Amados irmãos, amadas irmãs,
você já enfrentou conflitos? Quem não, não é? Você tem um conflito com uma pessoa atualmente? Como está a situação? Com quem você está em conflito? E será que na Comunidade tem conflitos? “Aqui em Hamburgo Velho certamente não temos conflito nenhum! Isso só acontece em outros lugares. Aqui não!”.
Não há nada mais danoso para a Igreja de Jesus que pessoas em conflito!
Duas pessoas em conflito podem acabar com uma Comunidade[1]. Primeiro, o conflito começa entre as duas pessoas; depois, cada uma delas começa a ajuntar pessoas a seu favor e contra a outra com quem está em conflito; e quando se vê a Comunidade está polarizada e dividida – muitas vezes por assuntos pequenos, irrelevantes e banais! Mas acontece! Isso mata a Comunidade. Pessoas em conflito é um veneno mortal para a Comunidade.
Eu tenho certeza de que as maiores ameaças à Igreja não são externas, porque Jesus prometeu que nem as portas do inferno prevalecerão contra ela! (cf. Mateus 16.18). E a Igreja de Cristo resistiu com fidelidade às perseguições do Império Romano – e continua resistindo em países ainda hoje em dia. Por isso, as ameaças externas não me dão medo! Jesus prometeu: nem as portas do inferno prevalecerão contra a Igreja.
A maior ameaça contra a Comunidade é interna: os conflitos. Porque os conflitos corroem a comunhão de dentro para fora. Vai ferindo. Vai machucando. Vai marcando. É da mesma forma como o cupim faz com a madeira: corrói por dentro e só se vê o estrago quando aparece por fora! E quando começa a aparecer para fora é porque do lado de dentro a madeira já foi comida. Já perdeu sua estrutura, sua força, sua essência. Sem tratamento, o fim da aparência também será questão de tempo.
Jesus nos dá na leitura do Evangelho de hoje uma grande lição sobre pessoas em conflitos. Ele havia feito uma grande viagem. Três domingos atrás nós vimos que Jesus havia ido para as regiões de Tiro e Sidom onde teve o encontro com a mulher cananeia (cf. Mateus 15.21-28); após isto, Jesus passou pelas margens do Mar da Galileia (cf. Mateus 15.29), por Magadã no lado Oeste (cf. Mateus 15.39) na região da Cesareia de Filipe (cf. Mateus 16.13) ao extremo norte onde o rosto de Jesus foi transfigurado no monte Hermon (cf. Mateus 17.1); e enfim chegou à região da Galileia e à cidade de Cafarnaum (cf. Mateus 18.15-20) onde dá ensinamentos aos seus discípulos na casa do apóstolo Pedro (cf. Mateus 8.5, 14; 17.25; 4.13). Foram entre 155 e 220 Km percorridos de barco e a pé de Tiro e Sidom até Cafarnaum.
Na casa do apóstolo Pedro, Jesus concede ensinamentos aos seus discípulos. O que Jesus ensina sobre a resolução de conflitos interpessoais?
1 A TENTATIVA PARTICULAR (v. 15)
Em Cafarnaum, Jesus estava ensinando aos seus discípulos que eles não devem escandalizar as outras pessoas nem levar ninguém à perdição (cf. Mateus 18.5-11), pois não é da vontade do Pai que nenhum pequenino se perca (cf. Mateus 18.14). A intenção de Deus é buscar e salvar a ovelha perdida. O Senhor não quer que a ovelha seja perdida, mas seja salva! E a salvação da ovelha perdida, aqui, acontece através da Disciplina Fraternal. Aqui Jesus deixa de lado aquela imagem “romantizada” do pastor trazendo a ovelha perdida no colo. Em Mateus 18.15-20, a questão é prática – e com um procedimento prático para resgatar a ovelha que se perdeu.
Deus não quer que a pessoa se perca, mas seja salva! A conversa particular tem esse propósito! Todo orgulho precisa ser deixado de lado. “O objetivo não é ganhar dele, mas ganhá-lo”[2]. Não é ganhar dele, mas ganhá-lo de volta para o Evangelho de Cristo: “Porque toda disciplina deve começar com propósitos redentores”[3]. A conversa fraternal não tem o objetivo de provar que o outro está errado, mas salvá-lo para Cristo. O Novo Testamento inteiro fala disso. Vejamos alguns exemplos:
· “Não o considereis como inimigo, mas como irmão” (2 Tessalonicenses 3.14-15);
· “Meus irmãos, se alguém dentre vós se desviar da verdade e se outro conduzir o pecador desencaminhado salvará a sua alma da morte e cobrirá uma multidão de pecados” (Tiago 5.19-20);
· “Proclama a Palavra, insiste, no tempo oportuno e no importuno, refuta, repreende, exorta com toda paciência e doutrina” (2 Timóteo 4.2);
· “Irmãos, se alguém for surpreendido nalguma falta, vós, que sois espirituais, corrigi-o com espírito de brandura; e guarda-te para que não sejas também tentado. Levai as cargas uns dos outros e, assim, cumprireis a lei de Cristo” (Gálatas 6.1-2);
Jesus deu esse ensinamento aos discípulos com base na Torá, conforme Levítico 19.16-17, onde está escrito: “ — Não ande como mexeriqueiro no meio do seu povo, nem atente contra a vida do seu próximo. Eu sou o Senhor. Não guarde ódio no coração contra o seu próximo, mas repreenda-o e não incorra em pecado por causa dele”.
Desta forma, o ensinamento de Jesus e o Novo Testamento nos revelam que o procedimento prático tenha a intenção correta: a redenção da pessoa – e não a vanglória pessoal de “estar certo e o outro errado”. A perspectiva aqui não é acusatória, mas pastoral! Deus não quer a perdição do perdido, mas sua salvação. Esse é o seu desejo mais profundo, conforme está escrito em 1 Timóteo 2.4: “O qual deseja que todos sejam salvos e cheguem ao pleno conhecimento da verdade”.
Portanto, o primeiro passo é uma conversa particular que tenha como objetivo resgatar a pessoa perdida para o Evangelho de Cristo. Se não começar com essa intenção, já está tudo errado! Por isso, a humildade é pressuposto para essa conversa, pois a pessoa não será corrigida pelas minhas ideias e convicções pessoais, mas pela verdade do Evangelho revelada em Cristo Jesus.
E se a pessoa não ouvir e continuar no erro? E se o conflito entre as duas pessoas perdurar? Então, Jesus dá o passo seguinte:
2 A TENTATIVA COM TESTEMUNHAS (v. 16)
Se alguém, pelo Evangelho, exortar alguém para resolver o conflito e essa pessoa não aceitar, a pessoa não é abandonada. Deus não desiste. Seu amor é tão grande que a pessoa recebe a oportunidade de uma nova tentativa. Por isso, em amor são chamadas mais testemunhas; não um grande grupo, mas duas ou três são suficientes, como ensina Deuteronômio 19.15: “Uma só testemunha não poderá se levantar contra alguém por qualquer iniquidade ou por qualquer pecado, seja qual for que cometer; pelo depoimento de duas ou três testemunhas se estabelecerá o fato”.
Por isso é importante haver mais testemunhas. O objetivo continua não sendo o orgulho ou a vanglória, mas a redenção e a salvação da pessoa que se perdeu. A presença das testemunhas auxilia da seguinte forma:
a) Evita a parcialidade: pode acontecer de que a pessoa que quer corrigir o outro está sendo parcial em sua avaliação da situação. Pode ser que realmente está sendo orgulhosa e não queira a salvação do outro, mas sua humilhação. Mais pessoas presentes ajudam em uma visão objetiva do caso para que haja busca de justiça;
b) Ter uma leitura objetiva da situação, diferenciando o fato das interpretações: quando há um conflito, a interpretação do que ocorreu é frequentemente mais lembrada do que o fato que realmente aconteceu. Ter mais pessoas na conversa ajuda a estabelecer o fato;
c) Proteção: no caso da acusação ser correta, as testemunhas protegem o irmão que amorosamente tem a intenção de conduzir a pessoa perdida ao Evangelho. As testemunhas participam e sabem o que foi e o que não foi dito;
d) Convencimento: mais pessoas dão uma chance ao pecador perceber que realmente está errado e que precisa deixar a sua teimosia.
As testemunhas presentes não devem ter outra intenção senão a de resolver o conflito e conduzir todos para o Evangelho de Cristo. Mas, e se ainda assim a pessoa permanecer teimosa em seu erro? Vem o passo seguinte:
3 A TENTATIVA NA ASSEMBLEIA (v. 17-18)
Se a conversa particular e a conversa com testemunhas não surtir efeito, o assunto vai para a Assembleia (ecclesia, no grego do NT)[4]. Essa é parte mais difícil! Porque a reconciliação só pode acontecer onde há a decisão de enfrentar o problema.
A Assembleia se refere ao Presbitério ou até mesmo às instâncias superiores da Igreja. Na Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil, a Disciplina fraternal não se aplica apenas a pastores/as, mas a todos os membros. O guia “Nossa Fé, Nossa Vida” deixa clara a orientação da conversa pessoal, depois no presbitério e, se permanecer sem resolução, na Assembleia da Comunidade – com a pessoa podendo recorrer ao Sínodo e à própria Comissão de Doutrina e Ordem da IECLB.
Se ainda assim a pessoa não aceitar a correção, então pode acontecer o desligamento da Igreja, a excomunhão, conforme o ensinamento de Jesus: “Em verdade lhes digo que tudo o que ligarem na terra terá sido ligado nos céus, e tudo o que desligarem na terra terá sido desligado nos céus” (Mateus 18.18). Mas isso apenas se todas as tentativas foram esgotadas – porque facilmente preferimos seguir o caminho inverso e logo já ter o interesse em expulsar alguém da Igreja.
Sim! O juízo de Deus existe – e não é brincadeira! O juízo faz parte do amor de Deus:
O juízo não só é possível, mas (...) tornou-se realidade e permaneceu realidade do agir de Deus. Graça que tudo perdoa seria barata e justamente não um sinal de amor, mas de indiferença. Amor verdadeiro não conhece a categoria do tropeço permissivo.[5]
Contudo, o juízo de Deus não é uma ameaça para coagir a correção através do medo, mas a consequência natural ao desvio da fé e a negação de todas as oportunidades que o amor e a graça de Deus ofereceram à pessoa de voltar ao Evangelho.
4 O SENHOR É TESTEMUNHA (v. 20)
“Porque, onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, ali estou no meio deles” (Mateus 18.20). Esse é o verdadeiro sentido desse versículo a partir do seu contexto: o Senhor esteve presente o tempo inteiro; o Senhor esteve presente no processo inteiro; não foram apenas decisões humanas, mas Deus estava ali, em cada diálogo, em cada tentativa de salvar quem se perdeu. E o Deus que está presente conhece o que está no coração das pessoas presentes!
Amados irmãos, amadas irmãs,
O Senhor é o Deus da Justiça! Mas, ainda assim, se lermos a continuação do texto, vemos que Deus ainda deseja que aconteça o perdão (cf. Mateus 18.21-35). A única maneira de restaurar a comunhão é através do perdão. Isso não é fácil. Não é um botão que se aperta e pronto! Há dores envolvidas! Há mágoas sentidas! Há palavras não esquecidas!
Não há nada mais danoso para a Igreja de Jesus que pessoas em conflito!
O Senhor quer que busquemos a paz na vida em Comunidade. Isso não é fácil, é um grande desafio que requer muita disciplina – principalmente da boca. Precisamos aprender a separar fatos de interpretações – e resolver os fatos. Precisamos da cura através do perdão – que às vezes precisa de uma conversa mediada pelo pastor ou mais pessoas com a intenção clara de redimir e salvar. Só assim desinfetamos a Comunidade do cupim do conflito; só assim neutralizamos o veneno da inimizade.
Concluo lembrando o 8º Mandamento e sua interpretação por Martim Lutero no Catecismo Menor:
Não dirás falso testemunho contra o teu próximo. O que significa isso? Devemos temer e amar a Deus e, por isso, não enganar o nosso próximo com falsidade, traí-lo, caluniá-lo ou fazer acusação falsa contra ele, mas devemos desculpá-lo, falar bem dele e interpretar tudo da melhor maneira.[6]
Amém.
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[1] Mas jamais com a Igreja de Jesus Cristo, certamente!
[2] CARSON, D. A. O Comentário de Mateus. São Paulo: Shedd Publicações, 2010. p. 470. Grifo meu.
[3] CARSON, 2010. p. 470.
[4] Certamente ecclesia aqui significa Assembleia e não Igreja, pois a Igreja ainda não existia como instituição. Jesus está falando de uma Assembleia de irmãos.
[5] FELDMEIER, Reinhard; SPIECKERMANN, Hermann. O Deus dos vivos: Uma doutrina bíblica de Deus. São Leopoldo: Sinodal/EST, 2015. p. 331.
[6] LUTERO, Martim. Catecismo Menor. 25. ed. atualizada. São Leopoldo: Sinodal, 2024. p. 7. Grifo da editora.