Outros recursos:
Mas bah, prendas e peões, acheguem-se pra esta prosa!
Aqui pelos pagos do Sul, o chimarrão é companheiro de muita jornada. Vai junto na lida, se acomoda na varanda, recebe as visitas e acompanha o vivente quando o dia mal começou a clarear. Basta alguém ajeitar a erva e aquentar a água que já aparece outro puxando uma cadeira. E, quando a gente vê, a prosa criou raiz!
O mate é amargo, mas a companhia que vem com ele costuma adoçar a vida. Tem gente que capricha na escolha da erva, cuida da cuia e conhece o ponto da água como conhece o caminho de casa. Tudo isso tem seu valor. Mas hoje quero prosear sobre outros temperos que deixam o chimarrão ainda mais bueno.
Antes que algum gaudério fique de orelha em pé: sossega, tchê! Não vou mandar botar açúcar no teu mate. Vamos falar de cinco temperos que fazem bem ao coração e nos ajudam a viver a fé no meio da lida. Estes temperos vão te deixar mais feliz que guri de bombacha nova. Te aprochega pra ouvir:
5 DESCANSO: afrouxa as rédeas, vivente!
O primeiro tempero desta nossa prosa é o descanso. A vida anda numa correria de levantar poeira. Mal o vivente abre os olhos, já tem serviço esperando, compromisso chamando e telefone dando sinal. Quando percebe, passou o dia inteiro atucanado e chegou à noite mais esgualepado que poncho velho. E o pior é que, mesmo quando o corpo se aquieta, a cabeça continua galopando!
É aí que o chimarrão nos convida a encostar um pouco. A gente se abanca, firma a cuia na mão e descobre que pode respirar sem estar sempre correndo atrás de alguma coisa. Há tempo pra escutar, pensar, prosear, fazer uma oração e prestar atenção em quem está do nosso lado. Mate tomado às disparadas perde boa parte da graça. O vivente mal sente o gosto, não acompanha a conversa e ainda pode se queimar com a água quente. Barbaridade! Era pra descansar e acaba arrumando mais um entrevero.
Chimarrão bom pede tempo. E todo gaúcho precisa dele. Em Mateus 11.28, Jesus chama para junto de si os cansados e esgualepados e lhes promete alívio. Esse convite é pra nós, gente que tantas vezes chega ao fim do dia mais cansados que peão que troteou no cavalo o dia inteiro.
O Divino Tropeiro conhece o cansaço da nossa caminhada. Diante dele, não precisamos fazer pose de bagual que aguenta tudo. Podemos confessar que estamos sem forças e entregar ao seu cuidado aquilo que já não damos conta de carregar. Descansar também é confiar no Patrão Celeste. É reconhecer que o mundo continua nas mãos dele quando nós paramos um pouco. Afinal, tchê, foi Deus quem criou o céu e a terra; não fomos nós. Podemos largar essa mania de querer sustentar tudo no braço!
Então, aquieta o coração. Toma teu mate despacito. Escuta uma boa prosa, conversa com Deus, repara na vida ao redor. Chimarrão e descanso se dão bem desde a primeira cuiada.
4 AMOR: o cuidado começa antes da primeira cuiada
Quem prepara um chimarrão pros outros sabe que o cuidado começa muito antes de passar a cuia. É preciso ajeitar a erva, cuidar da água, acomodar a bomba e deixar tudo no jeito. Parece pouca coisa, mas ali já existe alguém dedicando tempo pra receber bem outro vivente.
E tem ainda aquela primeira cuiada, mais forte e amarga, que geralmente fica por conta de quem preparou. Nessa hora, o cevador não passa adiante dizendo: “Toma tu primeiro, que eu vou esperar melhorar!” Ele mesmo começa e depois oferece aos outros. É um gesto pequeno, desses que quase passam despercebidos, mas que nos ensinam a levar o bem do próximo em consideração.
O amor cristão aparece nessa disposição de cuidar. Tem mãos ocupadas, ouvidos atentos e tempo repartido. Não vive só de prosa bonita, porque falar de amor sem se dispor a ajudar é muita balaca pra pouca lida.
Essa imagem do primeiro amargo pode nos ajudar a lembrar, guardadas as devidas proporções, do que Cristo fez por nós. No Getsêmani, Jesus orou ao Pai diante do cálice de sofrimento que o aguardava. Ele conhecia a dureza daquele caminho e, ainda assim, se entregou à vontade do Pai por amor a nós.
Como já proseamos por estes pagos: Jesus tomou sobre si o amargo da morte para nos dar, de graça, a alegria da vida eterna. O nosso pequeno gesto junto à primeira cuiada não se compara à grandeza da cruz. Mas pode nos fazer recordar o Salvador e perguntar: de que maneira posso cuidar de alguém hoje?
Paulo ensina, em 1 Coríntios 13.13, que, entre a fé, a esperança e o amor, o maior é o amor. E, em Filipenses 2.5-11, nos convida a olhar para Cristo, que se humilhou e assumiu a condição de servo.
Pois então, vivente, amar também é descer do palanque, puxar uma cadeira e se colocar à disposição. É cuidar de quem está cansado, visitar quem anda abirchornado e abrir espaço pra quem chegou meio sem jeito. Um chimarrão preparado com amor começa a fazer bem antes mesmo de a cuia chegar à mão.
3 PARTILHA: passa a cuia, tchê, e aprende a servir
Numa roda de mate, alguém serve e oferece. Em outras rodas, cada um recebe e ajuda a servir o seguinte. De um jeito ou de outro, a cuia vai passando e ensinando uma lição sem precisar fazer discurso: aquilo que recebemos também pode chegar ao próximo pelas nossas mãos.
Agora, pensa comigo gauchada: sempre aparece um vivente que pega a cuia, se entusiasma no causo e esquece de devolver. A prosa atravessa três municípios, e o mate continua estacionado! A bomba vira microfone. Barbaridade! Nessa hora, cabe um lembrete carinhoso: “Passa a cuia, tchê! O causo pode continuar!” Porque partilhar exige lembrar que há outros na roda.
Em Marcos 10.45, Jesus ensina que veio para servir e entregar sua vida em favor de muitos. O próprio Filho de Deus se fez nosso servidor. Antes que tivéssemos qualquer coisa a oferecer, ele já havia vindo ao nosso encontro. É dessa graça recebida que nasce o nosso serviço.
Os discípulos do Mestre demoraram a entender. Enquanto caminhavam com Jesus, discutiam quem seria o maior. Queriam descobrir quem era o mais importante daquela tropa. O Mestre os chamou para perto e ensinou que o primeiro deveria se colocar a serviço de todos. Bah! Esse ensinamento faz cair os butiás do bolso de quem anda querendo ser servido o tempo inteiro.
Na roda do chimarrão, temos uma oportunidade simples de exercitar essa disposição. A gente presta atenção, percebe quem ainda não recebeu, oferece, espera sua vez. E a gurizada vai vendo. Aprende que a vida em conjunto precisa de cuidado e que ninguém deve pensar apenas na própria vontade. Porque gaúcho que toma chimarrão todo para si corre o risco de ganhar mijadeira.
Depois, essa mesma lição precisa atravessar a porta de casa. A mão que alcança a cuia também pode levar mantimento, ajudar numa tarefa, amparar um vizinho e trabalhar pela comunidade. Não precisamos esperar uma ocasião grandiosa pra servir. Há muita gente precisando de uma ajuda bem concreta hoje. O Patrão Celeste nos serviu primeiro. Agora, pela fé, podemos repartir o que recebemos. Que a cuia rode e que a nossa disposição de ajudar não fique parada!
2 COMUNHÃO: achega mais uma cadeira
Eu não sei como é contigo, mas preparar um chimarrão só pra mim às vezes parece meio sem graça. A gente toma uma cuia, toma outra, olha pro lado e não tem ninguém pra escutar o causo. Daqui a pouco, está cheio de água e com a prosa toda guardada!
Quando chega companhia, a coisa muda. O mesmo mate ganha outro gosto. Aparecem lembranças, risadas, perguntas e, por vezes, alguma preocupação que o vivente estava precisando repartir.
Tem visita que deixa a gente mais faceiro que guri de bombacha nova. E tem visita que chega de cabeça baixa, precisando apenas encontrar alguém disposto a escutar. Em ambas, a comunhão é preciosa.
O Salmo 133.1 celebra a beleza de os irmãos viverem unidos. E Atos 2.42 conta que os primeiros cristãos perseveravam no ensino dos apóstolos, na comunhão, no partir do pão e nas orações.
Chimarrão não aparece nesse relato, é verdade. Mas, se aquela roda fosse aqui nos nossos pagos, dá pra imaginar alguém perguntando: “Quem trouxe a térmica?”
A vida cristã tem lugar para esse encontro. Somos reunidos por Cristo, aprendemos juntos a sua Palavra e cuidamos uns dos outros durante a caminhada.
Só que andamos vivendo um tempo esquisito. Há gente conversando com meio mundo pela tela e sem trocar duas palavras com quem está sentado à mesa. O telefone está cheio de contatos, mas o coração anda mais vazio que tapera. Por isso, às vezes, o gesto mais necessário é deixar o aparelho de lado e dizer: “Conta, vivente. Como é que tu tá de verdade?” E então escutar a resposta sem ficar de olho na próxima mensagem.
Então, visita aquele parente, procura o amigo que anda sumido, chama o vizinho. Se existe uma distância que pode ser vencida com uma conversa honesta, dá o primeiro passo. E, se alguém anda jogando contra, pede a Deus sabedoria pra puxar pra junto. Uma prosa amiga pode abrir caminho onde a mágoa estava levantando cerca.
Chimarrão comunitário tem este bom tempero: a cuia encontra outra mão, e o coração encontra companhia.
1 BÍBLIA: abre o chasque sagrado
E chegamos ao primeiro tempero: a parada pra ouvir a Palavra de Deus e conversar com ele em oração. Um chimarrão fica ainda melhor quando a Bíblia acompanha a roda. A gente ajeita a cuia, abre o chasque sagrado e se dispõe a escutar o que o Senhor tem a nos dizer. Porque não basta cuidar da erva e esquecer de alimentar a fé. Se o churrasco e o mate saciam nossa fome diária de pão, muito mais a Palavra de Cristo mata a fome do nosso coração.
O Salmo 1.2-3 compara quem encontra alegria na Palavra do Senhor a uma árvore plantada junto às águas. Suas raízes recebem sustento, suas folhas permanecem vivas e seus frutos aparecem no tempo devido. Essa imagem fala fundo com quem conhece a lida da terra. Planta sem água não se sustenta só de boa intenção. Do mesmo modo, precisamos continuamente da Palavra que anuncia o amor de Deus, corrige nossos caminhos e fortalece nossa confiança em Cristo.
Tem vivente que não deixa faltar erva no armário, mas passa um tempão sem abrir a Bíblia. A cuia está sempre pronta; o chasque sagrado, esquecido na estante. Então cabe lembrar aquela prosa: quando tiramos a poeira da Bíblia, ela tira a poeira do nosso coração. E, às vezes, tchê, há bastante coisa ali precisando de uma boa limpeza: orgulho criando raiz, ressentimento tomando conta e uma teimosia que não quer ceder nem com reza comprida.
Deus nos encontra também nessas dificuldades. Sua Palavra revela o pecado, chama ao arrependimento e nos anuncia o perdão em Jesus Cristo. Quando estamos atucanados, nos consola. Quando andamos sem rumo, nos orienta. Quando pensamos que fomos abandonados na estrada, nos recorda a fidelidade do Senhor.
Há dias em que a vida dá um tranco e a gente fica mais perdido que cusco em tiroteio. Então, durante a leitura bíblica, uma passagem nos alcança de maneira especial. O Espírito Santo nos ajuda a compreender e receber, naquela situação, a Palavra que Deus confiou à sua Igreja.
Por isso, vale ler com calma, prestar atenção ao contexto, estudar e levar as dúvidas adiante. A Bíblia merece mais que uma olhada apressada antes de sair pela porta. Em 2 Timóteo 3.16-17, aprendemos que a Escritura é inspirada por Deus e nos prepara para uma vida de fé e boas obras, por meio do ensino, da correção e da formação na justiça. E, em João 5.39, Jesus afirma que as Escrituras dão testemunho dele. É para Cristo que o chasque sagrado aponta. Nele conhecemos o amor do Pai e encontramos a esperança que sustenta nossa caminhada.
Então, antes de sair campeando pelos compromissos do dia, reserva um tempo para essa prosa. Lê uma passagem, medita, agradece, apresenta tuas preocupações ao Senhor. Se houver companhia, partilhem também a leitura e a oração. A cuia pode acompanhar esse encontro, mas é a Palavra que alimenta a fé. Que privilégio, vivente: no meio da nossa lida tão comum, o próprio Deus vem nos servir com suas promessas!
Prendas e peões, aí estão os cinco temperos: descanso, amor, partilha, comunhão e Bíblia. Que eles acompanhem o nosso chimarrão nas comemorações de setembro e também quando a roupa de festa voltar pro armário e a lida seguir seu rumo. A fé tem lugar na cozinha, na varanda, no trabalho e nos encontros de cada dia.
Se esta prosa te fez bem, leva adiante. Chama alguém pra um mate e reparte também o que ouviste. Há muito vivente pelos nossos pagos precisando de descanso, cuidado, companhia e esperança.
E lembra: antes de nós nos achegarmos a Deus, ele já veio ao nosso encontro em Jesus Cristo. Nossa salvação é presente do Senhor. Firmados nessa graça, podemos seguir a troteada com fé e servir ao próximo com alegria.
Que o Patrão Celeste nos acompanhe nas peleias e invernadas da existência. Que haja cuia pra repartir, cadeira pra acolher e coração disposto a escutar.
E que a paz de Deus, maior do que tudo o que podemos compreender, guarde o nosso coração e a nossa mente em Cristo Jesus.
Amém.
Outros recursos: