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Amados irmãos, amadas irmãs,
O que você prefere? Roupa escura ou clara? Uma comida doce ou salgada? O Grêmio ou o Internacional? Sertanejo ou música gauchesca? Séries ou novelas? Viajar ou ficar em casa? Muito bem. E como seria se começássemos a impor nossos gostos pessoais aos outros? Na comida, por exemplo? Bem, é disso que fala o texto bíblico deste Domingo:
A fé cristã não cabe no seu quadrado! E isso revela se a nossa fé é forte ou fraca, madura ou imatura!
Roma era uma cidade marcada pela diversidade cultural. Por ser a capital do Império, viviam na cidade pessoas de diferentes origens, religiões, línguas e culturas. Obviamente, essa diversidade incluía também a culinária que era própria de cada cultura. As pessoas cumpriam os seus costumes. Por exemplo, os judeus que moravam em Roma não comiam carne de porco, conforme as leis da Torá.
O Evangelho de Jesus Cristo chegou à essa cidade. Não sabemos ao certo quem é o fundador da Igreja em Roma. Nossos irmãos católicos dizem, pela tradição, que foi o apóstolo Pedro; contudo, não há muita base para essa informação. De qualquer forma, o Evangelho de Cristo foi pregado em Roma e pessoas se converteram à fé cristã. Dentre os convertidos estão judeus e gentios (não judeus). São pessoas com culturas e costumes bem diferentes agora crendo e confessando o mesmo Cristo. Como podemos imaginar, não demorou muito para que os diferentes costumes, especialmente culinários, entrassem em conflito na Comunidade – e isso acontece quando um procura impor ao outro o seu costume e o seu jeito.
Apesar do apóstolo Paulo nunca ter visitado a Comunidade em Roma e nem mesmo ter fundado aquela Comunidade, em Corinto ele escreve uma Carta aos Romanos (diga-se de passagem: uma carta “bombástica” na História da Igreja, sendo importante para Agostinho, Martim Lutero e Karl Barth. Nesta carta estão as bases da doutrina da justificação pela fé, fundamental na Teologia Luterana) onde o apóstolo de Cristo recomenda que os irmãos cumpram a lei do amor (cf. Romanos 13.8-10) e vivam uma vida totalmente entregue a Deus (cf. Romanos 12.1-2).
Os irmãos da Comunidade em Roma estão brigando por causa de comida. Os cristãos gentios acreditam que não são obrigados a cumprir as restrições alimentares dos judeus; os cristãos convertidos do judaísmo mantêm costumes que fazem parte da sua cultura. Parece uma “briga boba”, mas pensem comigo: uma das marcas da fé cristã são as refeições comunitárias. Como ter momentos de comunhão de mesa se nem havia paz na decisão sobre o que estaria sobre a mesa? Como ter momentos de alegria em uma refeição se havia uma briga sobre qual seria a refeição? Como viver em Comunidade quando um julga o que o outro come?
A solução dos embates sobre comidas e costumes precisa vir do amor. E a solução do embate é fundamental para que os irmãos possam focar na missão e Deus fosse glorificado através das suas ações. Assim, judeus convertidos e gentios convertidos deveriam viver a justificação pela fé na boa convivência nas diferenças.
Para compreendermos a mensagem de Paulo, precisamos passar por um dos escritos mais importantes de Martim Lutero: De Servo Arbítrio[1] (Da Vontade Cativa, ou Da Vontade Escrava). Neste escrito, Lutero debate com Erasmo de Roterdã. O reformador alemão argumenta que o ser humano não possui livre-arbítrio para a Salvação, mas que sua vontade é totalmente escrava do pecado! Tudo quanto faz está manchado pelo pecado – até as boas obras. Não há, portanto, nenhum mérito humano na Salvação nestas coisas superiores; o ser humano só possui livre-arbítrio nas coisas inferiores que são as escolhas do dia a dia: roupas, comidas, relacionamentos etc. O grande problema da Comunidade de Roma é confundir o livre-arbítrio com o servo-arbítrio, como veremos com mais detalhes a seguir:
1 ONDE SOMOS LIVRES (v. 1-6)
Como já mencionado, os cristãos romanos estavam vivendo conflitos por causa das comidas que seriam servidas na mesa da comunhão fraterna das refeições comunitárias. Uns julgam aos outros por causa da comida que comem ou deixam de comer. Uns sentem-se religiosamente ou moralmente superiores por comerem ou deixarem de comer algo – uma idiotice[2]. Para nós, uma coisa boba (embora repliquemos esse comportamento facilmente em outras áreas).
O apóstolo Paulo não diz que alguns tem fé e outros são incrédulos! Ambos têm fé. Contudo, na visão do Apóstolo de Cristo, alguns tem uma fé forte, madura; outros tem uma fé fraca, imatura. Os fortes na fé são os cristãos gentios que não se colocam debaixo das obrigações judaicas. Eles compreenderam a liberdade que há em Cristo Jesus e que esses costumes não são indispensáveis à salvação. É uma fé madura. Os judeus convertidos a Cristo também têm fé – mas é uma fé frágil, imatura, pois eles até podem preservar seus costumes, mas não devem jamais obrigar outros a fazê-lo.
E qual é a recomendação de Paulo? Que os amadurecidos na fé tenham tolerância com os que ainda estão amadurecendo. Paulo não diz para os cristãos convertidos do judaísmo encerrarem seus costumes; os maduros – enquanto maduros – é que precisam compreender seus irmãos e tolerá-los. Se são fortes e maduros na fé, irão compreender as debilidades da fé do irmão da Comunidade.
As pessoas não devem ser desprezadas por causa dos seus costumes, mas aceitas, pois isso é parte da liberdade cristã. Nestas coisas inferiores, não há obrigação. Cada pessoa é livre! Na Teologia Luterana, o ser humano possui livre-arbítrio nas coisas inferiores. Comidas, bebidas, vestimentas, costumes, hábitos etc. não devem assumir um lugar salvífico – mas também não devem dar ocasião ao pecado! O apóstolo Paulo escreveu: “Para a liberdade foi que Cristo nos libertou. Permanecei, pois, firmes e não vos submetais, de novo, a jugo de escravidão” (Gálatas 5.1), mas também: “Porque vós, irmãos, fostes chamados à liberdade; porém não useis da liberdade para dar ocasião à carne; sede, antes, servos uns dos outros, pelo amor” (Gálatas 5.13).
2 ONDE SOMOS CATIVOS (v. 7-9)
Somos livres nas coisas inferiores que não devem se tornar o “quadrado” ou o critério da salvação. Contudo, somos escravos nas coisas superiores que (essas sim) são fundamentais para a salvação do ser humano.
Após pedir que os maduros na fé tenham paciência com os imaturos na fé coram mundo (diante do mundo), o apóstolo Paulo aponta para a vida coram Deo (diante de Deus): “Porque nenhum de nós vive para si mesmo, nem morre para si. Porque, se vivemos, para o Senhor vivemos; se morremos, para o Senhor morremos. Quer, pois, vivamos ou morramos, somos do Senhor” (Romanos 14.7-8), e vem o arremate: “Foi precisamente para esse fim que Cristo morreu e ressurgiu: para ser Senhor tanto de mortos como de vivos” (Romanos 14.9).
Diante de Deus, somos simultaneamente justos e pecadores. Fomos justificados pela fé e não pelas nossas escolhas pessoais. A Salvação do ser humano é obra exclusiva de Deus. Os méritos da Salvação são totalmente de Cristo que morreu e ressuscitou para que nele morramos e nele ressuscitemos.
Aqui caem por terra todos os esquemas humanos de salvação. Nada do que fazemos contribui para nossa salvação. “A nossa força nada faz”, escreveu Lutero, “sozinho estou perdido. Um homem a vitória traz: por Deus foi escolhido. Quem trouxe essa luz? Foi cristo Jesus! O eterno Senhor. Outro não tem vigor: triunfará na luta”.
Diante de Deus, nossa vontade é cativa do pecado desde Gênesis 3. Aqui não há livre-arbítrio. “Eu não posso não pecar”, escreveu Agostinho. Ou mesmo como escreveu o apóstolo Paulo na mesma carta aos Romanos: “Porque não faço o bem que prefiro, mas o mal que não quero, esse faço” (Romanos 7.19). O pecado é o nosso destino e a nossa tragédia. Aqui, nossa vontade é escrava! “pois todos pecaram e carecem da glória de Deus” (Romanos 3.23).
Não existe um “meio-termo” onde o ser humano é bom e livre para escolher entre o bem e o mal! Somos escravos do pecado! Deus, porém, nos libertou em Cristo. Cristo é o Senhor na vida e na morte daquele que crê. Cristo morre na cruz no lugar do pecador, assumindo sua culpa e maldição para libertá-lo das amarras do pecado e da morte!
3 ONDE SOMOS IGUAIS (v. 10-12)
Somos pessoas diferentes, como costumes diferentes, jeitos diferentes, gostos diferentes etc. Contudo, por causa da vontade cativa, há algo em que somos iguais: todos compareceremos diante do julgamento de Deus: “Assim, cada um de nós dará contas de si mesmo a Deus” (Romanos 14.12), da mesma forma como confessamos no Credo Apostólico: “De onde virá para julgar os vivos e os mortos”.
Cristo é o Senhor, não eu! Cristo é o juiz, não eu! Cristo é a Palavra de Deus, não eu! O Senhor não dá a nenhum de nós o direito de ser o juiz dos outros. O julgamento pertence a Deus. O Senhor julgará os fracos e fortes – não pelos nossos critérios e gostos humanos, mas pelos seus critérios divinos. O Senhor julgará não da maneira como o ser humano julga, mas lembrando da misericórdia da cruz.
É preciso deixar Deus ser Deus para que sejamos seres humanos. Julgar o próximo por causa dos seus costumes significa assumir o lugar de Deus. Além disso, significa colocar as coisas secundárias no lugar das primárias, as penúltimas no lugar das últimas (Bonhoeffer), o dispensável no lugar do essencial!
Lembro mais uma vez: “todos pecaram e carecem da glória de Deus” (Romanos 3.23). Todos carecemos igualmente da misericórdia de Deus. E a misericórdia de Deus na justificação pela fé nos torna iguais mesmo quando temos diferenças interpessoais de gostos, costumes e culturas. O Evangelho nos faz um por causa de Cristo – somente Cristo!
Amados irmãos, amadas irmãs,
A fé cristã não cabe no seu quadrado! E isso revela se a nossa fé é forte ou fraca, madura ou imatura! A Igreja de Jesus deve ser um lugar de acolhimento às diferenças. Jamais devemos tentar separar o puro do impuro. Não é isso que o Senhor da Igreja quer para a nossa Comunidade. Devemos, antes, ser tolerantes, pacientes e misericordiosos uns com os outros da mesma forma como Cristo é paciente e misericordioso conosco.
Às vezes há “briguinhas bobas” na Igreja, quase sempre relacionadas às coisas inferiores: Órgão de tubos ou bateria? Culto tradicional ou moderno? Ouvir música do mundo ou apenas música gospel? E um se torna juíz do outro quando pensa diferente! Isso é secundário! Precisamos tomar cuidado para que isso não assuma o centro: Cristo, somente!
Deixemos as “briguinhas bobas” de lado e nos voltemos para Cristo, o Senhor. Aprendamos a tolerar as diferenças. Lembre-se: Paulo não disse que o diferente não tem fé. E principalmente: ao julgar o próximo, lembremos a nós mesmos o quanto Deus nos amou diante dos nossos próprios pecados.
E a paz de Deus, que excede todo o entendimento, guardará os nossos corações e as nossas mentes, em Cristo Jesus. Amém.
[1] LUTERO, Martinho. Da Vontade Cativa – 1525. in: LUTERO, Martinho. Obras Selecionadas. v. 4: Debates e Controvérsias II. São Leopoldo: Sinodal; Porto Alegre: Concórdia, 1993. p. 11-216.
[2] Cf. JORNALISMO TV CULTURA. Linhas Cruzadas | A humanização dos animais. São Paulo: TV Cultura, 21 out. 2022. 1 vídeo (44 min 24 s). Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=WQ4mMeryTAI>. Acesso em: 6 set. 2026.
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