Mateus 14.13-21
10º Domingo após Pentecostes
P. William Felipe Zacarias
Amados irmãos, amadas irmãs,
Quantos de nós não chegaram aqui hoje carregando um cansaço silencioso? Seja a dor de uma perda recente, a ansiedade com o futuro da família, o fardo de tentar dar conta de tudo ou aquele vazio no peito que a rotina agitada tenta sufocar, mas não consegue resolver. A verdade é que todos nós buscamos alívio para os desassossegos da alma. Jesus nos acolhe exatamente onde estamos para nos oferecer algo infinitamente maior que um simples alimento físico. Jesus não faz um piquenique, mas realiza o milagre que revela a superabundância da graça de Deus.
Jesus está vivendo um dos momentos mais difíceis da sua vida humana: a dor do luto. João Batista, seu precursor e aquele que o batizou no rio Jordão, foi decapitado. Os discípulos acabaram de dar a notícia a Jesus. É um luto misturado com revolta – pois o que aconteceu foi uma grande injustiça. Além disso, isso sinalizou mais do que nunca a Jesus que o tempo de cumprir seu ministério terreno estava chegando ao fim e que os momentos a seguir seriam cruciais![1]
Por isso, Jesus decide ir para um lugar à parte. Precisa de um tempo para si. O Deus-homem sofre! O Deus-homem sente a dor do luto, da perda, do crime... Ele carrega no peito a dor da perda do amigo, do precursor, do seu primo – conhecido desde a infância. É um momento difícil. E Jesus sente a dor deste momento.
Jesus toma um barco e navega em direção ao deserto para buscar o silêncio, a reflexão e a comunhão com o Pai. O deserto era o púlpito de João Batista. Era o lugar onde o precursor pregava o arrependimento, pois o Reino de Deus estava próximo. Para Jesus, o deserto aqui tem um peso de um significado diferente. Além do lugar da solitude, é o lugar da memória de João Batista.
A notícia da partida de Jesus se espalhou. Uma multidão faz um caminho de cerca de 3 Km ao redor do lago. Eles chegam antes de Jesus ao outro lado. Quando Jesus chegou, a multidão já estava lá. Jesus poderia ter reivindicado que precisava de um tempo para si; poderia ter mandado todos embora para viver o seu luto; poderia ter dispensado a multidão... Poderia... Mas não fez! Ele é Jesus.
O que Jesus faz com a multidão não pode ser reduzido a uma lição de solidariedade. Pelo menos não a partir desse texto. Em outros momentos, Jesus até disse: “Assim, em tudo, façam às pessoas o que querem que elas façam a vocês” (Mateus 7.12) e relembrou o mandamento do amor ao próximo após o amor a Deus. A prática da solidariedade nem é, em si algo exclusivamente dos cristãos. Judeus, muçulmanos, hindus e ateus podem fazer muitas coisas boas. Há algo a mais aqui. Jesus está falando mais do que o pão que enche o estômago. Os Pais da Igreja[2], teólogos e pastores concordam que o milagre de Jesus aponta para uma verdade espiritual. Não é um mero “piquenique da solidariedade”, mas um ensinamento sobre a vida no Reino de Deus. E o convite que o Senhor nos faz hoje é para sermos essa multidão que, do outro lado do lago, ouve com atenção o que Jesus tem a nos dizer.
1 JESUS, O PASTOR QUE SE COMPADECE (v. 13-14)
“Desembarcando, viu Jesus uma grande multidão, compadeceu-se dela e curou os seus enfermos” (Mateus 13.14). Jesus se compadece. E a chave para entendermos a compaixão de Jesus está no relato da mesma história conforme Marcos 6.34: “Ao desembarcar, viu Jesus uma grande multidão e compadeceu-se deles, porque eram como ovelhas que não têm pastor. E passou a ensinar-lhes muitas coisas”. Jesus se compadeceu. Mesmo de luto, sentiu a fome e sede daquela multidão. A palavra grega para compadecer-se (ἐσπλαγχνίσθη / esplagchnisthe) significa as entranhas; nas mulheres, o útero[3]; o que Jesus sentiu é um frio na barriga. O interior da pessoa se reviravolta ao ver o sofrimento. O corpo sente! O corpo do Deus-homem Jesus sentiu! Mesmo vivendo o seu luto, Jesus sentiu a dor dos outros. Isso é alteridade! “Porque eram como ovelhas que não têm pastor”.
Não sei se você sabia, mas uma ovelha até consegue sobreviver sem o cuidado de um pastor. Contudo, sem o cuidado pastoral, essa sobrevivência se torna mais difícil – como esse vídeo de uma reportagem de uma ovelha que estava perdida a cinco anos ilustra muito bem: https://www.youtube.com/watch?v=Hk2Bl2Zrya.
Assim são as ovelhas que não tem pastor – e com pastor devemos entender aqui o próprio Senhor Jesus. Os fariseus e sacerdotes não cuidavam das ovelhas de Israel; antes, através das suas duras leis, colocavam mais peso em suas costas. Queriam que as ovelhas conhecessem o Bom Pastor através de regras e não de um relacionamento. Jesus tem diante de si ovelhas que carregam o pesado fardo que os religiosos colocaram em suas costas. As ovelhas estão cansadas de carregar esse fardo. Não precisam de novas leis, mas de um guia que as conduz com segurança.
Por isso Jesus se compadeceu das ovelhas. Ele sabe o que lhes foi ensinado até ali. Agora, ele lhes dá outro ensinamento: O Evangelho que alivia o fardo e retira o peso; a Graça que concede o amor de Deus; o amor que ama incondicionalmente.
2 DISCÍPULOS CHEIOS DE DÚVIDAS (v. 15-18)
“Ao cair da tarde” (Mateus 14.15). O dia passou – e ninguém tinha ido embora. Era tão bom ouvir Jesus. Trazia tanto alívio ouvir o Senhor que ninguém tem pressa de ir para casa. Nenhum esposo diz para sua esposa: “Você está com fome? Vamos para casa ou achar algo para comer?” Não! Eles estão com fome, mas permanecem com Jesus – porque a fome da alma naquele momento falava mais forte que a fome do estômago! Mais do que do pão, a multidão sabia que precisava do pão-Jesus. Jesus está saciando a fome mais profunda dos seus ouvintes: ele é o pastor das ovelhas que não tinham pastor!
Os discípulos, porém, ficam preocupados. Eles sabem que não tem comida suficiente para alimentar aquela multidão. Os discípulos pedem que Jesus mande as pessoas embora ao invés de pedir que ele as alimentasse. Mesmo conhecendo o poder de Jesus, decidem pelo caminho mais fácil. Ou talvez quisessem poupar Jesus – lembrem, Jesus estava de luto!
Jesus estava cheio de compaixão; os discípulos estavam preocupados apenas consigo mesmos! Jesus sabia disso! Jesus sabia que a intenção deles não era a compaixão, mas a preocupação em perder o pouco que tinham. Jesus desvenda isso ao dizer: “dai-lhes, vós mesmos, de comer” (Mateus 14.16). Ou seja: se vocês estão realmente preocupados com a multidão, então façam vocês mesmos alguma coisa. A questão é que eles não estavam preocupados com a multidão, mas apenas com os seus cinco pães e dois peixes. Não querem correr o risco! A pergunta de Jesus revela o egoísmo dos discípulos e também os seus limites. Eles se preocupam em guardar o alimento humano, mas Jesus é o pão que desceu do céu: “Eu sou o pão vivo que desceu do céu; se alguém comer deste pão, viverá para sempre; e o pão que eu darei pela vida do mundo é a minha carne” (João 6.51). A preocupação dos discípulos é terrena; a missão de Jesus é celestial. A preocupação dos discípulos é carnal; a missão de Jesus é espiritual; A preocupação dos discípulos é egoísta; a missão de Jesus é graciosa.
Com uma simples pergunta, Jesus “desmontou” a intenção dos discípulos. E mais: ele faz com que entreguem justamente o que queriam guardar apenas para si: “Então, ele disse: Trazei-mos” (Mateus 14.18).
3 JESUS, O MAIOR MILAGRE (v. 19-21)
Jesus profere a Berakah, a oração de ação de graças pelos alimentos dos judeus: “E, tendo mandado que a multidão se assentasse sobre a relva, tomando os cinco pães e os dois peixes, erguendo os olhos ao céu, os abençoou. Depois, tendo partido os pães, deu-os aos discípulos, e estes, às multidões” (Mateus 14.19).
Àquela multidão reunida, como ovelhas sem pastor, Jesus oferece a superabundância da sua graça. E os discípulos distribuem aquilo que foi dado pela graça de Deus. Nas mãos de Jesus, o pouco se transforma em muito. E os discípulos só podem distribuir o que já receberam pela graça de Deus. Eles dão o que Cristo colocou em suas mãos.
O momento se tornou uma grande festa. A multidão foi alimentada e ainda sobraram doze cestos cheios – pois assim é a graça de Deus: superabundante! Inesgotável!
Mas não é um piquenique. Isso seria reduzir o texto bíblico a praticamente nada! É muito mais que uma festa. É muito mais que uma refeição. É muito mais que um evento social. É muito mais que uma mera lição moral de solidariedade. É muito mais! Não se trata de boas obras, mas da graça de Deus.
Não é disso que trata o Evangelho de hoje. Jesus não está tentando nos fazer sentir culpados, envergonhados ou motivados, neste texto, a sermos cidadãos melhores e mais responsáveis, tornando este mundo um lugar melhor, talvez até salvando-o, por meio de nossa boa vontade e boas obras.[4]
A verdade espiritual desse texto bíblico é que Jesus mesmo é o pão vivo que desceu do céu para dar vida a este mundo; que a graça de Deus é inesgotável; que a graça de Deus transforma o pouco que damos de coração em muito. Mas, acima de tudo, aqui já está sinalizada a Ceia do Senhor: isto é o meu corpo; isto é o meu sangue, dado e derramado para a remissão dos vossos pecados. Jesus Cristo é o pão abundantemente disponível para saciar nossa fome mais existencial.
Amados irmãos, amadas irmãs,
Jesus aproveitou a oportunidade para fazer um milagre que ensina aos seus discípulos – e a nós – sobre a vida no Reino de Deus. É mais que um piquenique. É mais que solidariedade (que, como já dito, não cristãos também fazem muito bem). É mais que obra humana (que conduziria à teologia da glória). É a graça de Deus.
Os doze cestos representam diretamente as 12 Tribos de Israel na Antiga Aliança e os 12 Discípulos de Jesus na Nova Aliança – que levarão a abundante mensagem do Evangelho ao mundo inteiro – até os confins da terra! Jesus nos alimenta com sua compaixão, com sua presença amorosa, com seu amor perdoador, com sua graça maravilhosa. Esse é o sentido.
Ainda há muitas ovelhas sem pastor. Ainda há muitas ovelhas sem o Bom Pastor Jesus. Talvez até dentro da igreja há ovelhas que a vida inteira viveu a fé como a vivência de uma obrigação e mero cumprimento de rituais e leis. O Evangelho é mais do que isso: é o oferecimento gratuito de um relacionamento diário com o Senhor. Não é uma fé apenas de Domingos, mas uma caminhada diária com Jesus.
Como você viveu a fé até aqui? Como foi sua vida com Deus até aqui? Fundamentada em leis e regras ou vivenciada na maravilhosa graça de Jesus? Jesus é o Bom Pastor. Ele não apenas retira o seu fardo, mas te concede o alimento que dá a vida eterna. Aquela multidão estava tão interessado nos ensinamentos de Jesus que nem tinham cogitado ir embora para jantar. Jesus era mais importante. E, por isso, mais importante que tudo, é permanecer com Jesus, o pão que nos alimenta pra sempre.
Hoje nós temos a Ceia do Senhor. Não vamos celebrar esse momento apenas como um ritual protocolar. Vamos ser como aquela multidão que não viu o tempo passar aos pés do Senhor. Receba o pão e o fruto da videira não como um mero alimento humano, mas como Corpo e Sangue de Cristo que nos dá o perdão dos pecados e tira o fardo que está sobre nossas costas. A multiplicação dos pães e peixes aponta para a superabundância da graça de Deus. Venha hoje à Ceia do Senhor disposto a receber a compaixão e a piedade de Cristo por ti. Amém.
[1] Cf. GUARDINI, Romano. O Senhor: reflexões sobrea pessoa e a vida de Jesus Cristo. São Paulo: Cultor de Livros, 2021. p. 281.
[2] Como Rábano Mauro, Crisóstomo, Remígio de Auxerre. in: AQUINO, Tomás de. Catena Aurea: Evangelho de São Mateus. Campinas: Ecclesiae, 2018. p. 491-496.
[3] Cf. ESSER, Hans-Helmut. “σπλάγχνα”. in: BROWN, Colin; COENEN, Lothar (orgs.). Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento. 2. ed. São Paulo: Vida Nova, 2000. p. 1300-1301.
[4] Rev. David M. Wendel da Igreja Evangélica Luterana Grace em Westerville, Ohio – EUA. in: <https://www.theologie.uzh.ch/apps/gpi/matthew-1413-21-3/>. Acesso em: 31. jul. 2026.