8: “Se dissermos que não temos pecado nenhum, a nós mesmos nos enganamos e a verdade não está em nós.” Ninguém é inocente. Ninguém é trigo. Somos todos herdeiros da raça de Adão e Eva. Somos todos malditos pecadores desgraçados.
E agora? O que acontece? Estou completamente perdido? Pastor, o que eu posso fazer? Nada! Não faça nada!
Agora queremos compreender por que o Evangelho é uma boa notícia: Jesus te aceita! Ponto! Isso é graça! Não importa o que você fez. Não importa o que você fará! Ele te aceita incondicionalmente. E quanto mais eu compreender a graça de Deus, mais vou querer viver pela graça de Deus e longe do mundo onde não há graça, mas desgraça. Ele te aceita! Quanto mais crescermos na graça, mais pobre nos tornamos – e mais percebemos que tudo nesta vida é um presente.
O que é graça? Graça é o que aconteceu na cruz onde um ladrão recebe a melhor notícia da sua (e das nossas vidas): Ainda hoje estarás comigo no paraíso. O que aquele ladrão fez para merecer a vida eterna? Nada! Mas Jesus o aceitou!
Por que nós não aceitamos as pessoas que Jesus aceita? Graça é o que aconteceu com o ladrão pendurado na cruz. Graça é o que acontece se hoje compreendermos que não há maior pecador que nós mesmos e, mesmo assim, pela cruz, Deus nos aceita! Graça é o que acontece quando entendemos que deveríamos ser arrancados e jogados no fogo porque é isso que merecemos, mas que Deus, ao contrário, nos salvou do fogo em Cristo Jesus.
Nesta manhã, a graça de Deus quer te tornar livre! Livre de diferenciar quem é bom ou mal, livre de arrancar quem é bom ou mal, livre da pressão de querer agradar a Deus para conseguir a salvação. Livre!
A graça nos dá liberdade! Eu sou o maior pecador que eu conheço; por isso, sou a pessoa mais amada por Jesus que eu conheço. E ele me aceita. Ele me transforma. Ele me dá uma nova vida através da graça!
Amados irmãs, amadas irmãs,
Se você não é a pessoa mais pecadora que você conhece, você não entendeu o Evangelho! E o pecado do outro só parece maior porque ninguém conhece o seu!
A Banda Irlandesa U2 possui uma música cujo nome é “Grace”. A letra, traduzida para o português, diz assim:
Graça, ela assume a culpa,
ela cobre a vergonha,
remove a mancha,
poderia ser o nome dela;
O que antes era dor,
o que antes era atrito,
o que deixava uma marca
não fere mais
porque Graça cria a beleza
a partir das coisas feias.
Graça cria a beleza a partir das coisas feias![5]
Antes de julgar que outros parecem joio, devemos reconhecer que nem sempre somos trigo. E que a graça de Deus cubra o pecado, retire a vergonha e crie a beleza a partir das coisas feias.
Amém.
[1] MELLO, Anthony de. Taking flight: a book of story meditations. Nova York: Doubleday, 1988, p. 114-115.
[2] MANNING, Brennan. O Evangelho Maltrapilho. Edição do Kindle. São Paulo: Mundo Cristão, 2013. p. 23.
[3] MANNING, 2013. p. 180.
[4] Frase de Nikolaus Ludwig von Zinzendorf.
[5] BONO. Grace. In: U2. All That You Can't Leave Behind. Londres: Island, p2000. 1 CD. Faixa 11.