Romanos 8.26-39
9º Domingo após Pentecostes
P. William Felipe Zacarias
Amados irmãos, amadas irmãs,
as coisas não vão nada bem! A lista de problemas que há no mundo é enorme. Se você ligar um noticiário ou acessar as notícias no celular, você certamente vai encontrar: guerras e rumores de guerras, instabilidade e incerteza econômica, violência nas ruas, violência nas casas, emergência climática, redes sociais que se tornaram antissociais e veículos para disseminação do ódio... Ufa! Realmente, o mundo não vai bem. Distante ou perto, o sofrimento está presente!
“Fora do Éden a vida vira notícia!”[1] Em Romanos 1.18-32, o apóstolo argumenta que, por causa do pecado, a Ira de Deus é o maior problema da condição humana. Estamos do lado de cá da Queda onde, em Gênesis 3, o ser humano tentou proclamar a sua independência de Deus. E, ao achar que tem livre-arbítrio, o ser humano se tornou seu próprio deus, pois só Deus tem livre-arbítrio. O ser humano, pequeno-deus de si mesmo, faz tudo pelo seu poder e para dominar o outro. Em sete dias, Deus criou o mundo. No Oitavo Dia, o ser humano tentou ser Deus.
O mundo jaz no pecado! Separado de Deus, o ser humano está psicologicamente separado de si mesmo: sente vergonha e medo (cf. Gênesis 3.10); separado socialmente uns dos outros (cf. Gênesis 4); separado fisicamente da Criação (cf. Romanos 8.22). O pastor norte-americano Timothy Keller (1950-2023) escreveu: “Desde o Éden, vivemos em um mundo repleto de sofrimento, doenças, pobreza, racismo, desastres naturais, guerras, envelhecimento e morte”[2]. Assim, “Em última análise, todos os problemas humanos são sintomas, e nossa separação de Deus é a causa”[3].
Do lado de cá da Queda, os sofrimentos são o principal sintoma de que algo não está certo. Há uma doença mais profunda e mais grave: a separação do ser humano de Deus – o pecado! Do lado de cá da Queda, o pecado se tornou a tragédia e o destino do ser humano. E tudo o que faz está manchado pelo pecado! E, apesar de não ter pecado, a Criação geme e sofre por causa dos nossos pecados.
Diante deste cenário de sofrimento, Paulo não permanece olhando ao sofrimento. O apóstolo de Cristo escreve à Comunidade de Roma para que tenha esperança no amor de Deus em meio aos sofrimentos do presente. A esperança plantada no solo do amor de Deus brotará mesmo vindo duras tempestades. Essa é a sua mensagem.
A verdade é que o apóstolo Paulo conhece o sofrimento de perto. Encontramos uma lista dos seus sofrimentos em 2 Coríntios 11.21-31: “Ingloriamente o confesso, como se fôramos fracos. Mas, naquilo em que qualquer tem ousadia (com insensatez o afirmo), também eu a tenho. São hebreus? Também eu. São israelitas? Também eu. São da descendência de Abraão? Também eu. São ministros de Cristo? (Falo como fora de mim.) Eu ainda mais: em trabalhos, muito mais; muito mais em prisões; em açoites, sem medida; em perigos de morte, muitas vezes. Cinco vezes recebi dos judeus uma quarentena de açoites menos um; fui três vezes fustigado com varas; uma vez, apedrejado; em naufrágio, três vezes; uma noite e um dia passei na voragem do mar; em jornadas, muitas vezes; em perigos de rios, em perigos de salteadores, em perigos entre patrícios, em perigos entre gentios, em perigos na cidade, em perigos no deserto, em perigos no mar, em perigos entre falsos irmãos; em trabalhos e fadigas, em vigílias, muitas vezes; em fome e sede, em jejuns, muitas vezes; em frio e nudez. Além das coisas exteriores, há o que pesa sobre mim diariamente, a preocupação com todas as igrejas. Quem enfraquece, que também eu não enfraqueça? Quem se escandaliza, que eu não me inflame? Se tenho de gloriar-me, gloriar-me-ei no que diz respeito à minha fraqueza. O Deus e Pai do Senhor Jesus, que é eternamente bendito, sabe que não minto”. Por isso, Paulo diz no capítulo seguinte: “A minha graça te basta, porque o poder se aperfeiçoa na fraqueza. De boa vontade, pois, mais me gloriarei nas fraquezas, para que sobre mim repouse o poder de Cristo” (2 Coríntios 12.9). Paulo conhece o sofrimento e mesmo assim consola a Igreja de Jesus com a mensagem do amor de Deus:
1 O AMOR DE DEUS INTERCEDE POR NÓS (v. 26-28)
O Espírito Santo intercede por nós o tempo todo. Ele conhece os nossos sofrimentos. Deus não foge dos sofrimentos do mundo ou da Igreja, mas veio habitar entre nós na pessoa e no poder do Espírito Santo. Naqueles momentos em que não sabemos direito o que falar em oração ou o que pedir, é exatamente neste instante que o Espírito Santo ora por nós ao Pai. Ele geme por nós em nossos sofrimentos. O Espírito Santo ora para além do que as palavras podem expressar. Ele geme.
Do lado de cá da Queda, há alguém que intercede por nós em nossas fraquezas; há alguém que diz ao Senhor o que as nossas palavras não conseguem dizer; há alguém que ora a Deus conhecendo a própria vontade de Deus. Esse alguém é o Espírito Santo. O amor de Deus não nos deixa sós no sofrimento, mas acompanha com a oração intercessora com gemidos inexprimíveis em palavras.
O mundo vai mal – mas não estamos sozinhos! O Espírito Santo, dádiva do Pentecostes, é nosso intercessor. E é por isso que Paulo pode ter a ousadia de dizer que “todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito” (Romanos 8.28). O mundo vai mal – mas quem ama a Deus sabe que há um propósito a ser cumprido: a vida eterna a ser aguardada com esperança. O mundo vai mal – mas quem ama a Deus sabe que o mal do mundo não é permanente e não prevalecerá sobre a graça de Deus. O mundo vai mal – mas quem ama a Deus sabe que o pecado é a grande miséria da humanidade e que a graça de Deus cobre multidão de pecados (cf. 1 Pedro 4.8). Do lado de cá da Queda, há um amor que intercede incessantemente por nós. É Deus no agir do Espírito Santo que nos acompanha em nossa caminhada de fé.
2 O AMOR DE DEUS NOS JUSTIFICOU (v. 29-34)
O mundo vai mal, mas Deus já nos salvou. Já não há mais condenação. Já não há mais punição. Já não há mais castigo. Cristo Jesus sofreu o castigo na cruz para nos fazer livres do castigo. O inocente se tornou o pecado para que os pecadores fossem tornados inocentes (cf. 2 Coríntios 5.21). O inocente se fez culpado para que os culpados sejam inocentes. Ele assumiu a sentença de condenação. Estamos livres e predestinados à salvação não por causa das nossas obras, mas por causa da maravilhosa graça de Deus. Ele nos justificou: transformou de culpados em justos – por causa de Cristo.
Quem nos condenará? Quem nos acusará? Quem será contra nós? Ninguém! Do lado de cá da Queda, o mundo vai mal. Contudo, o amor de Deus é a nossa maior defesa. O mundo com seu mal pode intentar todo mal contra nós. Entretanto, a nossa justificação é um ato consolidado. A salvação é um favor garantido não por nossos méritos, mas pelos méritos de Cristo!
Se Deus é por nós, quem será contra nós? Quem intentará acusação contra os eleitos de Deus? Quem os condenará? Ninguém! O próprio Filho de Deus não foi poupado pela nossa salvação. Assim, podemos ter a certeza de que, pela ressurreição, nos dará graciosamente todas as coisas.
Ainda que venha muito sofrimento, guerras, violência, dores, miséria, temos esta certeza: o Senhor já nos salvou em Cristo Jesus. Talvez tenha sido isso que Martinho Lutero (1483-1546) tinha em mente ao escrever essas linhas do hino Castelo Forte: “Se a morte eu sofrer, se os bens eu perder: que tudo se vá! Jesus conosco está! Seu Reino é a nossa herança!” Se Deus é por nós, nada no mundo poderá ser contra nós!
3 O AMOR DE DEUS NOS UNIU A ELE (v. 35-39)
E então: quem nos separará do amor de Deus? Há algo que pode nos separar do amor de Deus? Não! Nada! Ninguém!!! Todos os adversários já foram derrotados: o pecado, a morte e o inferno! Não há o que temer. Já somos mais que vencedores por meio daquele que nos amou.
Do lado de cá da Queda, as coisas vão muito mal. Há ameaças por todos os lados: tribulação, angústia, perseguição, fome, nudez, perigo, espada... Morte, vida, anjos, príncipes, poderes, altura, profundidade. Contudo, nada poderá nos separar do amor de Deus. O amor de Deus revelado em Cristo Jesus na cruz superou todos os poderes do mundo, como diz o hino nº 50 do Hinos do Povo de Deus: “Silenciam os poderes ante a cruz de Gólgota”. Nenhuma notícia, nenhum mal, nenhuma criatura, nenhuma pessoa, nenhum poder poderão nos separar do amor de Deus.
Em nosso Batismo, pela fé, fomos unidos a Deus. E pela mesma fé podemos crer que, venha o que vier, nada poderá nos separar do amor de Deus. O amor de Deus nos uniu a ele para nunca mais soltar. Paulo sabia disso. Ele sabia que no mundo há sofrimentos – mas que o que Deus fez na cruz e ressurreição de Cristo Jesus é imensamente maior que todas as coisas.
Amados irmãos, amadas irmãs,
A esperança plantada no solo do amor de Deus brotará mesmo vindo duras tempestades.
O apóstolo Paulo não disse que vai ficar tudo bem (aliás, essa era a mensagem mais típica dos falsos profetas do Antigo Testamento). Paulo diz que a criação geme e sofre. As coisas realmente vão mal! A sujeira não pode ser jogada para debaixo do tapete. Contudo, Paulo não cai em um fatalismo. Ele tem esperança – e sua esperança está fundamentada na pessoa e obra de Jesus Cristo. Paulo plantou sua esperança no solo do amor de Deus. O mundo vai mal, mas Cristo já venceu!
O pecado realmente desgraçou o nosso mundo, mas, em Cristo, Deus agraciou esse mundo com o seu maravilhoso amor. Em meio aos sofrimentos, não estamos sozinhos. Cristo está conosco. O que Deus te pede hoje é: confie no amor de Deus! Confiança! “Todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus” (Romanos 8.28).
Se o mundo está cheio de más notícias, Deus te presenteia hoje com a Boa Notícia do Evangelho: Deus te ama. O Espírito intercede por ti; Cristo morreu por ti; nada jamais poderá te separar do amor de Deus. E ainda que venhamos a perder tudo, é impossível perder a Cristo – pela graça de Deus. Amém.
[1] Frase do Podcast Bibotalk.
[2] KELLER, Timothy. Igreja Centrada. São Paulo: Vida Nova, 2014. p. 36.
[3] KELLER, 2024. p. 36. Grifo meu.