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Amados irmãos, amadas irmãs,
você se considera uma pessoa religiosa? Você se considera uma pessoa boa? Você acredita ser uma pessoa que faz tudo certo? E se você tivesse uma lista onde marca diariamente as coisas boas que faz, como seria? E como seria se alguém pegasse essa lista de coisas boas e certas, amassasse e jogasse no lixo dizendo que isso não vale nada? (Amassar umas folhas e espalhar na frente do altar). Como você se sentiria? Será que essas coisas boas nos dão salvação?
Podemos fazer tudo certo na vida terrena e ainda assim estarmos bem longe da vida eterna. Muita gente está dentro da igreja, mas fora de Cristo. Há muitas pessoas que se consideram “os maiorais” no mundo e são nada no Reino de Deus.
O apóstolo Paulo está preso por causa do anúncio do Evangelho de Cristo. Da prisão, através de Epafrodito (cf. Filipenses 2.25-30), Paulo envia uma carta aos irmãos da Comunidade em Filipos – que ele mesmo havia fundado (cf. Atos 16.11-15). Filipos é a comunidade da alegria de Paulo. Do Novo Testamento, é uma das que menos tem problemas. Contudo, isso jamais significa ausência de problemas.
A Comunidade em Filipos era formada tanto por judeus convertidos ao cristianismo quando por gentios (não judeus) convertidos à fé cristã. Surgiu então um grupo de judaizantes que queriam obrigar os demais cristãos a seguir as leis judaicas e inclusive a praticarem os rituais judaicos, como a circuncisão. Os judaizantes pretendiam, assim, ostentar a sua religiosidade diante dos outros através de uma “propaganda de perfeição” no seguimento das leis e rituais do judaísmo. No fim das contas, eles “queriam aparecer” e “se mostrar”. Apesar de fazerem “tudo certo”, Paulo chamou isso de confiar na carne. Já vamos descobrir o motivo.
1 PAULO (v. 4b-6)
Aos que querem “aparecer” e “se mostrar” através do cumprimento de leis e regras, Paulo apresenta o seu currículo – e não é qualquer currículo! Paulo traz os judaizantes para derrotá-los no próprio terreno deles[1]. Se os judaizantes se acham “os tais”, Paulo apresenta seu “currículo” não para competir com eles, mas para ridicularizá-los por ainda valorizarem coisas tão inúteis. O que Paulo diz de si mesmo?
a) Circuncidado no Oitavo Dia: Isso significa que Paulo está na primeira classe da família judaica[2]. Os judaizantes querem obrigar os filipenses a serem circuncidados como um “enxerto” no judaísmo; Paulo está dizendo que foi circuncidado muito antes do Evangelho chegar até Filipos[3];
b) Da linhagem de Israel: Paulo tinha “pedigree”. É um descendente puro e não um “enxertado”. Possui sangue genuinamente judaico[4]. Os judaizantes queriam “enxertar” os gentios no judaísmo; Paulo era da linhagem de Israel desde o seu nascimento[5];
c) Da Tribo de Benjamin: A ancestralidade de Paulo é a mais nobre. Ele vem de uma tribo de sacerdotes que representavam a nobreza de Israel[6]. Além disso, é da Tribo de Benjamin que surgiu o primeiro rei de Israel, Saul[7];
d) Hebreu de hebreus: Paulo pertencia ao grupo dos judeus que mantinham o hebraico e o aramaico como língua contra a helenização iniciada séculos antes, utilizando o grego para alcançar outros ao Evangelho[8];
e) Fariseu: Alguém separado dos outros judeus, com foco na observância oral da Torá[9]. Aliás, é certamente muito curioso que após as grandes discussões de Jesus com os fariseus, o próprio Senhor Jesus vocaciona um fariseu para se tornar o maior missionário do Novo Testamento;
f) Perseguidor da Igreja: Paulo estava tão convencido que estava certo que, inclusive, perseguiu a Igreja de Cristo com a intenção de destruí-la (cf. Gálatas 1.13), buscando atacar especialmente os judeus convertidos ao cristianismo[10]. Paulo era tão zeloso ao judaísmo que acreditava estar correto ao perseguir os cristãos e, inclusive, consentir com a morte de Estêvão, o primeiro mártir cristão (cf. Atos 8.1a);
g) Quanto à justiça que há na lei, irrepreensível: Como um fariseu, Paulo era um homem íntegro. Buscava cumprir os mandamentos e as leis dos judeus[11]. Como um fariseu, Paulo era adepto à interpretação farisaica da lei.
Ecce Homo: Eis o Homem! Se os judaizantes de Filipos querem “aparecer” e ser alguma coisa achando que assim alcançarão o caminho da perfeição, Paulo mostra a eles o seu currículo – e o currículo de Paulo coloca os judaizantes de Filipos aos seus pés. Se estas coisas realmente valessem alguma coisa, Paulo teria muito de que se orgulhar nelas. Contudo, como veremos a seguir, elas não valem de nada!
2 CRISTO (v. 7-11)
Após mostrar seu “currículo impecável” aos judaizantes de Filipos, Paulo “fecha o caixa” e “faz o balanço”: “Mas o que, para mim, era lucro, isto considerei como perda por causa de Cristo” (Filipenses 3.7). Aquilo que aos olhos do mundo pode ser excelente pode não valer nada para o Reino de Deus. Aquilo que o mundo valoriza pode não ter valor algum para o Reino de Cristo. Aquilo que brilha aos olhos do mundo pode não passar de algo insignificante diante de Cristo! Seu “excelente currículo” pertencia à carne: as tentativas humanas de autojustificação.
O apóstolo Paulo decidiu perder tudo para conhecer a Cristo. O foco deixa de estar em Paulo e passa a estar em Cristo. Paulo não testemunha de si mesmo, mas de Cristo – e do conhecer (viver um relacionamento) com Cristo. Isso se torna evidente na própria forma como o texto bíblico é escrito: “Cristo: citado nove vezes pelo nome ou por pronome nestes cinco versículos. Cristo preenche toda a visão de Paulo”[12]. Aquilo que era importante para Paulo e aquilo que os judaizantes consideram importante já não vale nada por causa de Cristo.
O modelo de Paulo é o próprio Cristo, conforme o hino cristológico de Filipenses 2.5-11. Cristo tinha tudo e deixou tudo para assumir a forma de servo, obediente até à morte e morte de Cruz. Foi então que Deus o exaltou. Da mesma forma – mas mantidas as diferentes proporções – Paulo “era o cara” que tinha tudo diante dos judeus. Seu currículo era impecável. Contudo, Paulo abriu mão do seu currículo para seguir e servir a Cristo. Mais do que isso: para conhecer a Cristo. Paulo renunciou à sua própria biografia para Cristo escrever sua nova história!
Ao fazer o balanço, Paulo considera o seu passado como perda. E usa uma outra palavra ainda mais forte: σκύβαλα, lixo, refugo, esterco. Essa palavra era usada para descrever aquilo que “era jogado aos cães”. Na antiguidade, os restos eram atirados na rua e cães errantes atuavam como lixeiros[13]. É isso que Paulo fez com o seu currículo. Ele fazia tudo certo, mas estava tão longe de Cristo e da salvação que seu currículo era inútil. Por isso, ao conhecer Cristo, seu currículo vai para o lixo.
Ganhar a Cristo significa a perda das coisas anteriores. O cumprimento das leis e rituais não conduzem ninguém à salvação: “Graça mais qualquer coisa cancela a graça. Graça e autoconfiança são antíteses radicais”[14] Conhecer a Cristo não significa um mero e vazio cumprir de leis e rituais. Conhecer a Cristo significa renúncia e relacionamento com o Senhor. Conhecer a Cristo significa ser discípulo do Mestre: “Se alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo, e tome cada dia a sua cruz, e siga-me” (Lucas 9.23). Ser discípulo de Jesus não significa ser um “supercrente” chato, mas um aprendiz do Mestre. A Antiga Aliança estava fundamentada na obediência fria da Lei; a Nova Aliança está fundamentada no relacionamento com o Senhor. Isso muda tudo! Os judaizantes precisavam entender isso. Nós precisamos entender isso! Nós, luteranos, precisamos entender isso.
Paulo decide perder tudo o que era para ser novo em Cristo. Seu currículo nada mais é que “obra da carne” que não leva a lugar nenhum. O caminho do cristão é outro – e nós, luteranos, precisamos entender isso:
a) Justificação: receber a justiça de Deus como graça imerecida. Cristo morreu por nós e nos deu, por graça, o perdão e a salvação;
b) Santificação: Conhecer o poder da ressurreição de Cristo e participar do seu sofrimento. É tomar a cruz e segui-lo – com as consequências (inclusive, perseguição). Importante: a santificação vem depois da justificação; jamais antes! Os judaizantes acreditavam que primeiro precisavam ser santos para então receberem a justiça de Deus. Cristo inverteu essa lógica: já fomos salvos, por isso buscamos viver em santidade enquanto discípulos, ou seja, aprendizes do Mestre;
c) Glorificação: jamais alcançada nesta vida terrena, mas apenas na morte e ressurreição para a vida eterna em Cristo Jesus, nosso Senhor.
Dessa forma, Paulo desceu do palco. Ele não escolheu a glória e o orgulho do seu “brilhante currículo”, mas o brilho e a glória de Cristo que são tudo para ele. E da mesma forma como Cristo foi humilde até à morte de Cruz, Paulo está disposto a deixar tudo e assumir a cruz por Cristo. Paulo não quis mais “subir” o palco da perfeição; ele desceu até à Cruz de Cristo e ali encontrou o Deus-homem perfeito. E isso nos leva ao ponto culminante:
3 O FUTURO (v. 12-14)
O que Paulo ainda não recebeu ou obteve foi o conhecimento pleno de Cristo Jesus. Este acontecerá apenas na Eternidade que é o alvo para o qual o cristão caminha. Esse futuro é seguro não por causa das boas obras de Paulo, mas por causa da promessa de Cristo. Assim, por sua promessa, o futuro pertence àqueles que perseveram para alcançar o prêmio, pois uma fé que não exige nada não vale nada e “graça é o oposto do mérito, não do esforço”[15]. O prêmio será conhecer a Cristo pessoalmente.
Amados irmãos, amadas irmãs,
Podemos fazer tudo certo na vida terrena e ainda assim estarmos bem longe da vida eterna. Muita gente está dentro da igreja, mas fora de Cristo. Há muitas pessoas que se consideram “os maiorais” no mundo e são nada no Reino de Deus. É preciso proclamar: há salvação fora da igreja, mas não há salvação fora de Cristo!
Nosso currículo e nossas obras enquanto obras da carne não valem nada à salvação! São lixo, esterco, coisas jogadas aos cães! Já as obras do Espírito são frutos de uma vida com Cristo: “Mas o fruto do Espírito é: amor, alegria, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão, domínio próprio. Contra estas coisas não há lei” (Gálatas 5.22-23). Nós, luteranos, precisamos aprender: a justificação traz a santificação enquanto aprendizado contínuo com Cristo.
De nada adianta confessarmos a fé, termos a doutrina decorada e virmos aos Domingos ao culto se queremos apenas “cumprir rituais” sem buscar um relacionamento verdadeiro e edificante com Cristo. Se for assim, tudo o que fazemos não passa de lixo, refugo, coisas lançadas aos cães. A resposta que Deus espera de você hoje é um sim para uma transformação da sua vida, para que você descubra o que é viver um relacionamento pessoal com o Senhor Jesus. Só então deixaremos de falar da nossa vida e passaremos a viver e falar da vida em Cristo!.
Quero concluir a pregação citando o reformador Martinho Lutero que escreveu:
Esta vida, portanto, não é retidão, mas um tornar-se reto; não é saúde, mas um curar-se; não é ser, mas um vir a ser; não é repouso, mas exercício. Ainda não o somos, mas estamos nos tornando. Ainda não está feito e consumado, mas está em curso e movimento. Não é o fim, mas o caminho. Ainda nem tudo reluz e brilha, mas tudo está sendo polido.[16]
Viva com Cristo e descubra o verdadeiro tesouro da sua vida. Amém.
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[1] Cf. HANSEN, G. Walter. The Letter to the Philippians. Cambridge: Eerdmans, 2009. p. 222.
[2] Cf. HANSEN, 2009. p. 223.
[3] Cf. FEE, Gordon. Filipenses: comentário exegético. São Paulo: Vida Nova, 2022. p. 572.
[4] Cf. HANSEN, 2009. p. 223.
[5] Cf. FEE, 2022. p. 573.
[6] Cf. HANSEN, 2009. p. 224.
[7] Cf. HANSEN, 2009. p. 224; FEE, 2022, p. 573.
[8] Cf. HANSEN, 2009. p. 224.
[9] Cf. HANSEN, 2009, p. 226.
[10] Cf. HANSEN, 2009. p. 227.
[11] Cf. HANSEN, 2009. p. 228.
[12] HANSEN, 2009. p. 230. Tradução própria.
[13] Cf. FEE, 2022. p. 588, nota 24.
[14] FEE, 2022. p. 589.
[15] WILLARD, Dallas. A Grande Omissão. São Paulo: Mundo Cristão, 2008. p. 42.
[16] LUTHER, Martin. Grund und Ursache aller Artikel D. Martin Luthers, so durch römische Bulle unrechtlich verdammt sind. In: LUTHER, Martin. D. Martin Luthers Werke: Kritische Gesamtausgabe. 7. Band. Weimar: Hermann Böhlaus Nachfolger, 1897. p. 336.
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