Amados irmãos, amadas irmãs,
qual pedido mais tem aparecido nas suas orações? O que você mais tem pedido ao Senhor? Qual sofrimento ou preocupação você tem colocado a Deus em oração? E se o Senhor lhe dissesse que não iria lhe dar, o que você faria? Abandonaria a fé? Reclamaria? Aceitaria? Afinal de contas, Jesus é o Senhor ou um amuleto mágico que usamos quando precisamos?
O nosso texto bíblico inicia dizendo “partindo Jesus dali” (Mateus 15.21). Dali onde? Jesus estava em Genesaré na região da Galileia onde havia realizado a cura de muitas enfermidades. Como sua fama havia se espalhado, com a chegada de Jesus, uma multidão se aglomerou no lugar em que ele estava para terem a cura de seus sofrimentos e enfermidades.
Os fariseus não gostavam nada disso! Não se alegravam com a obra de Deus na pessoa de Jesus Cristo, mas precisavam encontrar algo com que implicar. Não tendo com o que implicar, questionam a higiene do grupo de Jesus, perguntando por que eles não lavam as mãos antes das refeições. Não se engane! Os fariseus não estavam nem um pouco interessados na higiene ou na saúde dos discípulos! O que os fariseus queriam era encontrar uma maneira de “pegar Jesus” para descredibilizar a reputação do seu Ministério. A questão, portanto, não era externa (lavar as mãos), mas interna: eles maquinavam contra Jesus em seus corações (cf. Mateus 15.11, 18-25).
É então que Jesus faz uma jornada para longe da hipocrisia dos fariseus. Jesus saiu do meio do povo da Aliança e foi para um território de gentios, levando os seus discípulos consigo para a região litorânea de Tiro e Sidom (cf. Lucas 6.17) que atualmente pertencem ao Líbano. Talvez, para sair da hipocrisia dos fariseus, Jesus decidiu ir para a praia com os seus discípulos e esfriar a cabeça. Enquanto Tiro ficava a cerca de 48 Km (2-3 dias) da Galileia, Sidom ficava a 80 Km (4-5 dias) da Galileia.
Foi então que algo inesperado aconteceu: uma mulher cananeia veio ao encontro de Jesus gritando por ajuda. Só que os cananeus eram os inimigos antigos, históricos e viscerais de Israel! Os cananeus eram os povos que habitavam a terra antes da conquista de Josué. Séculos de inimizade e derramamento de sangue estão no plano de fundo desse encontro! Ela não era apenas uma estrangeira pedindo ajuda; ela era a face do inimigo ancestral!
Ela chama a Jesus de Senhor e Filho de Davi porque a fama de Jesus também já havia se espalhado por aquela região (cf. Lucas 6.17). A mulher cananeia clama por sua filha que estava endemoninhada. Orígenes, um teólogo dos primeiros séculos da fé cristã, escreveu: “Deixando todo o culto do Diabo, foi ao Senhor”[1]. Aquele mundo antigo estava lotado de propostas de “solução rápida” para diversos problemas humanos através da magia, curandeirismo e ocultismos. O problema da família é espiritual: a filha está endemoninhada! Provavelmente a sua mãe havia buscado bastante o ocultismo, sem solução para seu problema. Entender isso é fundamental para compreendermos por que Jesus “dificulta as coisas” para esta mãe e mulher ao invés de simplesmente realizar a cura em um “passe de mágica”. Jesus não quer ser confundido!
1 JESUS, UM CURANDEIRO? (v. 22-24)
A mulher vai a Jesus e diz “tem compaixão de mim! Minha filha está horrivelmente endemoninhada” (Mateus 15.22). Ela pede que Jesus tenha compaixão dela. Kyrie Eleison é o clamor de uma alma bastante aflita! Ela sabe que Jesus pode atender ao seu pedido de socorro, mesmo ela sendo uma mulher estrangeira e, portanto, estranha. Aqui não há alteridade, mas alienação – que é o antônimo da alteridade. Por isso, os discípulos pedem que Jesus despeça a mulher. Por quê?
Jesus não é um mero curandeiro. Jesus não pode ser confundido com os curandeiros cananeus que viviam da prática da magia. Jesus não era mais um entre eles! Jesus não quer ser confundido como uma “solução fácil e rápida” para todos os problemas humanos. Ele sabe que isso o reduziria a “apenas mais um” entre tantos outros. Logo, aquela mulher não tem caminho fácil com Jesus. O caminho é dificultado!
Por isso, Jesus dá a primeira negativa. Após seu silêncio, Jesus finalmente disse: “Não fui enviado senão às ovelhas perdidas da casa de Israel” (Mateus 15.24). E assim, aquela mulher enfrenta a primeira negação de Jesus ao seu pedido; mas ela não desiste facilmente! Ela não virou as costas e foi embora. Ela pede, mas o pedido não é suficiente para Jesus!
2 JESUS, UM ÍDOLO? (v. 25-26)
“Ela, porém, veio e o adorou, dizendo: Senhor, socorre-me!” (Mateus 15.25). Diante da primeira negativa de Jesus, ela dá um passo ousado: se coloca em humildade e adora a Jesus. Ajoelhada (cf. Marcos 7.25), ela manifesta o seu brado de aflição. Ela grita das profundezas da sua alma. No original grego, seu grito significa uma dor muito profunda, aguda. Ela clama do fundo da sua alma.
A adoração também não surtiu efeito... Ao contrário, Jesus, ao ver e ouvir isso fez questão de deixar ainda mais clara a distinção histórica entre os judeus e os gentios – e o fez com uma expressão bastante forte e ousada: “Então, ele, respondendo, disse: Não é bom tomar o pão dos filhos e lançá-los aos cachorrinhos” (Mateus 15.26). Opa! Essa foi forte! Os judeus são os filhos; os estrangeiros, os cachorrinhos!
A porta continua fechada porque a adoração por si mesma pode facilmente ser confundida com idolatria. Desde os tempos do Antigo Testamento aquela região estava tomada de ídolos. A mulher cananeia adora a Jesus de joelhos, mas Jesus não aceita ser transformado em um ídolo entre tantos outros disponíveis. Ele é algo mais. A mulher não desiste. Dá mais um passo com coragem e sabedoria:
3 JESUS, O SENHOR! (v. 27-28)
Após escutar a dura comparação de Jesus em que os estrangeiros foram chamados de cachorrinhos, a mulher cananeia poderia ter virado às costas e ido embora. Poderia ter se revoltado. Poderia ter xingado Jesus. Poderia ter feito muitas coisas. Contudo, o que ela fez foi o mais surpreendente: “Ela, contudo, replicou: Sim, Senhor, porém os cachorrinhos comem das migalhas que caem da mesa de seus donos” (Mateus 15.27). Uau! Que resposta! Ela não discorda de Jesus, mas concorda. Ela sabe que Israel é o povo da Aliança. Mas ela não quer a mesa; as migalhas já são suficientes! Não quer se assentar como convidada na mesa do Messias; quer ter permissão para pelo menos comer as migalhas que caem no chão.
E aconteceu: “Então, lhe disse Jesus: Ó mulher, grande é a tua fé! Faça-te contigo como queres. E, desde aquele momento, sua filha ficou sã” (Mateus 15.28). Jesus encontrou na mulher cananeia o que desejava encontrar nela: fé! Confiança nele! E, aquilo que faltava nos fariseus da Galileia, Jesus acabou encontrando nas terras estrangeiras de Tiro e Sidom.
Amados irmãos, amadas irmãs,
a fé faz toda a diferença! O pedido sem fé transforma Jesus em um curandeiro; a adoração sem fé transforma Jesus em um ídolo; já o pedido e a adoração com fé se transformam na obra de Deus na vida do ser humano! A fé é tudo o que Jesus quer para não ser reduzido a um curandeiro e para não ser reduzido a um ídolo.
Jesus Cristo é verdadeiramente Deus e verdadeiramente homem; em tudo igual a nós; exceto no pecado! Jesus Cristo é o Senhor e ter fé nisso significa aceitar tanto o seu sim quanto o seu não. Aquela mulher teve o que pediu – mas Jesus continuaria sendo o Senhor caso ela não tivesse recebido o que pediu.
O que o Senhor quer de nós é uma fé sincera e verdadeira, vinda do coração e não das coisas exteriores.
Jesus não pode ser domesticado. Deus não pode ser manipulado. Jesus não é um amuleto mágico que faz tudo o que queremos. O que o Senhor quer é fé em quem ele realmente é! E isso implica em aceitar a vontade de Deus como ela é! E isso não é algo simples ou fácil, mas que apenas a maturidade na caminhada da fé consegue desenvolver com muito tempo.
Não sei o que você tem colocado a Deus em oração. O que tenho a te dizer é: continue! Mas continue com fé. Não ore fazendo do Senhor Jesus um curandeiro; não adore a Deus fazendo dele um ídolo. Não apenas admire ao Senhor, mas aceite-o como seu Senhor. Aceite-o como o Senhor da sua vida! O Senhor tem compaixão de você!
Tenha fé, não apenas admiração; tenha fé, não apenas pedidos; tenha fé, não apenas rituais; tenha fé, não apenas espiritualidade. Tenha fé! Tenha fé em Jesus. Receba o abraço de Jesus e que, conforme sua soberana vontade, você possa, por graça, receber o que tanto pede. Amém.
[1] Apud. AQUINO, Santo Tomás de. Catena Aurea: exposição contínua dos evangelhos. V. 1: Evangelho de São Mateus. Campinas: Ecclesiae, 2018. p. 518.